Resiliência

Certa manhã, José acordou de sonhos intranquilos. Mexeu os braços, esfregou o rosto e os olhos, e não, não havia se transformado numa barata. Melhor. Notou a esposa dormindo ao lado e foi levantar da cama. Espreguiçou-se longamente e, quando desceu as pernas, ouviu um baque forte e surdo. Uma maciça bola de metal caíra no chão, rente à sua perna. Estava acorrentada ao seu tornozelo esquerdo. Levantou-se e foi arrastando com certa dificuldade aquele pesado pedaço de aço. O sol despontava naquela tranquila manhã de outono, e os primeiros sons do dia já se faziam ouvir, anunciando a polifonia caótica da cidade.

Abriu o guarda-roupa e escolheu uma calça de barras largas, a fim de esconder o máximo possível aquele estranho objeto. A esposa levantava para fazer o café, olhou com o rabo do olho aquela bola, mas nada disse. Evitar constrangimentos era sua especialidade. O silêncio, outra. Trocaram meia dúzia de palavras antes de José sair para trabalhar. Quase perdeu a condução, com a locomoção prejudicada por aquele trambolho.

Entrou no ônibus percebendo olhares furtivos de condenação do motorista e do cobrador, e foi logo se sentar no fundo do coletivo. Chegou na obra e os companheiros, mesmo percebendo a insólita cena, também nada disseram. Com um pouco mais de dificuldade, José conseguiu terminar a parede que faltava. Um trazia a argamassa já pronta, o outro os tijolos e ele apenas empilhava um por um, tascava cimento e retirava o excedente com a espátula. Procedimento que, embora desgastante sob o sol inclemente, não exigia uma movimentação tão ampla. Ao final do dia, porém, sua perna esquerda latejava.

Chegou em casa nesse dia e jantou normalmente. No banho, observou longamente aquela bola, a curta corrente que se ligava de forma firme à perna. Tentou enfiar um dedo entre o metal e a perna, mas era tão apertada que mal conseguia entrar a ponta do indicador. Enfim, nada havia a se fazer, enxugou-se e enxugou a bola e a corrente para não molhar a casa.

Deitou-se na cama e ajeitou a bola a fim de não incomodar a esposa com o frio do metal.

No dia seguinte, a esposa estava mais calada que o habitual. Postou a mesa do café, sentou-se e ficou na frente de José com o olhar perdido, como se matutasse algo. José, por óbvio, respeitador que era, evitou perguntar o motivo daquele silêncio. Terminou rápido o café, pois sabia que agora demorava mais para chegar ao ponto de ônibus.

Na obra, um clima estranho pairava entre os tijolos, a cal, o cimento e os fios de aço. Poucas palavras dos companheiros, que desviavam os olhos constrangidos ante sua presença. José entendeu a situação e não se magoou. Quase ao final do expediente, foi chamado à sala do encarregado.

_José querido, como vai? Senta aí rapaz.

Sentou-se na cadeira, tentando esconder ao máximo seu grilhão, e lá permaneceu em silêncio.

_Olha meu querido, você sabe que gosto de você, nunca deu motivo pra nada… Mas cá entre nós, sabe que vou ter que dispensar, não é? – olhava de forma sutil para a bola metálica enquanto falava.

José nada disse, só assentiu com a cabeça com um leve suspiro.

Voltou para a casa se arrastando. Já não mais sentia a perna latejar, porém, como se a bola já fizesse parte dele. Entrou em casa sob os olhares curiosos dos vizinhos, que tampouco tiveram coragem de tecer qualquer comentário sobre a estranha situação. Quando ganhou a sala, notou um profundo silêncio tomando conta do vazio. Sob a mesa, um pequeno bilhete escrito no papel de pão: “Meu marido, não posso mais, peguei as crianças e levei pra mãe. A janta está na panela”.

José sentou-se à mesa e comeu direto da panela. Terminou, deixou-a ali mesmo e foi se deitar com a mesma roupa que chegara da obra.

