Outono de mim

E eu que me achava tão forte a ponto de debochar dos dramas alheios, enfim, tombei. E foi uma bela queda. Não sem avisos, por certo, como um carro acelerado rumo ao precipício, mas que você só consegue enxergar o azul do céu e as folhas despencando no ritual eterno do outono.

Não foi preciso nenhum aviso formal, nem ao menos um lacônico zap. Seus olhos já falavam o que viria. O outono estava em seus olhos, como as folhas secas e desbotadas, prenunciando um inverno rigoroso.

E eu, que sempre desprezei as metáforas, sobretudo as mais óbvias, vi o outono em seus olhos. E eu, que sempre recusei os clichês mais triviais, quando dei por mim estava em um, vendo o riso fazendo-se o pranto, “silencioso e branco como a bruma”. Não mais que de repente.

E eu, que sempre tentei ser tão racional, até mesmo nas instâncias que inevitavelmente escapam de qualquer racionalidade, não mais conseguia encaixar sentimentos e impulsos em fórmulas e geometrias. Sim, de repente, e não mais que de repente, estava só.

A verdade era que não estava só, porém, e isso é o pior. Eu, que sempre me omiti em encarar os problemas e dificuldades de frente, tive de admitir. Seu cheiro ainda me impregnava os poros, sua saliva ainda estava em minha boca e os fios de seus cabelos entrelaçavam-se ainda em meus dedos. Seu sorriso queimado como uma chapa na minha retina. Sua voz ecoando em meu ouvido. E eu, que sempre tentei evitar tal palavra, tão distorcida, banalizada e, no meu ponto de vista, tão subjetiva, disse que a amava.

Mas já era outono e as flores se ressequiam junto às folhas. Eu, que nunca tive dúvidas de quem era, questiono-me quem está a escrever estas linhas. Sim, meu documento está aqui ao lado, com uma série de números e uma foto antiga. Mas ele não diz quem eu sou. Se o que somos é o resultado complexo do conjunto de nossas experiências, vivências e impressões, e se nos construímos durante um tempo ao lado de alguém, transformamo-nos, não “numa só carne”, mas em duas pessoas diferentes, simbioticamente distintas. Agora, voltando a mim, percebo que não sou mais o eu de antes, e que nunca voltarei a ser.

E eu, que sempre odiei sensacionalismo sentimentalista barato, sinto-me amputado daquilo que mais amava. Amputado porque era parte de mim, e agora restam reminiscências tão somente, uma vaga lembrança e, sobretudo, a dor dilacerante do corte.

Eu, sempre tão fechado e instrospectivo, nunca pensei que escreveria isso. E eu, cujo orgulho e vaidade nunca foram meus fortes, sinto-me traído por esse “eu”, e a única possibilidade que deslumbro é a sua simples supressão. Eu, que sempre carreguei esse eu, terei que matar o eu antes que o inverno finalmente chegue.

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Dis(U)topia

Ninguém sabe ao certo como aquilo começou.

Uma força-tarefa internacional de cientistas, astrônomos, físicos e meteorologistas se reuniram em intermináveis conferências, fechadas à imprensa, logo nos primeiros dias. Sem a presença da Rússia e China que, devido à desconfiança generalizada, foram alijadas das articulações oficiais e resolveram montar seu próprio centro de pesquisas, em local não informado.

Pela televisão e Internet, líderes mundiais faziam permanentes declarações públicas implorando calma à população e que evitassem o máximo se deslocarem sem necessidade. No segundo e terceiro dia, a economia começava a colapsar e um feriado indefinido foi informalmente decretado. O comércio já escasseava tanto devido à voracidade da classe média que se precavia estocando produtos, essenciais e os não tão essenciais, quanto os cada vez mais recorrentes saques de uma turba de desvalidos e famélicos.

Pelas ruas das grandes cidades a distopia tomava forma, arrebentando as aparentemente sólidas estruturas e relações sociais. Autoridades eram atacadas, ridicularizadas ou simplesmente assassinadas pelas ruas. Estado de sítio era ignorado. Multidões caminhavam a esmo desviando-se de pregadores anunciando o apocalipse, chamando o arrependimento, pois aquela era a hora, tal como Josué clamou que o sol parasse no firmamento para que os hebreus exterminassem os amorreus, aquele era o sinal de uma guerra espiritual contra os demônios da devassidão da modernidade.

