Tristes boleiros

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha

(…)

Wilson das Neves

“‘Taquipariu, maluco, perna de pau do caralho”. Carregava a bola embaixo do braço enquanto andava cheio de ginga pelas ruas de terra do morro. A bola encardida era meio desproporcional ao seu corpo franzino, que parecia ainda mais mirrado quando ficava sem camisa e usava apenas seu short adidas verde. Remexia tanto enquanto andava que dava sucessivos encontrões no amigo, que nada respondia. “Se fudê, neguim, tomanucú”. O amigo era levemente mais baixo, mas mais encorpado, com ombros largos e pernas grossas. Parecia ainda mais forte com sua camisa surrada do Flamengo. Levava vantagem nas divididas, já que conseguia equilibrar melhor o tronco, enquanto o outro parecia se erguer sobre duas enormes varetas. Mas naquele dia jogavam no mesmo time e haviam levado um pau dos garotos do morro vizinho, o que justificava os insultos recíprocos que, por outro lado, para eles era um diálogo costumeiro.

O sol já se escondia num horizonte irregular, salpicado por telhas. As vendinhas e mercearias se preparavam para encerrar o expediente, enquanto os bares abriam as portas. Homens de terno caminhavam por passos rápidos e duros, com a bíblia embaixo do braço, resignados rumo a algumas das muitas igrejas que se proliferavam por ali. Mulheres de saias longas percorriam o mesmo caminho, e cumprimentavam os homens de terno, de longe e com um leve aceno de cabeça. “A paz do senhor, irmão”. Eles, ali, com a bola embaixo do braço e gingando, faziam troça dos evangélicos, imitando o cumprimento em tom jocoso. “Dá nada, Neguim, aqui é nóis”, riam descompromissados o riso dos que ainda não sentem a responsabilidade das contas, dos filhos e da casa. Conheciam-se desde crianças, como todos ali. A mãe do mais alto, diarista, cuidava do mais atarracado quando a mãe deste, copeira num restaurante do centro, fazia hora extra. E vice-versa. Os pais, nunca conheceram. O que motivava brincadeiras de ambas as partes. “Ih, Neguim, olha só verdureiro, tem a tua cara, acho que é teu pai, hein”. Brincadeiras que, invariavelmente, terminavam em uma rápida troca de socos e, eventualmente, com os dois rolando pelo chão. Escaramuças que duravam pouco, pois sabiam que um nariz sangrando ou um joelho machucado motivariam surras bem mais dolorosas em casa.

Neguim, Neguim, era tantas vezes chamado assim que passou a acreditar ser esse seu verdadeiro nome. No primeiro dia de aula, ainda criança, respondeu se chamar “Neguim” à professora, provocando gargalhadas no restante da classe, o que o deixou com vergonha. “Não, seu nome é Anderson”, respondeu complacente a professora. “Mas é também neguim”. “Não, é Anderson e chega”, pôs fim àquela discussão em um tom mais duro. Mas para os colegas, continuou sendo “Neguim”. Passou então a acreditar que, fora da escola, chamava-se Neguim e, durante as aulas, “Anderson”, assim como em casa, “filho”.

As estrelas já despontavam no céu quando apertaram o passo para não chegarem tão tarde em casa, movidos pela fome e, principalmente, o medo de uma bela surra de chinelo. Mal notaram que, ao redor, as pessoas também se apressavam e os bares, aos poucos, fechavam as portas antes do primeiro cliente entrar. “Coé, maluco, anda rápido ae”. Só foram perceber as luzes vermelhas piscando quando se viram cercados. “Os dois na parede já, porra!”, gritou o homem, apontando a arma que segurava com as duas mãos. Não se pode dizer que não estivessem acostumados com aquilo, mas por alguma razão gelaram e hesitaram por um momento, o que fez o homem ficar ainda mais histérico. “Os dois viadinhos na parede agora, caralho!”, gritou, cuspindo. Sem dizer nada, encostaram as mãos na parede ficando de costas para os homens de preto. Enquanto um apontava a arma, um outro veio por trás desferindo um chute com o bico da bota na canela de cada um que quase os derrubou. “Precisa esculachar não, tio”, disse Neguim, com um fio de voz que lhe restava. Mal conseguiu terminou a frase e sentiu o baque na ponta do crânio, numa coronhada que o jogou ao chão. “Cala a boa, seu merdinha maconheiro filadaputa”, disse o homem. Desta vez não gritou, pelo contrário, quase sussurrava, de forma ameaçadora. A bola encardida caiu no chão e rolou morro abaixo.