Na manhã seguinte, José acordou de sonhos bastante tranquilos. Levantou-se e foi passar o café. Viu o sol que penetrava a persiana e atravessava a cozinha em meio ao vapor da água. Sentia-se leve. Olhou para baixo para constatar, embora soubesse, se o grilhão continuava atado à perna. Mas sabia, enfim, que não fazia mais nenhuma diferença.

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Fogos de artifício

_Acorda! Acorda, Tião!

As imagens de sua mãe rodeada pelos irmãos pequenos na frente do barraco se desvaneceram. Tentou ainda lutar para fixar aquele sonho na memória, mas em vão. Quando abriu os olhos, já havia percebido que sua mãe não estava ali, nem em nenhum outro lugar.

_Que foi mulher, oxe! – respondeu irritado, abanando a mão.

_Não tá vendo essa fumaça? Levanta daí, vamos morrer!

Permaneceu ainda, por uns tantos segundos, alheio ao que ocorria. Apertou os olhos, esfregou, ameaçando um meio bocejo. Lentamente, tomava consciência do pandemônio à sua volta. Uma nuvem negra espessa tomava conta do teto e se expandia, em meio a gritos e falas desencontradas pelo corredor. O calor ardia na cara como nos dias quentes em que empurrava o carrinho pelas ruas do centro. Percebeu, enfim, o que acontecia.

_Pega o menino, mulher, pega lá, vamos descer.

A mulher tomou a criança do berço improvisado de papelão, apertando-a forte contra o peito. Não chorava embora acordada, apenas espreitava com os olhos arregalados aquele estranho mundo que ainda descobria e tentava entender.

_Pega os documentos Tião, não dá mais tempo de nada.

A nuvem espessa já tomara conta daquele pequeno espaço, tentando invadir furiosamente os olhos, o nariz e a garganta. Apenas de shorts, Tião abre o gaveteiro de plástico postado ao lado do colchão e apanha um pequeno embrulho de sacola plástica com propaganda de supermercado. Olha para a TV de 20 polegadas de tubo e tem um momento de hesitação. Menos pelo que teve que fazer para conseguir comprá-la na feira do rolo do que pelas lembranças que ela lhe trazia. A última do Corinthians campeão, quando chegou a rezar e colocar um copo de água em cima do aparelho, prometendo não beber por um mês caso o timão ganhasse aquela. Cumpriu, ou quase. Mas, como o sonho do sono interrompido, foi obrigado a encarar a realidade.

_Vamo bora, bora, bora – gritou.

A mulher enrolava a cabeça da criança com um pano úmido, branco, enquanto lutava para calçar as sandálias. Tião pega o embrulho, desiste de colocar alguma das camisetas jogadas pelo chão e, do mesmo jeito que levantou, envolve os braços nos ombros da mulher.

_Tião, o Chano!

_Não dá tempo, bora, bora!

Ela não se moveu, apenas o olhou com os olhos de água e vermelhos pela fumaça, sem dizer nada. Ele entendeu.

_Vai indo, desce lá, vou pegar ele.

_Não…

Entregou a mulher e o bebê a uma senhora que descia correndo a escada, e voltou ao cômodo tampando o rosto com uma das mãos.

Não gostava desse nome: “Chano”, de “bichano”, mas já se acostumara a ele. Encontraram-no ali mesmo no prédio no dia em que chegaram. De uma ninhada abandonada, magro com os ossinhos quase rompendo os parcos pêlos, parecia já conformado com o triste destino quando eles chegaram. Logo se recuperou, engordando com a vida boa de bicho. Até o bebê nascer, era o único a dividir o cômodo com o casal. Testemunhara tantos momentos naquele espaço que já era parte daquele mundo.

Quando chegou a criança, costumava dormir enrolado ao seu lado, velando seu sono dividindo o berço.

_Onde cê tá Chano! Caralho Chano!

