Resiliência

Certa manhã, José acordou de sonhos intranquilos. Mexeu os braços, esfregou o rosto e os olhos, e não, não havia se transformado numa barata. Melhor. Notou a esposa dormindo ao lado e foi levantar da cama. Espreguiçou-se longamente e, quando desceu as pernas, ouviu um baque forte e surdo. Uma maciça bola de metal caíra no chão, rente à sua perna. Estava acorrentada ao seu tornozelo esquerdo. Levantou-se e foi arrastando com certa dificuldade aquele pesado pedaço de aço. O sol despontava naquela tranquila manhã de outono, e os primeiros sons do dia já se faziam ouvir, anunciando a polifonia caótica da cidade.

Abriu o guarda-roupa e escolheu uma calça de barras largas, a fim de esconder o máximo possível aquele estranho objeto. A esposa levantava para fazer o café, olhou com o rabo do olho aquela bola, mas nada disse. Evitar constrangimentos era sua especialidade. O silêncio, outra. Trocaram meia dúzia de palavras antes de José sair para trabalhar. Quase perdeu a condução, com a locomoção prejudicada por aquele trambolho.

Entrou no ônibus percebendo olhares furtivos de condenação do motorista e do cobrador, e foi logo se sentar no fundo do coletivo. Chegou na obra e os companheiros, mesmo percebendo a insólita cena, também nada disseram. Com um pouco mais de dificuldade, José conseguiu terminar a parede que faltava. Um trazia a argamassa já pronta, o outro os tijolos e ele apenas empilhava um por um, tascava cimento e retirava o excedente com a espátula. Procedimento que, embora desgastante sob o sol inclemente, não exigia uma movimentação tão ampla. Ao final do dia, porém, sua perna esquerda latejava.

Chegou em casa nesse dia e jantou normalmente. No banho, observou longamente aquela bola, a curta corrente que se ligava de forma firme à perna. Tentou enfiar um dedo entre o metal e a perna, mas era tão apertada que mal conseguia entrar a ponta do indicador. Enfim, nada havia a se fazer, enxugou-se e enxugou a bola e a corrente para não molhar a casa.

Deitou-se na cama e ajeitou a bola a fim de não incomodar a esposa com o frio do metal.

No dia seguinte, a esposa estava mais calada que o habitual. Postou a mesa do café, sentou-se e ficou na frente de José com o olhar perdido, como se matutasse algo. José, por óbvio, respeitador que era, evitou perguntar o motivo daquele silêncio. Terminou rápido o café, pois sabia que agora demorava mais para chegar ao ponto de ônibus.

Na obra, um clima estranho pairava entre os tijolos, a cal, o cimento e os fios de aço. Poucas palavras dos companheiros, que desviavam os olhos constrangidos ante sua presença. José entendeu a situação e não se magoou. Quase ao final do expediente, foi chamado à sala do encarregado.

_José querido, como vai? Senta aí rapaz.

Sentou-se na cadeira, tentando esconder ao máximo seu grilhão, e lá permaneceu em silêncio.

_Olha meu querido, você sabe que gosto de você, nunca deu motivo pra nada… Mas cá entre nós, sabe que vou ter que dispensar, não é? – olhava de forma sutil para a bola metálica enquanto falava.

José nada disse, só assentiu com a cabeça com um leve suspiro.

Voltou para a casa se arrastando. Já não mais sentia a perna latejar, porém, como se a bola já fizesse parte dele. Entrou em casa sob os olhares curiosos dos vizinhos, que tampouco tiveram coragem de tecer qualquer comentário sobre a estranha situação. Quando ganhou a sala, notou um profundo silêncio tomando conta do vazio. Sob a mesa, um pequeno bilhete escrito no papel de pão: “Meu marido, não posso mais, peguei as crianças e levei pra mãe. A janta está na panela”.

José sentou-se à mesa e comeu direto da panela. Terminou, deixou-a ali mesmo e foi se deitar com a mesma roupa que chegara da obra.

