Agridoce

Acordei naquela calçada com um gosto amargo na boca. Não, não é uma metáfora, entende? A saliva grossa trazia um sabor amargo típico de ressaca. As pernas doíam e o pescoço estava endurecido pelo mau jeito. Também, pudera, havia dormido praticamente sentado na marquise daquele prédio. Levantei dali cambaleando, ajeitando o velho casaco verde musgo, estilo militar. Bati a poeira da calça abrigo preta que cobria metade do tênis adidas cinza, e fiquei um tempo em pé ali, tentando lembrar o que sonhara naquelas poucas horas. Tentava me concentrar mas era difícil, por que não lembramos dos nossos sonhos quando acordamos? Aquilo realmente me deixava puto, era como se a gente perdesse algo que sabia que estava por ali, mas que não conseguia encontrar. Imagens aleatórias sem sequência ou sentido iam e viam. Um balão vermelho cintilante rasgando um céu azul, um céu realmente bonito, desses de cartão postal, o balão subia, subia e chegava até bem perto do sol e se transformava numa grande bola de fogo. Desde criança sonho com balões, e eles caem, furam, desaparecem, mas acho que era a primeira vez que o via queimar.

Era o meu terceiro dia. O aviso de despejo que o oficial de Justiça trouxe ainda estava pregado na porta do apartamento, por isso resolvi ficar por ali mesmo, como se algo me ligasse àquele lugar. Sabe aquelas histórias de quando alguém morre e o espírito ainda tem uma conexão com corpo, e por isso fica preso a este mundo? Os monges tibetanos queimam os mortos para deixar o espírito partir livre ao seu destino. Por isso havia resolvido atear fogo naquele prédio, mas acabei desistindo, mais pelo trabalho que isso daria, na verdade, embora a imagem daquele velho edifício se consumindo em chamas pudesse me trazer algum tipo de satisfação. Como o balão.

Sei que logo vou perder a noção do tempo, mas por enquanto este é o terceiro dia. Meus cabelos estão ensebados e a pele oleosa por causa do calor, mas isso não me incomoda muito. Levanto então e o estômago se contorce, fazendo barulho. Fome. Não sei qual a última vez que comi. A única coisa que engoli ontem foi um terço de uma garrafa de aguardente que uma travesti me trouxe. Ela chegou, perguntou se eu aceitava, claro, respondi, daí ela se sentou do meu lado, passou a garrafa e pôs-se a falar, falar. Não lembro muito bem o que dizia, mas tinha algo a ver com um cara que fazia programa com ela pouco antes e que não queria pagar o que ela exigia, e houve uma briga ou algo assim. Tomava aos goles a garrafa enquanto fingia que prestava atenção e respondia com grunhidos e monossílabos, enfim, ela deve ter pegado a garrafa de volta quando dormi, pois não achei mais ela.

O porteiro não me cumprimenta mais. Passo por ele e ele vira o rosto, disfarça, com uma cara meio constrangida. Embora o lugar seja o mesmo no qual vivo há cinco anos mais ou menos, é como se estivesse habitando um outro mundo, como se fosse um fantasma em que a maioria não pudesse enxergar, que alguns sentem medo e que os únicos a te perceberem ali são os outros fantasmas. As putas, travecos, e os noias fedendo a mijo e suor. Mas esses só andam por ali à noite e já era dia, o sol queimava a pele e o estômago retorcia. O gosto amargo já ia embora junto com a saliva que secava. Fico um pouco tonto, preciso muito comer. Qualquer coisa.

Um homem se aproxima do outro lado do quarteirão. Camisa da seleção, verde e amarela, duas listras pintadas no rosto, um pouco gordo de bochechas rosadas e óculos escuros rayban. Ele me vê, sei que me viu, porque seus passos ficam um pouco hesitantes. Ele é dos que conseguem me ver e sentem medo. Me aproximo, ele desvia o passo pro outro lado, mas eu o sigo. Bom dia, tudo bem, digo, tentando parecer simpático, mas ele olha pra mim com olhos de pavor. O senhor me desculpe viu, mas estou com fome, será que não tem uns trocados pra eu comprar algo, pergunto, com um tom de voz quase infantil, tentando engolir o constrangimento, porque ainda sentia vergonha daquilo, é algo que não superei ainda, mas que já me disseram que passa com o tempo, que era normal nos primeiros dias. Ele não responde e aperta o passo. Moço, moço, repito, e nada. Corro por trás dele então, o agarro pela camisa e, rodando, o jogo com força contra o muro. O rayban dele se quebra e corta o supercílio encharcando o rosto de sangue. Aproveito pra enfiar a mão no bolso de trás da sua bermuda e pegar a carteira. Cadê a porra do celular, grito, passa o celular ou te mato aqui mesmo. Ele me entrega seu iphone, tremendo. Melhor vazar daqui, algumas pessoas já olham pra cá, estou dando muita bandeira, embora ninguém faça nada.