Grupos de ambientalistas protestavam contra o que consideravam ser os efeitos, repentino e radical, do efeito estufa, processo devidamente escondido por governos conspiratórios em conluio às grandes transnacionais.

Executivos dos maiores fundos de investimentos, encabeçados pela BlackRock, começaram uma articulação sigilosa e restrita, traçando cenários distintos e a melhor forma de se precaverem da situação, deixando de lado eventuais atritos e disputas. O monopólio do capital precisava, se necessário for, se ampliar para um monopólio da própria vida, ainda que isso não seja tão diferente do que ocorria antes daquele misterioso evento.

Aqueles dias foram denominados de diferentes formas, em partes distintas do mundo e culturas. “Noite perpétua”, “escuridão eterna”, “apocalipse” ou simplesmente o “fim do mundo”, dependendo das seitas que se proliferavam como pragas e anunciavam de forma estridente sinais dos mais variados do que seriam os cumprimentos de profecias, a maioria improvisada, por óbvio. O problema é que o mundo continuava ali. Com a diferença de que, a partir de um dia como qualquer outro, o sol simplesmente deixou de nascer, jogando o planeta numa penumbra inexplicável.

Pelos meios de comunicação, cientistas atestavam atônitos que tudo funcionava na mais perfeita normalidade, por mais que aquelas palavras soassem estranhas naquele momento. Os mais modernos telescópios e instrumentos de medições confirmavam que o sol continuava seu movimento como previsto, as manchas solares não apresentavam qualquer anormalidade e a Terra seguia sua jornada eterna pelo caminho do vazio do Universo. O que quer que estivesse ocorrendo, afetava tão e somente os habitantes desse ponto azul da Via Láctea. Psicanalistas e congêneres sugeriam uma espécie de surto coletivo, sendo invariavelmente esbofeteados por isso.

Se nos cosmos tudo funcionava perfeitamente bem, alheio às preocupações mundanas, na superfície as reações variavam, como ocorre em situações extremas. Grande parte se refugiou em retiros e orações. Outros tantos se lançaram em aventuras hedonistas acreditando serem aqueles últimos momentos de suas pobres existências. Alguns partiram para uma solução final movidos por um misto de desespero e resignação.

À exceção de um único lugar. No interior de uma encardida oficina mecânica no fundo da Zona Leste de São Paulo, Oseias continuava seu trabalho em meio a motores desmontados, sucatas e muita graxa. A princípio até deixava o rádio ligado, mais para ouvir uma voz humana do que para se inteirar do caos que tomava conta do mundo. Até que a energia elétrica se foi, sendo obrigado a desembrulhar algumas velas que mantinha por sorte nos fundos da oficina. A luz incandescente permitia perscrutar as peças, fios e mangueiras desgastadas, assim como a Adriana Galisteu desbotada na parede. As pernas, ao menos.

Oseias, com o passar dos dias, foi adaptando as dificuldades e limitações daquela nova situação à sua rotina e, por surpreendente que fosse, notou que não havia mudado muita coisa. Apesar dos clientes terem sumido, continuava a trabalhar e, na medida do possível, manter os prazos acordados. Sem energia, na unha e com a iluminação precária, o esforço era significativo.

Talvez seja por isso que Oseias não percebeu quando, ao final de sete dias, os raios do sol finalmente começaram a aparecer, iluminando um mundo caótico e destruído. Hordas de saqueadores, religiosos, burgueses e jovens pilhados foram às ruas, ainda incrédulos, contemplando aqueles fios dourados que ultrapassavam a nuvem para se espraiar pelo ar. Abraçaram-se então de forma efusiva e até certo ponto sincera naqueles momentos, mesmo sabendo que logo depois voltariam a se matar.

Menos Oseias, que dormia em sua oficina sonhando com Galisteu nas ilhas gregas.

Resiliência

Certa manhã, José acordou de sonhos intranquilos. Mexeu os braços, esfregou o rosto e os olhos, e não, não havia se transformado numa barata. Melhor. Notou a esposa dormindo ao lado e foi levantar da cama. Espreguiçou-se longamente e, quando desceu as pernas, ouviu um baque forte e surdo. Uma maciça bola de metal caíra no chão, rente à sua perna. Estava acorrentada ao seu tornozelo esquerdo. Levantou-se e foi arrastando com certa dificuldade aquele pesado pedaço de aço. O sol despontava naquela tranquila manhã de outono, e os primeiros sons do dia já se faziam ouvir, anunciando a polifonia caótica da cidade.