Nada. Vasculhava os papelões, as roupas, as panelas em cima dos tijolos. Ouviu então os primeiros estrondos ensurdecedores que fizeram as estruturas estremecerem. Até que conseguiu ver, no cantinho do cubículo, uma diminuta sombra encolhida. Correu para lá, tirou algumas sacolas e jornais e achou seu amigo peludo. Tremia. Tentou pegá-lo, mas foi arranhado com força. Não consegui ver, mas sentiu o braço rasgar. Com as duas mãos, segurou forte o bicho e o abraçou para que não escapasse mais.

A fumaça negra naquele momento dava lugar às labaredas que invadiam, pelo teto, o cubículo. O corpo todo ardia. Os estrondos se sucediam como bombas num filme de guerra. Como quando o Corinthians ganhou o campeonato. Como quando fora despejado da última vez pela polícia. À sua frente só havia uma parede flamejante engolindo tudo à sua volta. Chano não tremia mais. Apertou-o contra o rosto e sentiu sua pelugem macia e quente.

_Tá tudo bem Chano, tá tudo bem.

Lá fora as chamas saltavam como grandes fogos de artifícios em meio aos arranha-céus da cidade.

Mensagem

Recebeu aquela misteriosa mensagem no meio da madrugada, o que lhe fez paralisar por alguns longos minutos. A janelinha do Facebook irrompeu sem aviso enquanto lia com atenção alguma coisa sobre o meteoro que atingiria a Terra nas próximas semanas. Tão logo recobrou a atenção, fechou-a bruscamente como se escondesse de alguém, ainda que estivesse sozinho.

No dia seguinte, acordou novamente sonolento e arrastou-se à repartição no que seriam seus últimos dias antes da aguardada aposentadoria. A mensagem, porém, martelava em sua cabeça com insistência.

_Que foi Sérgio?

_Nada não, coisa de velho, sabe como é.

Nunca fora de muitas palavras e por isso ninguém deu atenção ao seu jeito amuado. Mas saiu naquele dia com uma pressa fora do normal, dando uma despedida coletiva de meias palavras, quase um muxoxo, atraindo olhares e algumas sobrancelhas levantadas. O velho Sérgio acabou encontrando um encosto de cabeça nessa etapa da vida, alguém mais corajoso acabou soltando num tom jocoso.

Não conseguiu jantar e foi direto para o computador. Com o mouse trêmulo e hesitante, abriu aquela janelinha, como se espiasse por uma estreita fresta, ou um buraco da fechadura, alguma coisa proibida.  Enfim, estava lá, a mensagem enigmática, amedrontadora, que lhe tirara a paz nas últimas 24 horas: “Oi Sérgio, tudo bem com você?”

Leu, releu, fechou e abriu de novo. Continuava lá. Não ousou responder, apenas fechou o Facebook e arrancou o fio da tomada sem finalizar.

Naquela noite decidiu tomar seus comprimidos para dormir, pois sabia que de outro jeito não conseguiria.

De manhã cedo já estava na repartição antes da hora de bater o ponto. A camisa amassada, os cabelos grisalhos desalinhados e as olheiras já começavam a atrair comentários maldosos daquele microcosmo no qual conseguira passar incólume por quase quatro décadas.

Esperou impacientemente o Almeida chegar. Almeida, um pouco mais novo que ele, era o que se poderia chamar de amigo, em seus próprios termos. Isso significa a única pessoa ali que conseguia trocar meia dúzia de palavras numa semana, apesar dele o ter convidado para ser padrinho de sua filha há uns 20 anos atrás. Qual era mesmo o nome dela? Não conseguia se lembrar pois sempre quando perguntava, naquelas perguntas formais e obrigatórias, referia-se a “sua filha”. Como vai sua filha? E ela sempre estava bem.

_Almeida, tudo bem? – Perguntou se aproximando da mesa do colega, com um fio de voz quase sussurrando.