Tento primeiro andar, a passos rápidos, tentando fingir normalidade. Mas percebo uma certa movimentação por ali. Pega, pega, escuto, é a polícia, polícia, ele está ali ó. Corro. Esbarro numa senhora de andador, que grita, mas porra, tonto que estou não consigo dar um pique. Um baque, um estrondo forte, caio. Meu rosto raspa o chão da calçada e a minha boca fica molhada e doce. Vejo algumas pessoas se amontoando a minha volta, mas só observo, entre eles o reflexo do sol projetado no prédio espelhado, esperando passar por ali um balão.

Ao fundo, sons de fogos de artifício me fazem sorrir, mesmo sabendo que não eram pra mim.

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Um homem bom

Chegou apressado na repartição, bateu o ponto de forma atabalhoada e correu pra sua mesa. Estava 15 minutos atrasado e aquilo o perturbava. Não se lembrava da última vez que se atrasara nos vinte anos de serviço ali.  Estava pálido, mais que o normal, e o suor lhe escorria aos borbotões das têmporas, do pescoço, das axilas.

_Tá tudo bem Geraldo?_ Perguntou o chefe, demonstrando uma preocupação protocolar. _Claro, seu Almeida, tudo sob controle_ respondeu, esbaforido, enquanto ajeitava a papelada sobre a mesa_ só um pequeno contratempo no caminho, nada demais.

Colocou a mão sobre o abdome, inspirou profundamente e se concentrou na papelada. Não podia decepcionar seu Almeida. Não podia deixar que os colegas pensassem que era relapso ou omisso. Era preciso atender as expectativas, ainda que elas não fossem lá grandes coisas. Como sempre em sua vida.

Após uma hora, mais ou menos, conseguiu minimamente se secar, aparentando uma certa normalidade. Contudo, ofegava ainda e permanecia pálido. A hora do almoço se aproximava e os funcionários, como de hábito, postavam-se em frente ao relógio fazendo uma contagem regressiva mental.

_Não vai almoçar não, Geraldo?

_Estou sem fome, depois eu como um lanche, tenho algumas coisas atrasadas aqui.

Os colegas, ao se afastarem, comentavam. “Que diabos ele tem?” “Pelo jeito, é crise em casa.” ‘Nessa idade aí, não deve estar mais dando no couro e a patroa já partiu pra assistência.” “Cala a boca, não fala merda, conheço a mulher de Geraldo, vai à igreja todos os domingos.” “E isso lá significa alguma coisa?”. A polêmica durou exatos três minutos, inconclusa, já que ninguém tinha intimidade suficiente para questionar diretamente Geraldo.

Isolado em sua mesa, Geraldo cabisbaixo aguardava os minutos e as horas passarem. No interior daquela repartição, o tempo se arrastava como se os ponteiros do relógio estivessem congelados. Embora estivesse estranho aquele dia, não deixava de sorrir, complacente, e tentar parecer solícito. Precisava agradar a todos. Tinha essa necessidade. A simples ideia de contrariar quem quer que fosse lhe causava pânico, taquicardia, independente da hierarquia, do chefe à faxineira. Se lhe perguntassem alguma opinião sobre política ou futebol, tratava de analisar o inquiridor e respondia exatamente aquilo que achava que se esperava ouvir. Era capaz de dar uma resposta diametralmente oposto minutos depois a outra pessoa.

Prestes a bater seis da tarde, novamente o relógio era assistido pelos funcionários de bolsas e pastas em punho, prontos a arrancarem. Geraldo levantou-se vagarosamente, com a mão sob o abdome, e caminhou rumo à porta. Agora, mancava, mas apertou o passo preocupado em se atrasar para o jantar e iniciar uma discussão com a mulher. Algo que, evidentemente, o apavorava. Pegou o coletivo e saltou no ponto a duas quadras de casa, com passos desajeitados tentando compensar a dessincronização das pernas.

_Tudo bem, querido, como foi seu dia? Está mancando… Está tudo bem Geraldo?

_Sim, não foi nada não, logo passa, respondeu, não sendo mais questionado.