Abriu o guarda-roupa e escolheu uma calça de barras largas, a fim de esconder o máximo possível aquele estranho objeto. A esposa levantava para fazer o café, olhou com o rabo do olho aquela bola, mas nada disse. Evitar constrangimentos era sua especialidade. O silêncio, outra. Trocaram meia dúzia de palavras antes de José sair para trabalhar. Quase perdeu a condução, com a locomoção prejudicada por aquele trambolho.

Entrou no ônibus percebendo olhares furtivos de condenação do motorista e do cobrador, e foi logo se sentar no fundo do coletivo. Chegou na obra e os companheiros, mesmo percebendo a insólita cena, também nada disseram. Com um pouco mais de dificuldade, José conseguiu terminar a parede que faltava. Um trazia a argamassa já pronta, o outro os tijolos e ele apenas empilhava um por um, tascava cimento e retirava o excedente com a espátula. Procedimento que, embora desgastante sob o sol inclemente, não exigia uma movimentação tão ampla. Ao final do dia, porém, sua perna esquerda latejava.

Chegou em casa nesse dia e jantou normalmente. No banho, observou longamente aquela bola, a curta corrente que se ligava de forma firme à perna. Tentou enfiar um dedo entre o metal e a perna, mas era tão apertada que mal conseguia entrar a ponta do indicador. Enfim, nada havia a se fazer, enxugou-se e enxugou a bola e a corrente para não molhar a casa.

Deitou-se na cama e ajeitou a bola a fim de não incomodar a esposa com o frio do metal.

No dia seguinte, a esposa estava mais calada que o habitual. Postou a mesa do café, sentou-se e ficou na frente de José com o olhar perdido, como se matutasse algo. José, por óbvio, respeitador que era, evitou perguntar o motivo daquele silêncio. Terminou rápido o café, pois sabia que agora demorava mais para chegar ao ponto de ônibus.

Na obra, um clima estranho pairava entre os tijolos, a cal, o cimento e os fios de aço. Poucas palavras dos companheiros, que desviavam os olhos constrangidos ante sua presença. José entendeu a situação e não se magoou. Quase ao final do expediente, foi chamado à sala do encarregado.

_José querido, como vai? Senta aí rapaz.

Sentou-se na cadeira, tentando esconder ao máximo seu grilhão, e lá permaneceu em silêncio.

_Olha meu querido, você sabe que gosto de você, nunca deu motivo pra nada… Mas cá entre nós, sabe que vou ter que dispensar, não é? – olhava de forma sutil para a bola metálica enquanto falava.

José nada disse, só assentiu com a cabeça com um leve suspiro.

Voltou para a casa se arrastando. Já não mais sentia a perna latejar, porém, como se a bola já fizesse parte dele. Entrou em casa sob os olhares curiosos dos vizinhos, que tampouco tiveram coragem de tecer qualquer comentário sobre a estranha situação. Quando ganhou a sala, notou um profundo silêncio tomando conta do vazio. Sob a mesa, um pequeno bilhete escrito no papel de pão: “Meu marido, não posso mais, peguei as crianças e levei pra mãe. A janta está na panela”.

José sentou-se à mesa e comeu direto da panela. Terminou, deixou-a ali mesmo e foi se deitar com a mesma roupa que chegara da obra.

Na manhã seguinte, José acordou de sonhos bastante tranquilos. Levantou-se e foi passar o café. Viu o sol que penetrava a persiana e atravessava a cozinha em meio ao vapor da água. Sentia-se leve. Olhou para baixo para constatar, embora soubesse, se o grilhão continuava atado à perna. Mas sabia, enfim, que não fazia mais nenhuma diferença.

Fogos de artifício

_Acorda! Acorda, Tião!

As imagens de sua mãe rodeada pelos irmãos pequenos na frente do barraco se desvaneceram. Tentou ainda lutar para fixar aquele sonho na memória, mas em vão. Quando abriu os olhos, já havia percebido que sua mãe não estava ali, nem em nenhum outro lugar.

_Que foi mulher, oxe! – respondeu irritado, abanando a mão.