Na manhã seguinte, José acordou de sonhos bastante tranquilos. Levantou-se e foi passar o café. Viu o sol que penetrava a persiana e atravessava a cozinha em meio ao vapor da água. Sentia-se leve. Olhou para baixo para constatar, embora soubesse, se o grilhão continuava atado à perna. Mas sabia, enfim, que não fazia mais nenhuma diferença.

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Fogos de artifício

_Acorda! Acorda, Tião!

As imagens de sua mãe rodeada pelos irmãos pequenos na frente do barraco se desvaneceram. Tentou ainda lutar para fixar aquele sonho na memória, mas em vão. Quando abriu os olhos, já havia percebido que sua mãe não estava ali, nem em nenhum outro lugar.

_Que foi mulher, oxe! – respondeu irritado, abanando a mão.

_Não tá vendo essa fumaça? Levanta daí, vamos morrer!

Permaneceu ainda, por uns tantos segundos, alheio ao que ocorria. Apertou os olhos, esfregou, ameaçando um meio bocejo. Lentamente, tomava consciência do pandemônio à sua volta. Uma nuvem negra espessa tomava conta do teto e se expandia, em meio a gritos e falas desencontradas pelo corredor. O calor ardia na cara como nos dias quentes em que empurrava o carrinho pelas ruas do centro. Percebeu, enfim, o que acontecia.

_Pega o menino, mulher, pega lá, vamos descer.

A mulher tomou a criança do berço improvisado de papelão, apertando-a forte contra o peito. Não chorava embora acordada, apenas espreitava com os olhos arregalados aquele estranho mundo que ainda descobria e tentava entender.

_Pega os documentos Tião, não dá mais tempo de nada.

A nuvem espessa já tomara conta daquele pequeno espaço, tentando invadir furiosamente os olhos, o nariz e a garganta. Apenas de shorts, Tião abre o gaveteiro de plástico postado ao lado do colchão e apanha um pequeno embrulho de sacola plástica com propaganda de supermercado. Olha para a TV de 20 polegadas de tubo e tem um momento de hesitação. Menos pelo que teve que fazer para conseguir comprá-la na feira do rolo do que pelas lembranças que ela lhe trazia. A última do Corinthians campeão, quando chegou a rezar e colocar um copo de água em cima do aparelho, prometendo não beber por um mês caso o timão ganhasse aquela. Cumpriu, ou quase. Mas, como o sonho do sono interrompido, foi obrigado a encarar a realidade.

_Vamo bora, bora, bora – gritou.

A mulher enrolava a cabeça da criança com um pano úmido, branco, enquanto lutava para calçar as sandálias. Tião pega o embrulho, desiste de colocar alguma das camisetas jogadas pelo chão e, do mesmo jeito que levantou, envolve os braços nos ombros da mulher.

_Tião, o Chano!

_Não dá tempo, bora, bora!

Ela não se moveu, apenas o olhou com os olhos de água e vermelhos pela fumaça, sem dizer nada. Ele entendeu.

_Vai indo, desce lá, vou pegar ele.

_Não…

Entregou a mulher e o bebê a uma senhora que descia correndo a escada, e voltou ao cômodo tampando o rosto com uma das mãos.

Não gostava desse nome: “Chano”, de “bichano”, mas já se acostumara a ele. Encontraram-no ali mesmo no prédio no dia em que chegaram. De uma ninhada abandonada, magro com os ossinhos quase rompendo os parcos pêlos, parecia já conformado com o triste destino quando eles chegaram. Logo se recuperou, engordando com a vida boa de bicho. Até o bebê nascer, era o único a dividir o cômodo com o casal. Testemunhara tantos momentos naquele espaço que já era parte daquele mundo.

Quando chegou a criança, costumava dormir enrolado ao seu lado, velando seu sono dividindo o berço.

_Onde cê tá Chano! Caralho Chano!