Sentou-se e comeu mecanicamente a janta, tentando transparecer o máximo de normalidade possível. Trocaram meia dúzia de palavras sobre o clima, o preço do supermercado e a filha da vizinha pega fumando maconha, de novo. Geraldo só suspirou, levantou-se e lavou a louça.

_Bom, vou deitar, hoje foi um dia duro e não posso me atrasar amanhã_ disse à esposa, que assistia a novela deitada no sofá.

(…)

A mulher acordou ao som do despertador. Virou-se para o lado e chamou o marido, encostando a mão em seu ombro. “Geraldo, você vai perder a hora, acorda”, disse sonolenta. Nada. Chacoalhou o companheiro, que permanecia inerte. Acendeu a luz do abajour e virou Geraldo de barriga pra cima, colocando a mão na boca pra conter um grito de terror. Geraldo, de olhos semiabertos, não mais respirava. Ergueu a mão que desde o dia anterior o marido recobria o abdome e encontrou uma mancha de sangue. Levantou a camisa e viu um corte profundo.

Em meio à perplexidade daquela cena, percebeu que Geraldo havia sido esfaqueado. Nunca se soube por quem ou em quais circunstâncias, num segredo que Geraldo levou junto a sua bondosa solicitude.

Vício

Tirou cuidadosamente o esparadrapo do dedo da mão direita. Alinhou o alfinete com a esquerda e introduziu, lentamente, sua ponta por debaixo da unha. A dor fina, aguda, veio acompanhada de um filete de sangue. Um estremecimento profundo emanou da mão para o braço, percorrendo todo o corpo. Chupou o sangue e recolocou o esparadrapo.

Já estava convencido. Havia se viciado na dor. Todos os dias, procurava alguma forma de provocar um novo impulso diferente dos nervos ao córtex e ao hipotálamo. A blusa cobria os cortes alinhados nos braços. As mesmas marcas que ostentava na parte superior das coxas. Como todo viciado, porém, precisava de mais.

A descoberta veio por acaso. O tênis apertado lhe machucava o pé direito a ponto de formar uma bolha. A princípio um pequeno incômodo, mas que poucos dias depois já se transformava numa ferida que manchava as meias de sangue. Percebeu, no entanto, que não tomara nenhuma providência não por desleixo, como pensava. Estranhou quando se deu conta que, na verdade, gostava daquela sensação.

Não era adepto de práticas sadomasoquistas, como alguns poderiam pensar. Tinha aversão a tudo aquilo. Seu prazer não era de forma alguma sexual. Era uma espécie de alívio físico, como coçar uma picada de mosquito. Mas dez, cem, vezes mais intenso. Sentia-se bem, vivo, aliviado com a dor. E não queria que parasse.

As feridas crescentes, porém, o preocupavam. Era obrigado agora a usar manga comprida no sol e calor do verão. E arrumar desculpas para os curativos nas mãos. Decidiu, enfim, procurar ajuda. Descobriu na Internet um grupo de pessoas que, como ele, eram viciadas em dor. Uma espécie de sofredores anônimos. Reuniam-se nas noites de quarta numa pequena sala nos fundos de uma igreja do centro da cidade.

Chegou ao local bem no horário da reunião, cálculo para evitar maiores constrangimentos. Todos já estavam acomodados, sentados em círculo nas modestas cadeiras de madeira. Teve pouco tempo para estudar as 15 pessoas que o cercavam, mas percebeu que alguns usavam terno. Outros vestiam apenas uma camisa social genérica, enquanto dois ou três trajavam camisetas surradas. Notou também algumas mulheres, talvez quatro, e um adolescente. As mulheres também diferiam entre si, uma idosa, outra na casa dos quarenta e as outras duas um pouco mais moças, bem parecidas entre si, talvez irmãs.

A primeira impressão é que estava diante de um grupo eclético, tanto em relação à faixa etária quanto a classe social. Compartilhavam, porém, uma estranha característica: pequenos curativos nos dedos e braços. Pelo menos um deles tinha hematomas bem visíveis no rosto.

Explicaram-lhe que, como de praxe, ele iniciaria a reunião com um depoimento pessoal. Tudo bem, respondeu.

_Boa noite a todos, meu nome é…

_Seja bem-vindo… Responderam num coro copioso.

Relatou de forma breve a sua angústia. Como estava naquele grupo, achou por bem carregar no drama e nas dificuldades que o vício lhe trouxera. Disse ainda ser aquilo uma aberração, que tinha vergonha de procurar um médico e o tacharem de louco. E, por fim, que esperava se livrar disso o quanto antes. Tentando parecer simpático, agradeceu a acolhida.