_Não tá vendo essa fumaça? Levanta daí, vamos morrer!

Permaneceu ainda, por uns tantos segundos, alheio ao que ocorria. Apertou os olhos, esfregou, ameaçando um meio bocejo. Lentamente, tomava consciência do pandemônio à sua volta. Uma nuvem negra espessa tomava conta do teto e se expandia, em meio a gritos e falas desencontradas pelo corredor. O calor ardia na cara como nos dias quentes em que empurrava o carrinho pelas ruas do centro. Percebeu, enfim, o que acontecia.

_Pega o menino, mulher, pega lá, vamos descer.

A mulher tomou a criança do berço improvisado de papelão, apertando-a forte contra o peito. Não chorava embora acordada, apenas espreitava com os olhos arregalados aquele estranho mundo que ainda descobria e tentava entender.

_Pega os documentos Tião, não dá mais tempo de nada.

A nuvem espessa já tomara conta daquele pequeno espaço, tentando invadir furiosamente os olhos, o nariz e a garganta. Apenas de shorts, Tião abre o gaveteiro de plástico postado ao lado do colchão e apanha um pequeno embrulho de sacola plástica com propaganda de supermercado. Olha para a TV de 20 polegadas de tubo e tem um momento de hesitação. Menos pelo que teve que fazer para conseguir comprá-la na feira do rolo do que pelas lembranças que ela lhe trazia. A última do Corinthians campeão, quando chegou a rezar e colocar um copo de água em cima do aparelho, prometendo não beber por um mês caso o timão ganhasse aquela. Cumpriu, ou quase. Mas, como o sonho do sono interrompido, foi obrigado a encarar a realidade.

_Vamo bora, bora, bora – gritou.

A mulher enrolava a cabeça da criança com um pano úmido, branco, enquanto lutava para calçar as sandálias. Tião pega o embrulho, desiste de colocar alguma das camisetas jogadas pelo chão e, do mesmo jeito que levantou, envolve os braços nos ombros da mulher.

_Tião, o Chano!

_Não dá tempo, bora, bora!

Ela não se moveu, apenas o olhou com os olhos de água e vermelhos pela fumaça, sem dizer nada. Ele entendeu.

_Vai indo, desce lá, vou pegar ele.

_Não…

Entregou a mulher e o bebê a uma senhora que descia correndo a escada, e voltou ao cômodo tampando o rosto com uma das mãos.

Não gostava desse nome: “Chano”, de “bichano”, mas já se acostumara a ele. Encontraram-no ali mesmo no prédio no dia em que chegaram. De uma ninhada abandonada, magro com os ossinhos quase rompendo os parcos pêlos, parecia já conformado com o triste destino quando eles chegaram. Logo se recuperou, engordando com a vida boa de bicho. Até o bebê nascer, era o único a dividir o cômodo com o casal. Testemunhara tantos momentos naquele espaço que já era parte daquele mundo.

Quando chegou a criança, costumava dormir enrolado ao seu lado, velando seu sono dividindo o berço.

_Onde cê tá Chano! Caralho Chano!

Nada. Vasculhava os papelões, as roupas, as panelas em cima dos tijolos. Ouviu então os primeiros estrondos ensurdecedores que fizeram as estruturas estremecerem. Até que conseguiu ver, no cantinho do cubículo, uma diminuta sombra encolhida. Correu para lá, tirou algumas sacolas e jornais e achou seu amigo peludo. Tremia. Tentou pegá-lo, mas foi arranhado com força. Não consegui ver, mas sentiu o braço rasgar. Com as duas mãos, segurou forte o bicho e o abraçou para que não escapasse mais.

A fumaça negra naquele momento dava lugar às labaredas que invadiam, pelo teto, o cubículo. O corpo todo ardia. Os estrondos se sucediam como bombas num filme de guerra. Como quando o Corinthians ganhou o campeonato. Como quando fora despejado da última vez pela polícia. À sua frente só havia uma parede flamejante engolindo tudo à sua volta. Chano não tremia mais. Apertou-o contra o rosto e sentiu sua pelugem macia e quente.

_Tá tudo bem Chano, tá tudo bem.

Lá fora as chamas saltavam como grandes fogos de artifícios em meio aos arranha-céus da cidade.