Nada. Vasculhava os papelões, as roupas, as panelas em cima dos tijolos. Ouviu então os primeiros estrondos ensurdecedores que fizeram as estruturas estremecerem. Até que conseguiu ver, no cantinho do cubículo, uma diminuta sombra encolhida. Correu para lá, tirou algumas sacolas e jornais e achou seu amigo peludo. Tremia. Tentou pegá-lo, mas foi arranhado com força. Não consegui ver, mas sentiu o braço rasgar. Com as duas mãos, segurou forte o bicho e o abraçou para que não escapasse mais.

A fumaça negra naquele momento dava lugar às labaredas que invadiam, pelo teto, o cubículo. O corpo todo ardia. Os estrondos se sucediam como bombas num filme de guerra. Como quando o Corinthians ganhou o campeonato. Como quando fora despejado da última vez pela polícia. À sua frente só havia uma parede flamejante engolindo tudo à sua volta. Chano não tremia mais. Apertou-o contra o rosto e sentiu sua pelugem macia e quente.

_Tá tudo bem Chano, tá tudo bem.

Lá fora as chamas saltavam como grandes fogos de artifícios em meio aos arranha-céus da cidade.

O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

Agridoce

Acordei naquela calçada com um gosto amargo na boca. Não, não é uma metáfora, entende? A saliva grossa trazia um sabor amargo típico de ressaca. As pernas doíam e o pescoço estava endurecido pelo mau jeito. Também, pudera, havia dormido praticamente sentado na marquise daquele prédio. Levantei dali cambaleando, ajeitando o velho casaco verde musgo, estilo militar. Bati a poeira da calça abrigo preta que cobria metade do tênis adidas cinza, e fiquei um tempo em pé ali, tentando lembrar o que sonhara naquelas poucas horas. Tentava me concentrar mas era difícil, por que não lembramos dos nossos sonhos quando acordamos? Aquilo realmente me deixava puto, era como se a gente perdesse algo que sabia que estava por ali, mas que não conseguia encontrar. Imagens aleatórias sem sequência ou sentido iam e viam. Um balão vermelho cintilante rasgando um céu azul, um céu realmente bonito, desses de cartão postal, o balão subia, subia e chegava até bem perto do sol e se transformava numa grande bola de fogo. Desde criança sonho com balões, e eles caem, furam, desaparecem, mas acho que era a primeira vez que o via queimar.

Era o meu terceiro dia. O aviso de despejo que o oficial de Justiça trouxe ainda estava pregado na porta do apartamento, por isso resolvi ficar por ali mesmo, como se algo me ligasse àquele lugar. Sabe aquelas histórias de quando alguém morre e o espírito ainda tem uma conexão com corpo, e por isso fica preso a este mundo? Os monges tibetanos queimam os mortos para deixar o espírito partir livre ao seu destino. Por isso havia resolvido atear fogo naquele prédio, mas acabei desistindo, mais pelo trabalho que isso daria, na verdade, embora a imagem daquele velho edifício se consumindo em chamas pudesse me trazer algum tipo de satisfação. Como o balão.

Sei que logo vou perder a noção do tempo, mas por enquanto este é o terceiro dia. Meus cabelos estão ensebados e a pele oleosa por causa do calor, mas isso não me incomoda muito. Levanto então e o estômago se contorce, fazendo barulho. Fome. Não sei qual a última vez que comi. A única coisa que engoli ontem foi um terço de uma garrafa de aguardente que uma travesti me trouxe. Ela chegou, perguntou se eu aceitava, claro, respondi, daí ela se sentou do meu lado, passou a garrafa e pôs-se a falar, falar. Não lembro muito bem o que dizia, mas tinha algo a ver com um cara que fazia programa com ela pouco antes e que não queria pagar o que ela exigia, e houve uma briga ou algo assim. Tomava aos goles a garrafa enquanto fingia que prestava atenção e respondia com grunhidos e monossílabos, enfim, ela deve ter pegado a garrafa de volta quando dormi, pois não achei mais ela.