O homem que o recebera, um sujeito dos seus cinquenta anos, calvo, de camisa pólo azul e óculos de aro fino, levantou-se então e o tocou de forma gentil nos ombros.

_Meu filho, se você quiser parar com isso, lamento dizer que aqui não é o lugar – Pronunciava as palavras de forma calma e tranquila, enquanto falava de pé, ao seu lado.

_Como assim? Vocês não vão me ajudar? Por quê?

Transparecia certo transtorno e nervosismo, a tal ponto que gaguejava ou comia as sílabas, como costumava fazer quando nervoso.

_Vou te explicar, tenha calma. Quando os primeiros de nós começaram a se reunir, tínhamos esse objetivo de superar o nosso vício. Fizemos de tudo e, acredite meu rapaz, quando eu digo de tudo, quero dizer de tudo mesmo.

Ouvia aquilo em silêncio, mas com a expressão de contrariedade ainda marcada no rosto.

_Chegamos então à conclusão que a única coisa que podíamos fazer era aprender a nos aceitar como somos e viver da melhor forma com isso. Tentarmos não nos matar, por exemplo, enfim, administrar esse nosso vício.

_Mas isso é loucura! – explodiu, consternado – Isso não é normal, não podemos viver assim!

Todos assistiam àquela cena em silêncio, alguns até mexiam no celular, como se nada demais estivesse acontecendo. Como se já tivessem assistido muitas vezes e aquele tipo de reação fosse absolutamente previsível.

_Meu caro, e o que é normal? Nós gostamos da dor? Sim, gostamos. A buscamos todos os dias da nossa vida, pra aliviar algo que existe e pulsa dentro do peito? Sim, claro. Mas isso é diferente do que as outras pessoas fazem? Olhe as pessoas ao seu redor, no seu emprego ou na sua família. Você mesmo vai me dizer que nunca se envolveu com alguém sabendo que daria errado, que seria uma catástrofe, enfim, sabendo que iria, de alguma forma, sofrer?

Não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Mas também não conseguia articular palavras para responder ou argumentar do contrário. Apenas balançava a cabeça tentando demonstrar uma indignação inverossímil. Mais para si próprio, talvez, que para a plateia.

_Por que o drama, no cinema ou no teatro, faz sucesso? Por que as pessoas pagam pra sentir aquilo que seria, por definição, desagradável? Por que ouvimos música pra chorar? As pessoas ditas normais sentem a mesma coisa que nós aqui sentimos dentro do peito e todos buscam alguma catarse. A humanidade, meu rapaz, é viciada na dor.

Num rompante, levantou-se de forma brusca da cadeira e, sem dizer nada, caminhou em direção à porta. Ao sair notou a expressão irritante de normalidade do grupo. Pensou ter visto até uma das mulheres bocejando discretamente. Bando de malucos, pensou, antes de ganhar as ruas.

Na quarta-feira seguinte, foi um dos primeiros a chegar.

Um emprego digno

Era a terceira ou a quarta vez que passava por aquele anúncio estampado no mural. Desta, porém, resolveu parar e puxar um dos filetes com o número de telefone. Era um daqueles anúncios muito comuns nas faculdades, de papel sulfite recortado para o interessado destacar o número de contato. Acima, apenas um enunciado: “Precisando de trabalho? Entre em contato”.

Sabia que a vaga era para a faculdade de artes, mas não tinha ideia de que se tratava. Mas àquela altura não fazia tanta diferença. Já passava do segundo mês de aluguel atrasado e uma pilha de contas se acumulava sobre a escrivaninha do quarto. Sua dieta se resumia a dois ou três pingados na padaria, cobertos por um pão e manteiga na chapa. Precisava fazer algo rapidamente. Colocou créditos no celular e tentou a sorte.

Bem que se esforçou, mas não conseguiu que seu interlocutor lhe revelasse a natureza da vaga em questão. Foi apenas orientado para estar às 9h do dia seguinte em frente à faculdade. Munido de um roupão, de preferência. As instruções lhe soaram estranhas, claro, mas o anúncio de despejo que o esperava embaixo da porta de casa falou mais alto. Às 8h45 já estava posicionado em frente à faculdade. Dez minutos depois chegou uma mulher de uns 30 anos, de calça jeans e camiseta branca manchada de tinta. Dois minutos mais tarde se aproximou um senhor de longas barbas brancas e aparência circunspecta. Cumprimentaram-se com um tímido aceno de cabeça e permaneceram mudos, com os olhos voltados ao chão. Às 9h em ponto a porta se abriu e os três foram abrigados numa pequena sala. Um por um, foram sendo chamados para a entrevista.