Mensagem

Recebeu aquela misteriosa mensagem no meio da madrugada, o que lhe fez paralisar por alguns longos minutos. A janelinha do Facebook irrompeu sem aviso enquanto lia com atenção alguma coisa sobre o meteoro que atingiria a Terra nas próximas semanas. Tão logo recobrou a atenção, fechou-a bruscamente como se escondesse de alguém, ainda que estivesse sozinho.

No dia seguinte, acordou novamente sonolento e arrastou-se à repartição no que seriam seus últimos dias antes da aguardada aposentadoria. A mensagem, porém, martelava em sua cabeça com insistência.

_Que foi Sérgio?

_Nada não, coisa de velho, sabe como é.

Nunca fora de muitas palavras e por isso ninguém deu atenção ao seu jeito amuado. Mas saiu naquele dia com uma pressa fora do normal, dando uma despedida coletiva de meias palavras, quase um muxoxo, atraindo olhares e algumas sobrancelhas levantadas. O velho Sérgio acabou encontrando um encosto de cabeça nessa etapa da vida, alguém mais corajoso acabou soltando num tom jocoso.

Não conseguiu jantar e foi direto para o computador. Com o mouse trêmulo e hesitante, abriu aquela janelinha, como se espiasse por uma estreita fresta, ou um buraco da fechadura, alguma coisa proibida.  Enfim, estava lá, a mensagem enigmática, amedrontadora, que lhe tirara a paz nas últimas 24 horas: “Oi Sérgio, tudo bem com você?”

Leu, releu, fechou e abriu de novo. Continuava lá. Não ousou responder, apenas fechou o Facebook e arrancou o fio da tomada sem finalizar.

Naquela noite decidiu tomar seus comprimidos para dormir, pois sabia que de outro jeito não conseguiria.

De manhã cedo já estava na repartição antes da hora de bater o ponto. A camisa amassada, os cabelos grisalhos desalinhados e as olheiras já começavam a atrair comentários maldosos daquele microcosmo no qual conseguira passar incólume por quase quatro décadas.

Esperou impacientemente o Almeida chegar. Almeida, um pouco mais novo que ele, era o que se poderia chamar de amigo, em seus próprios termos. Isso significa a única pessoa ali que conseguia trocar meia dúzia de palavras numa semana, apesar dele o ter convidado para ser padrinho de sua filha há uns 20 anos atrás. Qual era mesmo o nome dela? Não conseguia se lembrar pois sempre quando perguntava, naquelas perguntas formais e obrigatórias, referia-se a “sua filha”. Como vai sua filha? E ela sempre estava bem.

_Almeida, tudo bem? – Perguntou se aproximando da mesa do colega, com um fio de voz quase sussurrando.

_Sérgio, beleza? Tudo tranquilo. – Respondeu, ajeitando a pasta e arrumando o bloco de papel timbrado, posicionando o carimbo e estralando os dedos como se fosse partir para uma briga.

_ Como tá a filha?

_ Tá bem, Sérgio.

Continuou ali, olhando para o Almeida, que mal estranhou o colega olhando fixamente para ele, esperando alguma reação ou que perguntasse o que queria, o que não aconteceria.

_Almeida, precisa falar contigo.

Aquela frase fez o amigo parar instantaneamente. Era a primeira vez que ouvia algo assim em tantos anos de convivência. Deixou os papeis de lado, ajeitou os óculos de aro fino, franziu a testa focando bem  Sérgio e encostou a mão no braço do colega que estava sobre a mesa.

_Aconteceu algo, Sérgio? _ disse, preocupado, imitando o tom baixo de sua voz.

_Não… Quero dizer, sim… É estranho, queria ver se a gente podia conversar.

Percebendo a gravidade da situação, Almeida propôs-lhe que conversassem após o expediente, no boteco que havia na esquina da rua.  Sempre vazio, não despertaria grandes atenções.

Às 18h15, lá estavam.

_Almeida, não sei como dizer isso, você provavelmente vai me achar maluco, mas é que…

_Diga logo homem, bradou Almeida enchendo os copos e alcançando um para Sérgio.

_Eu recebi uma mensagem da Vânia, disse Sérgio, seco e direto, esperando a reação do colega antes de falar qualquer outra coisa.

Almeida terminou o gole de cerveja e colocou a copo sobre a mesa.  Olhou fixamente para Sérgio durante alguns segundos, sem dizer nada.