O porteiro não me cumprimenta mais. Passo por ele e ele vira o rosto, disfarça, com uma cara meio constrangida. Embora o lugar seja o mesmo no qual vivo há cinco anos mais ou menos, é como se estivesse habitando um outro mundo, como se fosse um fantasma em que a maioria não pudesse enxergar, que alguns sentem medo e que os únicos a te perceberem ali são os outros fantasmas. As putas, travecos, e os noias fedendo a mijo e suor. Mas esses só andam por ali à noite e já era dia, o sol queimava a pele e o estômago retorcia. O gosto amargo já ia embora junto com a saliva que secava. Fico um pouco tonto, preciso muito comer. Qualquer coisa.

Um homem se aproxima do outro lado do quarteirão. Camisa da seleção, verde e amarela, duas listras pintadas no rosto, um pouco gordo de bochechas rosadas e óculos escuros rayban. Ele me vê, sei que me viu, porque seus passos ficam um pouco hesitantes. Ele é dos que conseguem me ver e sentem medo. Me aproximo, ele desvia o passo pro outro lado, mas eu o sigo. Bom dia, tudo bem, digo, tentando parecer simpático, mas ele olha pra mim com olhos de pavor. O senhor me desculpe viu, mas estou com fome, será que não tem uns trocados pra eu comprar algo, pergunto, com um tom de voz quase infantil, tentando engolir o constrangimento, porque ainda sentia vergonha daquilo, é algo que não superei ainda, mas que já me disseram que passa com o tempo, que era normal nos primeiros dias. Ele não responde e aperta o passo. Moço, moço, repito, e nada. Corro por trás dele então, o agarro pela camisa e, rodando, o jogo com força contra o muro. O rayban dele se quebra e corta o supercílio encharcando o rosto de sangue. Aproveito pra enfiar a mão no bolso de trás da sua bermuda e pegar a carteira. Cadê a porra do celular, grito, passa o celular ou te mato aqui mesmo. Ele me entrega seu iphone, tremendo. Melhor vazar daqui, algumas pessoas já olham pra cá, estou dando muita bandeira, embora ninguém faça nada.

Tento primeiro andar, a passos rápidos, tentando fingir normalidade. Mas percebo uma certa movimentação por ali. Pega, pega, escuto, é a polícia, polícia, ele está ali ó. Corro. Esbarro numa senhora de andador, que grita, mas porra, tonto que estou não consigo dar um pique. Um baque, um estrondo forte, caio. Meu rosto raspa o chão da calçada e a minha boca fica molhada e doce. Vejo algumas pessoas se amontoando a minha volta, mas só observo, entre eles o reflexo do sol projetado no prédio espelhado, esperando passar por ali um balão.

Ao fundo, sons de fogos de artifício me fazem sorrir, mesmo sabendo que não eram pra mim.

Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

Crítica

Acordou atordoado, apertou os olhos e tentou identificar aquele lugar. A consistência da madeira salpicada pela poeira fez-lhe perceber que estava no chão. Aos poucos, sua visão ia desanuviando, enquanto observava ao redor tentando se localizar. Apesar da escuridão, podia ver dezenas, quem sabe centenas de velhos livros amontoados pelos cantos. Mas o pouco que pôde ver já lhe dava a certeza que não conhecia aquele lugar abafado e cheirando a mofo. Tomou um longo inspiro e tentou se levantar, mas sentiu uma dor aguda no topo da cabeça. Passou a mão e sentiu um molhado quente. Sangue. Mesmo cambaleante, levantou-se, mas, quando foi dar o primeiro passo, sua perna esquerda ficou. Estava acorrentada.