_Sérgio, beleza? Tudo tranquilo. – Respondeu, ajeitando a pasta e arrumando o bloco de papel timbrado, posicionando o carimbo e estralando os dedos como se fosse partir para uma briga.

_ Como tá a filha?

_ Tá bem, Sérgio.

Continuou ali, olhando para o Almeida, que mal estranhou o colega olhando fixamente para ele, esperando alguma reação ou que perguntasse o que queria, o que não aconteceria.

_Almeida, precisa falar contigo.

Aquela frase fez o amigo parar instantaneamente. Era a primeira vez que ouvia algo assim em tantos anos de convivência. Deixou os papeis de lado, ajeitou os óculos de aro fino, franziu a testa focando bem  Sérgio e encostou a mão no braço do colega que estava sobre a mesa.

_Aconteceu algo, Sérgio? _ disse, preocupado, imitando o tom baixo de sua voz.

_Não… Quero dizer, sim… É estranho, queria ver se a gente podia conversar.

Percebendo a gravidade da situação, Almeida propôs-lhe que conversassem após o expediente, no boteco que havia na esquina da rua.  Sempre vazio, não despertaria grandes atenções.

Às 18h15, lá estavam.

_Almeida, não sei como dizer isso, você provavelmente vai me achar maluco, mas é que…

_Diga logo homem, bradou Almeida enchendo os copos e alcançando um para Sérgio.

_Eu recebi uma mensagem da Vânia, disse Sérgio, seco e direto, esperando a reação do colega antes de falar qualquer outra coisa.

Almeida terminou o gole de cerveja e colocou a copo sobre a mesa.  Olhou fixamente para Sérgio durante alguns segundos, sem dizer nada.

_A Vânia falou contigo é?

_Sim, replicou prontamente.

Almeida esperou outros longos segundos, como se digerindo a resposta.  Em silêncio, tomou outro demorado gole de cerveja, sempre olhando fixamente os olhos de Sérgio.

_Você sonhou com ela? Ela apareceu para você numa visão, algo assim?

_Não, ela me mandou uma mensagem no Facebook.

_No Facebook…

Almeida repetiu a resposta, talvez com a esperança de que o amigo ouvisse o que acabara de dizer e se tocasse do absurdo. Sérgio, porém, permanecia com aquele mesmo ar preocupado que dos dois dias anteriores, olhando para Almeida e para os lados como alguém sendo vigiado ou perseguido.

_Sérgio, se tem uma coisa que eu sei da sua vida esses anos todos, é de como essa história da Vânia mexeu com você.

_Olha Almeida, sei que você deve estar me achando louco, mas é o que aconteceu, não posso fazer nada.

_Certo, e o que você respondeu?

_Nada. Não consegui responder nada.

A garrafa já ia terminando quando Almeida foi ao balcão e pediu outra. Aquela história não iria terminar na primeira. Voltou à mesa já argumentando o que concatenara naquela rápida volta.

_Pode ser uma brincadeira de alguém, sei lá. Alguém que sabe que vocês eram noivos quando ela te largou, pouco antes de morrer.

_Almeida, isso tem mais de 30 anos, quem vai saber disso?

_Bom, ou pode ser ela mesmo, vai saber. Você não chegou a ir ao enterro dela, não é?

_Não, fiquei sabendo só alguns meses depois, quando encontrei por acaso um amigo em comum.

_Então, meu caro Sérgio, pode ser que ela esteja tão viva quanto eu e você. Ou quem sabe seja ela mandando uma mensagem do além, vai saber.

_… – Sérgio pareceu não ter gostado da brincadeira.

_Certo é, meu amigo, que você vai ter que respondê-la e descobrir o que está acontecendo. Chega de esconder o passado, meu velho, é hora de encará-lo, ainda que isso seja doloroso pra você.