Ele foi o terceiro. Viu a mulher e o velho entrarem na outra sala, permanecendo lá por uns 10 minutos e saírem tão mudos quanto entraram. Finalmente chegou a sua vez. Entrou na sala de entrevistas, uma pequena sala que mal comportava a mesa e as duas cadeiras além de uma estante com livros desdenhosamente empilhados. Um homem de óculos já sentado fez um sinal para que se acomodasse na cadeira em frente à sua. Pegou uma folha de papel e leu, apertando os olhos com as mãos na lente: “Silas, hmmm… bom…”. Alguns segundos de silêncio constrangedores se estabeleceram, sendo quebrados apenas com a ordem inesperada do empregador. “Queira tirar suas roupas, por favor”.

Hesitou por alguns instantes, como seria impossível não hesitar. Mas obedeceu, não se sabe por quê. Na verdade, não pensou muito, simplesmente se levantou e começou a se despir. Alguns dizem que a melhor maneira de fazer outra pessoa tomar uma atitude extrema é a pegando desprevenida, de forma com que não consiga, em poucos segundos, concatenar algum tipo de raciocínio e estabelecer uma ligação lógica com o que está sendo pedido ou ordenado. A resposta é automática. Mas Silas só foi pensar nisso mais tarde. Naquele momento, estava ocupado em desafivelar o velho cinto que travava nos momentos mais impróprios. Ficou, enfim, completamente nu à frente do entrevistador, que olhava meticulosamente para cada parte de seu corpo.

“Bom, você já deve ter percebido para o que está sendo chamado, não?”, afirmou em tom de interrogação o homem. Sils mentiu e assentiu com a cabeça, mesmo não fazendo ideia do que se passava ali. “Começa na segunda, chegue pontualmente no horário marcado que os alunos não podem esperar”. Foi só então que percebeu o real sentido da oferta que lhe fora feita. Modelo vivo. Nunca achou que daria para isso. Seu corpo tinha alguma simetria, verdade, mas estava longe de ser um deus apolíneo. Bem, pensou, talvez seja isso mesmo que queiram. A pontada no estômago não permitiu que se detivesse demasiadamente nesses pensamentos. Iria ganhar relativamente bem para ficar nu em frente a uma turma de universitários, qual o problema? Seria um modo digno de ganhar dinheiro, ou não? Não seria uma forma de prostituição, por exemplo, ainda que seu objeto de trabalho fosse o próprio corpo. Não, estaria ali em nome da arte. Foda-se a arte, precisava comer e pagar o aluguel. O estômago primeiro, depois a moral, já dizia Brecht.

O primeiro dia foi o mais estranho. Nunca havia feito aquilo. Mas estava resignado. Despiu-se e ficou lá em frente a turma de 15 alunos. A maioria homens. Ato quase contínuo, quando livrou-se do roupão contraiu as pernas a fim de esconder o pau entre as coxas. Mas o professor, avisado da inexperiência do modelo, fez-lhe um sinal de reprovação com a cabeça e ele simplesmente relaxou. A sessão durou quase duas horas. Tirando o constrangimento inicial, porém, até que não havia sido tão difícil.

Aos poucos, foi se habituando à nova rotina e àquela estranha ocupação. Porém, embora pudesse dizer que estava acostumado aos olhares quase que clínicos dos estranhos que, diariamente, perscrutavam cada reentrância de seu corpo, não se sentia plenamente confortável. Um certo sentimento de culpa foi lhe tomando as ideias, para seu desgosto e, principalmente, surpresa. Verdade seja dita, nunca fora um poço de moralidade ou virtude. De onde vinha então aquela repentina consciência? Reflexo de sua educação católica? Uma fagulha fossilizada da moral judaico-cristã incrustada em sua alma? Enfim, decidiu tratar a questão como, em geral, tratava todos os seus problemas de sua vida. Foda-se.

Foi se soltando a ponto de, em determinado momento, já fazer troça de sua própria anatomia para os estudantes mais inexperientes alivarem a tensão. Foi nessas brincadeiras que reparou em Augusto. Primeiro-anista apesar da idade já avançada em relação aos colegas, do tipo que já passou dos 30, Augusto tinha cabelos loiros num corte rente, quase militar. Os olhos azuis, de gringo. Percebeu que o olhar do rapaz se detinha mais que os outros. Ou nos momentos em que ele simplesmente se esquecia do lápis e se punha a contemplá-lo, simplesmente, por minutos a fio. De forma que não se surpreendeu quando Augusto o convidou a tomar uma cerveja após uma aula. E aceitou, por que não?