Foi entrando em pânico. Que diabos era aquilo? Um sequestro? Mas nem rico era, muito longe disso. Parentes abastados, tampouco tinha. Tentou se controlar, sentou-se e pôs-se a raciocinar. Fora sequestrado, isso é fato, mas por quê? Não possuía inimigos declarados, pelo menos não que se lembrasse, muito menos amantes ressentidas. Sua vida sempre fora pacata, até mesmo entediante para dizer o menos. Sempre carregado pela onda do acaso, como descreveu uma vez ao psicanalista, dando asas a uma verve poética muito pouco explorada. Isso porque sempre preferiu a prosa. Pensava em prosa. A única centelha de brilhantismo na vida, inclusive, havia sido o primeiro e único livro publicado há quase cinco anos. ”Metáfora literal”. Sim, título não era seu forte, mas o livro fez relativo sucesso. Despontou como grande promessa literária, o nome que iria sacudir a mesmice reinante num meio dominado por panelinhas e sucessos hereditários. Pelo menos foi isso que leu numa crítica de jornal, devidamente recortada e emoldurada com pompa na parede do quarto e… Isso! descobrira o mistério! Por certo seu sequestrador o conhece e pensa que aquele livro o deixara rico e…

O estampido da porta ressoou forte no quarto abafado. A luz que entrou o cegou por uns instantes, mas pôde ver a silhueta de um homem, um homem alto e corpulento, que entrou sem dizer nada, puxou uma cadeira do canto e sentou-se ao seu lado. Usava uma touca ninja recobrindo o rosto, uma camiseta de cor indefinida na qual despontava dois braços grossos como toras, e uma calça que parecia ser um jeans surrado, mas não podia ter certeza. Ficaram alguns instantes se encarando, antes que alguém decidisse começar algum diálogo.

_Olha, se você pensa que eu tenho dinheiro ou algo assim, sinto dizer que está enganado, o pouco que ganhei com aquele livro já foi pro ralo há muito tempo.

O homem permanecia imóvel, calado, encarando-o. Podia ouvir sua respiração meio ofegante.

_Você não vai conseguir nenhum dinheiro com isso, cara, tô te dizendo.

Silêncio. Percebeu que era inútil tentar falar e simplesmente esperou que seu improvável anfitrião se pronunciasse, o que realmente aconteceu após alguns longos minutos.

_Não entendeu mesmo o que está acontecendo aqui, não é mesmo?

A voz era rouca, metálica, quase inumana. Mas não parecia hostil nem raivosa, o que o tranquilizou um pouco, o que era possível tranquilizar diante daquela situação. Esperou que seu interlocutor continuasse.

_Eu te conheço. Li seu livro. Ele mudou a minha vida. Você é um gênio.

_Bom, essa não é uma forma muito comum de demonstrar admiração, não é mesmo?

_Você se engana. No final disso tudo, vai me agradecer.

O diálogo surrealista deu uma nova pausa. Ambos se entreolhando no escuro do quarto abafado. O jovem escritor de um só livro e aquele seu admirador misterioso e ameaçador, como são todos os admiradores na verdade.

_Encontrei seu livro num dia em que planejava dar cabo da minha vida. Algo como um milagre, por acaso. Caminhava pela rua pensando como deveria fazer e dei de cara com ele numa vitrine de livraria. Sem saber exatamente por que, fui lá e comprei, sentei numa praça e o li de uma só vez. Quando terminei já estava ficando escuro, e eu era outra pessoa, percebe o que é isso?

Escutava apenas, esperando o momento em que acordaria daquele pesadelo. Nunca ninguém havia dito aquilo, e seu ego, em situações normais, deleitar-se-ia, assim mesmo com mesóclise, com tão elogiosa declaração. Mas naquele momento só conseguia sentir medo. Certo, uma vaidade pode ter despontado ali, já que, diabos, era um escritor afinal, mas, sobretudo medo.

_Depois disso, estudei você. Vasculhei sua vida e passei esses anos todos te seguindo, analisando cada passo que você dava mas, principalmente, esperando sua próxima obra, que não veio.

Essa última parte saiu com um leve tom de desaprovação e decepção, seguido por um suspiro forte que o fez estremecer.

_Olha, cara, eu te entendo, realmente te entendo. Mas se você me estudou mesmo como diz, sabe que eu não criei mais nada depois daquilo. Deve saber ainda que tentei, eu tentei cara, pra caralho. Mas simplesmente não saiu mais nada. Bloqueei, já era.