Neguim olhou para cima, tentando proteger a cabeça e pôde ver a caveira despontando por sobre o uniforme negro, tal como um personagem de histórias em quadrinhos. O homem lacrimejava dum ódio que o fazia parecer pronto a explodir a qualquer momento. “As características conferem, cabo”, conseguiu ainda ouvir, antes de ser arrastado pelo braço. “Essas putas ficam parindo sem parar e a gente é que tem que ficar limpando essa merda toda”. Neguim se virou para o lado e viu o amigo também ser arrastado pela rua de terra. As vielas já estavam desertas a essa hora, mas puderam perceber os olhos assustados atrás das janelas entreabertas. O que a mãe dele estaria pensando aquela hora? Com certeza, não escaparia dum couro bem dado. E ainda ficariam sem o jantar. Quando deu por si, já estavam no campinho. Era, na realidade, um terreno baldio que ficava atrás da primeira fila de barracos do morro. Logo após a aula, a garotada invadia o campinho, improvisando o gol com latões de tinta vazios. À noite, porém, era bastante diferente, pensou. O único ruído era dos grilos e o som da avenida lá embaixo, um tanto distante. Lembrou-se do jogo que perderam naquela tarde, uma fragorosa derrota. Fez as vezes de zagueiro, volante e atacante, percorrendo o campinho desesperadamente de um lado para outro. Esforçaram-se, pelo menos, mas aquele não era o seu dia.

Escutou um som surdo, rápido e seco. Olhou para frente e notou o pequeno corpo atarracado do amigo estirado sobre o campinho. De sua cabeça jorrava um líquido borbulhante. O homem em pé guardou a arma prateada no coldre sem expressar qualquer emoção. Tentou gritar, mas algo o fez cair no chão antes que pudesse emitir qualquer ruído. De bruços, sentiu a grama queimada de sol entre os dedos e a terra fofa no rosto. Lembrou-se que aquela sensação era parecida àquela vez que marcou, ali mesmo, um belo gol de cabeça. Aproveitou o cruzamento preciso do pequeno e lançou-se com tudo de cabeça na bola, sem chances para o goleiro. Caiu de cara no chão e esfolou todo seu corpo grande e desajeitado, mas a satisfação daquele lance era maior que qualquer dor. Era a glória, imaginou-se no Maracanã lotado, sendo aclamado pela torcida, que gritava seu nome. “Neguim, Neguim!” Tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu. Sentia apenas o corpo e aquele molhado quente invadindo seu peito. “Deu ruim, sargento, bora, bora”. As vozes tornaram-se cada vez mais distantes até restarem apenas os grilos descompassados. Imaginou o jantar posto sobre a mesa, o cheiro da carne cozida tomando o pequeno cômodo que fazia as vezes de sala e quarto. Como explicaria para a mãe seu atraso?

“Anderson, Anderson”, os gritos ecoavam de longe. Pôde sentir o corpo ser virado para frente e mãos aparando sua cabeça. Quem o chamaria assim? Estaria de volta à escola? Um torpor irresistível ia tomando conta de seu corpo, como uma espécie de sono pesado, o mesmo que sentia nas manhãs de domingo em que resistia ir às missas acompanhando a mãe. A mãe que, naquela hora, já o estaria esperando na porta do barraco com o chinelo nas mãos. O que diria a ela? Distinguiu alguns rostos conhecidos que apareciam, embaçados, em sua volta, e novas luzes vermelhas piscando, como aquelas que enfeitavam os barracos no final do ano. Engraçado, não sabia que já era Natal. Ainda conseguiu olhar para o lado, procurando a bola com a qual marcara aquele gol. Um belo gol, até poderia aparecer na TV. Poderia ficar famoso. E seria aplaudido pelo Maracanã. Mas ela não estava ali.

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