Um boteco simples, porém charmoso. Uma cerveja. Depois mais uma. Outra mais. Conversas triviais e agradáveis. Decidiram pagar a conta quando já passava da meia-noite. Na saída do bar, Augusto puxou Silas pelo cinto e deu-lhe um beijo caloroso nos lábios. Silas respondeu, encostando a mão em sua nuca enquanto o acariciava nas costas com a outra. Chamaram um táxi para o apartamento de Augusto.

O duplex não chegava a ser suntuoso, mas era de um nível que indicava o estrato social do rapaz. A luz indireta banhava a sala e o pequeno bar no canto do cômodo, cintilando luzes coloridas das dezenas de garrafas expostas. Augusto pegou um champagne, o verdadeiro fez questão de dizer e serviu uma taça a Silas. De cristal, também fez questão de ressaltar. Pediu um minuto e foi ao aparelho de som colocar uma música. Coltrane. Apropriado, pensou Silas. Quando Augusto voltou, Silas se entretia com o rótulo. ‘Brut rosé’, tentou pronunciar, sob os risos do parceiro.

Quando Augusto se virou para pegar sua taça que repousava sobre a mesa, Silas não hesitou. Golpeou com toda a força a cabeça do rapaz com a garrafa do champagne, que trincou mas não chegou a quebrar. Augusto tombou desajeitado no chão, ficando imóvel sobre o braço esquerdo, enquanto o direito dobrava-se como um hieróglifo egípcio. Uma pequena poça de sangue se formou embaixo de sua cabeça. Silas deixou a garrafa em cima da mesa, arrancou a carteira do rapaz e a colocou no bolso. Agora, precisava ser rápido, vamos ver o que temos de bom, pensou, antes de vasculhar as gavetas e armários do apartamento.

Onde já se viu ganhar a vida mostrando o corpo a estranhos?

Ora pro nobis

(rogai por nós)

Espalhou o pó sobre a mesa, pegou o cartão do banco e fez uma larga carreira que parecia uma grossa lagarta branca. Tampou uma das narinas e aspirou com força. Levantou a cabeça e ainda inspirou para certificar-se que não desperdiçaria nada. Após alguns segundos estático, tomou um gole generoso do whisky para dar aquela rebatida e bateu com força o copo na mesa. Um fio de suor escorria do rosto, descendo pelo pescoço até afluir nos vastos pêlos do peito.   Arfava.

_Você não se cansa dessa vida? Vai acabar morrendo com tanta merda que toma, disse ela, enquanto se espreguiçava na cama. Uma fina camisola semitransparente recobria seu corpo, não dando conta da fartura de suas formas. Uma serpente com a boca aberta e dentes ameaçadores tomava sua coxa esquerda, indo do joelho até a pélvis. A tatuagem de um verde já desgastado em sua pele morena dava voltas na perna.

_Era o que só o que me faltava, uma puta querendo me dar lição de moral, respondeu, com a cabeça baixa e não conseguindo esconder sua irritação, contida ainda que as palavras fossem fortes. Podia-se perceber, contudo, que se arrependera tão logo disse aquilo, pois balançou a cabeça em sinal de desaprovação de si mesmo. Ergueu os olhos procurando os dela.

_Vai tomar no seu cú, ela explodiu, levantando-se com raiva. Como se você fizesse algo melhor, ainda disse. Ele, porém, correu em sua direção e a abraçou forte, lutando contra seus socos e tapas. Era mais forte que ela, mas os golpes doíam. _Desculpe, meu amor, falei sem pensar, tentava repetir enquanto a segurava. Aos poucos ela cedia e o que antes era uma luta foi se transformando em um outro tipo de batalha, de beijos famintos e arranhões. Ela percorreu seu torso e puxou a braguilha com as duas mãos, fazendo estourar o zíper, enquanto ele rasgava a fina camisola, atirando suas partes pelo chão.

Jogaram-se já completamente nus sobre a cama, onde se possuíram com violência e desespero. Ele ainda teve que segurar com força sua boca para abafar os gritos, ao mesmo tempo em que continha os seus próprios. Terminaram já exaustos, machucados e banhados em suor. O lençol, encharcado, ganhou manchas salpicadas de vermelho.  Em cima do criado mudo, uma pequena imagem de Maria já desgastada pelo tempo testemunhava tudo com um ar de indiferença.