O homem balançou a cabeça por debaixo da touca, bufando.

_Eu sei disso, e essa é a razão por você estar aqui, vou te ajudar?

_Meu amigo, você não entendeu. Eu não sou capaz mais de criar nada. Já desisti dessa vida. Claro, no começo fiquei desesperado, angustiado mesmo, pensei também em acabar com tudo, como você. Mas percebi que existem outras coisas na vida. Tua salvação estava num livro, a minha, estava fora dele, percebe?

_Você só precisa de um estímulo, uma razão para escrever, e eu vou te ajudar.

O homem se levantou fazendo ranger o piso de madeira, virou-se de costas, abriu uma gaveta e retirou um objeto que não pôde identificar, e sentou-se novamente com o objeto nas mãos.

_O que vai acontecer é o seguinte. Ali do seu lado tem um computador, sem Internet ou qualquer tipo de comunicação externa, evidentemente. Você vai escrever uma obra em uma semana. Se não…

Levantou o objeto que retirara da gaveta e seu temor se revelava fundado. Uma arma.

_Você está completamente louco! Eu não escrevo nada há anos e você quer que eu escreva um livro inteiro em sete dias! Isso é loucura!

_Como eu te disse, estou apenas te ajudando. Você precisa de um estímulo, uma razão para escrever. Não há razão melhor que a própria vida, não? Você é um gênio e é minha responsabilidade não deixar que o mundo abra mão disso.

_Você está louco! Louco!

Gritava, desesperado, com todas as forças, enquanto observava o homem se levantar calmamente e sair do quarto. Ao final, estava exausto. As gotas de suor escorriam pelo rosto e caíam no chão se misturando à poeira do piso. Recobrou as forças e recomeçou a gritar, até perceber que ninguém o escutaria.

(…)

Espancava as teclas do teclado enfurecidamente tal qual um Kerouac movido a benzedrina. Mais magro, alimentava-se mal com o pão diário fornecido por seu algoz e praticamente não dormia envolvido com sua obra urgente. Sem ideia original, apostou naquilo no qual apostam todos os escritores  em crise criativa: uma narrativa autobiográfica, o velho truque metalinguístico. Mas, enfim, chegava à conclusão que, talvez, o homem misterioso estivesse certo. A gravidade da situação o fizera a ganhar, aos poucos na penumbra daquele espaço claustrofóbico, um ânimo que há muito não sentia. Os dedos moviam-se quase que por vontade própria e as frases iam simplesmente deslizando linha por linha, sem o menor esforço. Enquanto isso, a obra tomava corpo, suas estruturas iam crescendo e se solidificando como um edifício, uma torre forte e viril.

Ao fim e a cabo dos sete dias, fraco e absolutamente extenuado, gritou e urrou ao colocar o ponto final em sua obra. O grande escritor voltara! As ninfas traziam de volta sua generosidade àquele farrapo humano para que voltasse triunfante ao Olimpo da literatura. Estava nada menos que extasiado quando finalmente mandou imprimir as páginas na impressora portátil instalada ao lado do computador. Observou cada folha saindo como um pai observa o nascimento de um filho, velando aquela criatura que trazia sua vida de volta, literalmente e metaforicamente falando.

Poucos segundos após a última folha ter sido impressa, o homem mascarado abriu a porta do quarto. Sem dizer nada, sentou-se na cadeira em frente ao computador, desocupada pelo escritor, e pôs-se a ler as páginas recém-paridas. O jovem, mesmo calado, não conseguia esconder a excitação, e roía as unhas, tentando controlar as pernas que teimavam em balançar.

Após terminar a última página, o homem se levantou e postou-se à frente do escritor que, ansioso, esperava odes ao seu talento. Mas ao invés disso, houve silêncio por alguns minutos que transformaram a excitação numa aguda e angustiante ansiedade.

O homem sacou então a arma e atirou na cabeça do jovem escritor.

_Tá uma merda.

Primeira nobre verdade

_Você está louca, Lúcia?