_A Vânia falou contigo é?

_Sim, replicou prontamente.

Almeida esperou outros longos segundos, como se digerindo a resposta.  Em silêncio, tomou outro demorado gole de cerveja, sempre olhando fixamente os olhos de Sérgio.

_Você sonhou com ela? Ela apareceu para você numa visão, algo assim?

_Não, ela me mandou uma mensagem no Facebook.

_No Facebook…

Almeida repetiu a resposta, talvez com a esperança de que o amigo ouvisse o que acabara de dizer e se tocasse do absurdo. Sérgio, porém, permanecia com aquele mesmo ar preocupado que dos dois dias anteriores, olhando para Almeida e para os lados como alguém sendo vigiado ou perseguido.

_Sérgio, se tem uma coisa que eu sei da sua vida esses anos todos, é de como essa história da Vânia mexeu com você.

_Olha Almeida, sei que você deve estar me achando louco, mas é o que aconteceu, não posso fazer nada.

_Certo, e o que você respondeu?

_Nada. Não consegui responder nada.

A garrafa já ia terminando quando Almeida foi ao balcão e pediu outra. Aquela história não iria terminar na primeira. Voltou à mesa já argumentando o que concatenara naquela rápida volta.

_Pode ser uma brincadeira de alguém, sei lá. Alguém que sabe que vocês eram noivos quando ela te largou, pouco antes de morrer.

_Almeida, isso tem mais de 30 anos, quem vai saber disso?

_Bom, ou pode ser ela mesmo, vai saber. Você não chegou a ir ao enterro dela, não é?

_Não, fiquei sabendo só alguns meses depois, quando encontrei por acaso um amigo em comum.

_Então, meu caro Sérgio, pode ser que ela esteja tão viva quanto eu e você. Ou quem sabe seja ela mandando uma mensagem do além, vai saber.

_… – Sérgio pareceu não ter gostado da brincadeira.

_Certo é, meu amigo, que você vai ter que respondê-la e descobrir o que está acontecendo. Chega de esconder o passado, meu velho, é hora de encará-lo, ainda que isso seja doloroso pra você.

Sérgio ouvia calado, rodando o copo de cerveja na mesa formando irregulares círculos de água. Nunca ouvira Almeida falar daquele jeito. Aliás, em poucas ocasiões o ouviu de fato. Chegou a sentir raiva do que parecia ser uma recriminação. O que ele quis dizer com “encarar o passado”? Por acaso o chamava de medroso? Mas o que dizia fazia sentido. Seja o que fosse, teria de descobrir o que estava acontecendo.

Pagaram a conta, despediram-se e Sérgio tomou o rumo de casa, decidido. Ligou o computador e encarou aquela janelinha. A foto, o mesmo rosto de como se lembrava dela, como que olhando para ele.

Começou a digitar: “Oi Vânia, tudo bem sim, e com você…”.

Parou e olhou aquela frase. Tomou ar como se fosse dar um longo mergulho e pôs-se a escrever freneticamente. Simplesmente derramou ali todas as angústias, frustrações, mágoas e tudo mais que guardara no peito por quatro longas décadas. Escrevia como se possuído, sem parar, por quase duas horas.

Quando terminou, sentia-se de fato mais leve, como se um peso tivesse sido tirado dos seus ombros. Olhou para a tela do computador por alguns instantes. Minutos? Segundos? Não saberia dizer. Fechou a janela sem apertar enter. Bloqueou o perfil de Vânia.

Decerto era uma brincadeira. Esse Almeida, sempre pregando peça, pensou.

Pesadilla

 

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os fios de cabelo que se pregavam como algas em meu rosto. Inclinei a cabeça para frente e tentei relaxar o corpo teso. Mexi levemente as pontas dos meus dedos num movimento contínuo, sentindo em suas pontas a textura áspera do cobertor. Pela janela do meu quarto, uma fresta da persiana deixava escapar dois fios luminosos de claridade. Já era dia.

Empreendi um esforço considerável para levantar. Encostei os pés no chão frio do taco envelhecido do quarto, firmei a planta do calcanhar neles e pendi para frente. Um corpo suspenso no ar, ancorado por pés frágeis e cambaleantes. Forcei os olhos no quarto escuro, tentando identificar aquele lugar. Observei o criado mudo empoeirado, por sobre o qual repousava um velho retrato. Seria eu ali, embaixo daquela camada de poeira? Passei a mão e descobri metade da fotografia, revelando um homem de sorriso aberto, de uma alegria um tanto triste ou forçada talvez. Era eu, mas não era eu. Virei para baixo.