Sem dizer nada, ela se levantou, vestiu-se mecanicamente, tirou o espelhinho da bolsa e começou a se maquiar. Já ele foi ao banheiro e, também sem nada falar, tomou uma ducha rápida. Fechou a torneira quando ouviu a porta batendo. Desdobrou a camisa preta do guarda-roupa e vestiu, ajustando o colarinho bem rente ao pescoço. Já estava atrasado. Saiu do quarto, andou por um corredor estreito até abrir uma porta que o levou a um ambiente amplo, silencioso e de uma reconfortante meia-luz.

Desenrolou o rosário do bolso e entrou na parte de trás do confessionário. Tomou um suspiro antes de autorizar o fiel a começar a falar. Esse mundo está cheio de pecado, pensou.

Tristes boleiros

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha

(…)

Wilson das Neves

“‘Taquipariu, maluco, perna de pau do caralho”. Carregava a bola embaixo do braço enquanto andava cheio de ginga pelas ruas de terra do morro. A bola encardida era meio desproporcional ao seu corpo franzino, que parecia ainda mais mirrado quando ficava sem camisa e usava apenas seu short adidas verde. Remexia tanto enquanto andava que dava sucessivos encontrões no amigo, que nada respondia. “Se fudê, neguim, tomanucú”. O amigo era levemente mais baixo, mas mais encorpado, com ombros largos e pernas grossas. Parecia ainda mais forte com sua camisa surrada do Flamengo. Levava vantagem nas divididas, já que conseguia equilibrar melhor o tronco, enquanto o outro parecia se erguer sobre duas enormes varetas. Mas naquele dia jogavam no mesmo time e haviam levado um pau dos garotos do morro vizinho, o que justificava os insultos recíprocos que, por outro lado, para eles era um diálogo costumeiro.

O sol já se escondia num horizonte irregular, salpicado por telhas. As vendinhas e mercearias se preparavam para encerrar o expediente, enquanto os bares abriam as portas. Homens de terno caminhavam por passos rápidos e duros, com a bíblia embaixo do braço, resignados rumo a algumas das muitas igrejas que se proliferavam por ali. Mulheres de saias longas percorriam o mesmo caminho, e cumprimentavam os homens de terno, de longe e com um leve aceno de cabeça. “A paz do senhor, irmão”. Eles, ali, com a bola embaixo do braço e gingando, faziam troça dos evangélicos, imitando o cumprimento em tom jocoso. “Dá nada, Neguim, aqui é nóis”, riam descompromissados o riso dos que ainda não sentem a responsabilidade das contas, dos filhos e da casa. Conheciam-se desde crianças, como todos ali. A mãe do mais alto, diarista, cuidava do mais atarracado quando a mãe deste, copeira num restaurante do centro, fazia hora extra. E vice-versa. Os pais, nunca conheceram. O que motivava brincadeiras de ambas as partes. “Ih, Neguim, olha só verdureiro, tem a tua cara, acho que é teu pai, hein”. Brincadeiras que, invariavelmente, terminavam em uma rápida troca de socos e, eventualmente, com os dois rolando pelo chão. Escaramuças que duravam pouco, pois sabiam que um nariz sangrando ou um joelho machucado motivariam surras bem mais dolorosas em casa.

Neguim, Neguim, era tantas vezes chamado assim que passou a acreditar ser esse seu verdadeiro nome. No primeiro dia de aula, ainda criança, respondeu se chamar “Neguim” à professora, provocando gargalhadas no restante da classe, o que o deixou com vergonha. “Não, seu nome é Anderson”, respondeu complacente a professora. “Mas é também neguim”. “Não, é Anderson e chega”, pôs fim àquela discussão em um tom mais duro. Mas para os colegas, continuou sendo “Neguim”. Passou então a acreditar que, fora da escola, chamava-se Neguim e, durante as aulas, “Anderson”, assim como em casa, “filho”.