Sérgio ouvia calado, rodando o copo de cerveja na mesa formando irregulares círculos de água. Nunca ouvira Almeida falar daquele jeito. Aliás, em poucas ocasiões o ouviu de fato. Chegou a sentir raiva do que parecia ser uma recriminação. O que ele quis dizer com “encarar o passado”? Por acaso o chamava de medroso? Mas o que dizia fazia sentido. Seja o que fosse, teria de descobrir o que estava acontecendo.

Pagaram a conta, despediram-se e Sérgio tomou o rumo de casa, decidido. Ligou o computador e encarou aquela janelinha. A foto, o mesmo rosto de como se lembrava dela, como que olhando para ele.

Começou a digitar: “Oi Vânia, tudo bem sim, e com você…”.

Parou e olhou aquela frase. Tomou ar como se fosse dar um longo mergulho e pôs-se a escrever freneticamente. Simplesmente derramou ali todas as angústias, frustrações, mágoas e tudo mais que guardara no peito por quatro longas décadas. Escrevia como se possuído, sem parar, por quase duas horas.

Quando terminou, sentia-se de fato mais leve, como se um peso tivesse sido tirado dos seus ombros. Olhou para a tela do computador por alguns instantes. Minutos? Segundos? Não saberia dizer. Fechou a janela sem apertar enter. Bloqueou o perfil de Vânia.

Decerto era uma brincadeira. Esse Almeida, sempre pregando peça, pensou.

Pesadilla

 

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os fios de cabelo que se pregavam como algas em meu rosto. Inclinei a cabeça para frente e tentei relaxar o corpo teso. Mexi levemente as pontas dos meus dedos num movimento contínuo, sentindo em suas pontas a textura áspera do cobertor. Pela janela do meu quarto, uma fresta da persiana deixava escapar dois fios luminosos de claridade. Já era dia.

Empreendi um esforço considerável para levantar. Encostei os pés no chão frio do taco envelhecido do quarto, firmei a planta do calcanhar neles e pendi para frente. Um corpo suspenso no ar, ancorado por pés frágeis e cambaleantes. Forcei os olhos no quarto escuro, tentando identificar aquele lugar. Observei o criado mudo empoeirado, por sobre o qual repousava um velho retrato. Seria eu ali, embaixo daquela camada de poeira? Passei a mão e descobri metade da fotografia, revelando um homem de sorriso aberto, de uma alegria um tanto triste ou forçada talvez. Era eu, mas não era eu. Virei para baixo.

Caminhei em direção à sala e tropecei sobre a garrafa vazia jogada no chão. Escorei-me na parede para não perder o equilíbrio, em vão. Escorreguei lentamente. O pó cinza entrava em minhas narinas e decidi que seria uma boa ideia permanecer por ali por um tempo. Minhas mãos apalparam um pedaço de papel amassado, peguei-o postando à minha frente, tentando focá-lo numa das frestas que entravam pela janela. Meu boletim da sétima série, logo reconheci as notas. Quanto potencial, sorri sarcasticamente em pensamento.

Ouvi um ruído na sala, um rangido de sofá. Decidi levantar, o que fiz lentamente. A passos lentos, entro na sala franzindo a testa e cerrando os olhos por conta da luz que transbordava da janela. Ainda assim, a penumbra tomava conta de boa parte do cômodo. A poeira suspensa parecia uma densa neblina. Sentado sobre a poltrona, um velho senhor olhava para baixo, indiferente, como se matutasse algo. De chapeu cinza, camisa branca, calça social e sapatos carcomidos. Minha presença não pareceu incomodá-lo.

Quando percebeu que estava ali, levantou-se apoiado na bengala, apalpou a poeira da calça e me estendeu a mão direita. Apertei, sentindo sua pele fria e rugosa. Ele se virou e, sem dizer qualquer coisa, abriu a porta, postando-se ao lado para me dar passagem. A claridade de fora iluminou seu rosto, explicitando profundos sulcos morenos e finos fios brancos  despontando do queixo. Reconheci meu avô.