Caminhei em direção à sala e tropecei sobre a garrafa vazia jogada no chão. Escorei-me na parede para não perder o equilíbrio, em vão. Escorreguei lentamente. O pó cinza entrava em minhas narinas e decidi que seria uma boa ideia permanecer por ali por um tempo. Minhas mãos apalparam um pedaço de papel amassado, peguei-o postando à minha frente, tentando focá-lo numa das frestas que entravam pela janela. Meu boletim da sétima série, logo reconheci as notas. Quanto potencial, sorri sarcasticamente em pensamento.

Ouvi um ruído na sala, um rangido de sofá. Decidi levantar, o que fiz lentamente. A passos lentos, entro na sala franzindo a testa e cerrando os olhos por conta da luz que transbordava da janela. Ainda assim, a penumbra tomava conta de boa parte do cômodo. A poeira suspensa parecia uma densa neblina. Sentado sobre a poltrona, um velho senhor olhava para baixo, indiferente, como se matutasse algo. De chapeu cinza, camisa branca, calça social e sapatos carcomidos. Minha presença não pareceu incomodá-lo.

Quando percebeu que estava ali, levantou-se apoiado na bengala, apalpou a poeira da calça e me estendeu a mão direita. Apertei, sentindo sua pele fria e rugosa. Ele se virou e, sem dizer qualquer coisa, abriu a porta, postando-se ao lado para me dar passagem. A claridade de fora iluminou seu rosto, explicitando profundos sulcos morenos e finos fios brancos  despontando do queixo. Reconheci meu avô.

Caminhei em direção à porta e, antes de atravessá-la, olhei ao meu redor como se me despedisse. A velha TV recoberta por um véu alvo de teias empoeiradas. Os livros amarelados jaziam sobre o chão. No canto, três frascos abertos quase passavam desapercebidos, com alguns comprimidos vermelhos quase se integrando os tacos de madeira.

Dou um passo à frente e, sob os olhos do velho, atravesso a porta. Estava voltando para casa.

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os cabelos à minha fronte.

Abri os olhos após um longo pesadelo.

Abri os olhos.

Longo pesadelo.

Responsabilidades

As articulações de meus dedos já doíam quando ele parou de se debater. Um espasmo rápido e seus músculos se contraíram, antes de relaxar e se estender completamente. As marcas de minhas mãos ficaram impressas em seu pescoço, num tom arroxeado.

Acendi um cigarro e fiquei contemplando seu corpo inerte jogado ao chão. Os olhos arregalados pararam em minha direção, como se me olhassem também. A boca entreaberta deixava parte da ponta da língua para fora. Aproveitei a bituca que ainda fumegava e queimei seu braço, uma lição antiga de um professor de Legislação que jurava que aplicava esse teste em todo velório que ia. Se formasse bolha era porque ainda estava vivo. Não fez, meu trabalho estava terminado.

Hora de voltar para casa.

A primeira vez que ele apareceu foi no banheiro, não tenho mais certeza. Abri o box ao sair do chuveiro e me deparei com ele ali, parado, em pé no canto. Mentiria se dissesse que me assustei. Fiquei parado na sua frente, encarando-o. Não sou homem de fugir às minhas responsabilidades. Ele, por sua vez, permaneceu imóvel, alheio à minha presença. Peguei a toalha, me enxuguei e abri o vitrô para escovar os dentes.

A partir daí, começou a me seguir para todo lugar que eu fosse. Sempre calado, como uma sombra sorrateira. Caminhava ao meu lado na rua, um pouco mais atrás, contando os passos. Com o passar dos dias, percebi que seu corpo ia se putrefando, exalando um cheiro cada vez mais forte e nauseante. Um cheiro que conhecia bem.

Aprendi a conviver com isso, embora deva confessar não ser algo muito agradável. Principalmente quando se senta ao meu lado no almoço, com os olhos perdidos num horizonte de morte.

Evidente que só eu posso vê-lo. Mesmo aqui, do meu lado, enquanto escrevo essas linhas. Nossos mortos, nós próprios devemos carregar.