As estrelas já despontavam no céu quando apertaram o passo para não chegarem tão tarde em casa, movidos pela fome e, principalmente, o medo de uma bela surra de chinelo. Mal notaram que, ao redor, as pessoas também se apressavam e os bares, aos poucos, fechavam as portas antes do primeiro cliente entrar. “Coé, maluco, anda rápido ae”. Só foram perceber as luzes vermelhas piscando quando se viram cercados. “Os dois na parede já, porra!”, gritou o homem, apontando a arma que segurava com as duas mãos. Não se pode dizer que não estivessem acostumados com aquilo, mas por alguma razão gelaram e hesitaram por um momento, o que fez o homem ficar ainda mais histérico. “Os dois viadinhos na parede agora, caralho!”, gritou, cuspindo. Sem dizer nada, encostaram as mãos na parede ficando de costas para os homens de preto. Enquanto um apontava a arma, um outro veio por trás desferindo um chute com o bico da bota na canela de cada um que quase os derrubou. “Precisa esculachar não, tio”, disse Neguim, com um fio de voz que lhe restava. Mal conseguiu terminou a frase e sentiu o baque na ponta do crânio, numa coronhada que o jogou ao chão. “Cala a boa, seu merdinha maconheiro filadaputa”, disse o homem. Desta vez não gritou, pelo contrário, quase sussurrava, de forma ameaçadora. A bola encardida caiu no chão e rolou morro abaixo.

Neguim olhou para cima, tentando proteger a cabeça e pôde ver a caveira despontando por sobre o uniforme negro, tal como um personagem de histórias em quadrinhos. O homem lacrimejava dum ódio que o fazia parecer pronto a explodir a qualquer momento. “As características conferem, cabo”, conseguiu ainda ouvir, antes de ser arrastado pelo braço. “Essas putas ficam parindo sem parar e a gente é que tem que ficar limpando essa merda toda”. Neguim se virou para o lado e viu o amigo também ser arrastado pela rua de terra. As vielas já estavam desertas a essa hora, mas puderam perceber os olhos assustados atrás das janelas entreabertas. O que a mãe dele estaria pensando aquela hora? Com certeza, não escaparia dum couro bem dado. E ainda ficariam sem o jantar. Quando deu por si, já estavam no campinho. Era, na realidade, um terreno baldio que ficava atrás da primeira fila de barracos do morro. Logo após a aula, a garotada invadia o campinho, improvisando o gol com latões de tinta vazios. À noite, porém, era bastante diferente, pensou. O único ruído era dos grilos e o som da avenida lá embaixo, um tanto distante. Lembrou-se do jogo que perderam naquela tarde, uma fragorosa derrota. Fez as vezes de zagueiro, volante e atacante, percorrendo o campinho desesperadamente de um lado para outro. Esforçaram-se, pelo menos, mas aquele não era o seu dia.

Escutou um som surdo, rápido e seco. Olhou para frente e notou o pequeno corpo atarracado do amigo estirado sobre o campinho. De sua cabeça jorrava um líquido borbulhante. O homem em pé guardou a arma prateada no coldre sem expressar qualquer emoção. Tentou gritar, mas algo o fez cair no chão antes que pudesse emitir qualquer ruído. De bruços, sentiu a grama queimada de sol entre os dedos e a terra fofa no rosto. Lembrou-se que aquela sensação era parecida àquela vez que marcou, ali mesmo, um belo gol de cabeça. Aproveitou o cruzamento preciso do pequeno e lançou-se com tudo de cabeça na bola, sem chances para o goleiro. Caiu de cara no chão e esfolou todo seu corpo grande e desajeitado, mas a satisfação daquele lance era maior que qualquer dor. Era a glória, imaginou-se no Maracanã lotado, sendo aclamado pela torcida, que gritava seu nome. “Neguim, Neguim!” Tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu. Sentia apenas o corpo e aquele molhado quente invadindo seu peito. “Deu ruim, sargento, bora, bora”. As vozes tornaram-se cada vez mais distantes até restarem apenas os grilos descompassados. Imaginou o jantar posto sobre a mesa, o cheiro da carne cozida tomando o pequeno cômodo que fazia as vezes de sala e quarto. Como explicaria para a mãe seu atraso?

“Anderson, Anderson”, os gritos ecoavam de longe. Pôde sentir o corpo ser virado para frente e mãos aparando sua cabeça. Quem o chamaria assim? Estaria de volta à escola? Um torpor irresistível ia tomando conta de seu corpo, como uma espécie de sono pesado, o mesmo que sentia nas manhãs de domingo em que resistia ir às missas acompanhando a mãe. A mãe que, naquela hora, já o estaria esperando na porta do barraco com o chinelo nas mãos. O que diria a ela? Distinguiu alguns rostos conhecidos que apareciam, embaçados, em sua volta, e novas luzes vermelhas piscando, como aquelas que enfeitavam os barracos no final do ano. Engraçado, não sabia que já era Natal. Ainda conseguiu olhar para o lado, procurando a bola com a qual marcara aquele gol. Um belo gol, até poderia aparecer na TV. Poderia ficar famoso. E seria aplaudido pelo Maracanã. Mas ela não estava ali.