Caminhei em direção à porta e, antes de atravessá-la, olhei ao meu redor como se me despedisse. A velha TV recoberta por um véu alvo de teias empoeiradas. Os livros amarelados jaziam sobre o chão. No canto, três frascos abertos quase passavam desapercebidos, com alguns comprimidos vermelhos quase se integrando os tacos de madeira.

Dou um passo à frente e, sob os olhos do velho, atravesso a porta. Estava voltando para casa.

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os cabelos à minha fronte.

Abri os olhos após um longo pesadelo.

Abri os olhos.

Longo pesadelo.

Responsabilidades

As articulações de meus dedos já doíam quando ele parou de se debater. Um espasmo rápido e seus músculos se contraíram, antes de relaxar e se estender completamente. As marcas de minhas mãos ficaram impressas em seu pescoço, num tom arroxeado.

Acendi um cigarro e fiquei contemplando seu corpo inerte jogado ao chão. Os olhos arregalados pararam em minha direção, como se me olhassem também. A boca entreaberta deixava parte da ponta da língua para fora. Aproveitei a bituca que ainda fumegava e queimei seu braço, uma lição antiga de um professor de Legislação que jurava que aplicava esse teste em todo velório que ia. Se formasse bolha era porque ainda estava vivo. Não fez, meu trabalho estava terminado.

Hora de voltar para casa.

A primeira vez que ele apareceu foi no banheiro, não tenho mais certeza. Abri o box ao sair do chuveiro e me deparei com ele ali, parado, em pé no canto. Mentiria se dissesse que me assustei. Fiquei parado na sua frente, encarando-o. Não sou homem de fugir às minhas responsabilidades. Ele, por sua vez, permaneceu imóvel, alheio à minha presença. Peguei a toalha, me enxuguei e abri o vitrô para escovar os dentes.

A partir daí, começou a me seguir para todo lugar que eu fosse. Sempre calado, como uma sombra sorrateira. Caminhava ao meu lado na rua, um pouco mais atrás, contando os passos. Com o passar dos dias, percebi que seu corpo ia se putrefando, exalando um cheiro cada vez mais forte e nauseante. Um cheiro que conhecia bem.

Aprendi a conviver com isso, embora deva confessar não ser algo muito agradável. Principalmente quando se senta ao meu lado no almoço, com os olhos perdidos num horizonte de morte.

Evidente que só eu posso vê-lo. Mesmo aqui, do meu lado, enquanto escrevo essas linhas. Nossos mortos, nós próprios devemos carregar.

O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

Samsara

Tomou aquele café amargo num só gole. O líquido preto, fervente, desceu queimando a faringe. Uma corrente elétrica percorreu-lhe o corpo. Levantou então a cabeça e inspirou, inflando os pulmões com o ar fresco daquela manhã fria de inverno. Sob a mesa à sua frente jaziam as contas vencidas, o velho celular inquieto e todas as suas preocupações.

Uma estranha calma pairava sobre a cidade. Um silêncio sepulcral que podia se ouvir por debaixo das conversas da lanchonete, do ruído dos carros e do incessante alarme que tantas vezes amaldiçoara. Tudo lhe era alheio e ao mesmo tempo mais próximo que nunca.

_O senhor está bem?

A atendente perguntava com um ar sincero de preocupação, inclinando-se para averiguar de perto sua fisionomia. Por certo, estranhando a demora em terminar aquela xícara de café. Por certo ainda, temerosa em liberar lugar para novos clientes.

_Estou sim, claro, obrigado.

Levantou-se calmamente da cadeira, deixando uma nota sobre a mesa. Guardou o celular trêmulo no bolso junto às contas amassadas num só bolo de papel.

_ Na verdade, dona, acabei de morrer logo ali, disse, apontando seu lugar na cadeira. Mas estou ótimo.

Afastou-se a passos ligeiros deixando a atendente com um olhar atônito balançando a cabeça em sinal de desaprovação. De fato, havia morrido algo nele ali naquele momento.

E de fato, sentia-se ótimo.