A princípio não entendeu aquele grito reprovador da amiga bem ao seu lado. A confusão, porém, durou apenas poucos segundos, até se dar conta do braço por cima do fogo alto do fogão. Pegava a água que deixara fervendo para passar o café e, distraída, não se deu conta que havia esquecido de apagar o fogo. O cheiro característico de pele e pêlos queimado se espalhava pela pequena cozinha da firma, mas Lúcia, estranhamente, não sentia dor ou qualquer sensação no braço atingido.

Largou rapidamente a leiteira que usara para ferver a água, retirou alguns cubos de gelo do congelador, enrolando-os num pano de prato, e comprimiu-os no antebraço. “Essa merda vai fazer bolha”, pensou, vendo que a região havia ficado bastante vermelha, incluindo a pequena estrela tatuada no pulso. Estranhou que, embora pudesse notar a presença do gelo ali, não sentia o frio dele, apenas sua textura lisa e escorregadia. Não disse nada à amiga para não preocupá-la. Verdade seja dita, não falou nada, pois sabia que, do jeito que era, a obrigaria a ir no médico na mesma hora, algo que não estava disposta a fazer.

O jeito era voltar aos relatórios de auditoria da firma e ver isso depois. Sua rotina era entediante e, muitos diriam, massacrante, mas que, para ela, estava longe de ser necessariamente um fardo. Entregava-se ao automatismo das tarefas mais corriqueiras a fim de desobrigar-se de prender-se a pensamentos e problemas mais complexos. Sempre havia sido assim, muito antes daqueles 19 anos recém-completados, mas que, para ela, pareciam ser pelo menos três vezes mais. Bom, pregou um bandaid no braço e tocou a vida.

Mas quem era Lúcia? Ruiva recém-convertida, pele morena de canela e olhos negros curiosos, uma garota que você esbarraria no metrô a caminho de casa, ou que conversaria distraidamente na fila do banco. Garota comum, de sonhos comuns, tristezas comuns e aspirações comuns. Mas por que então Lúcia figuraria nesta história? É que coisas surpreendentes acontecem justamente com as pessoas mais comuns e, aparentemente triviais. Ou então, o contrário, poderíamos dizer ainda que ninguém é comum, como vamos ver em seguida.

Imersa em relatórios, números e tabelas, Lúcia nem se dera conta que o horário do almoço há muito havia se passado. Percebeu tão apenas aquele ronco no estômago, que a fez se levantar e preparar um pequeno lanche antes de voltar à labuta. O braço queimado, que percebia já pequenas bolhas se formando, tampouco doía. Começava a se intrigar de verdade, mas resolveu não fazer nada a princípio.

O dia seguinte transcorreu quase normalmente, tirando a fome que deixara definitivamente de sentir. Ao dormir, porém, naquele tradicional momento de reflexão e balanço do dia, intrigou-se com mais uma coisa. Algo deveras banal, claro, mas que naquele contexto parecera-lhe estranho. Um encontro desmarcado, nada demais. Há um certo tempo estava de olho no rapaz. Contou os dias que precisou tomar coragem antes de falar com ele pela primeira vez. Um assunto qualquer que, esperava, pudesse deslanchar uma conversa. “Nossa, que calor, não? Que sotaque bonito, de onde é?”. O rapaz pareceu, enfim, notar sua existência e, após um tempo, tomava ele próprio a iniciativa de conversar. Até que marcaram um primeiro encontro, um despretensioso café que ocorreria aquela noite. Pois bem, o aviso veio pelo whatsapp. Não poderia ir já que teria surgido um problema familiar inesperado. Uma desculpa para justificar um recuo? Não sabia, fato é que, percebia agora, não ficara frustrada ou triste, como normalmente ficaria. Só percebeu  a indiferença de sua reação naquele momento, e adormeceu.

Foi num momento rápido de distração no trabalho que se deu conta. Entre papeis e relatórios, caiu em si de que não sentia mais nada. Não era apenas a dor ou o frio que não era capaz mais de sentir, mas as emoções mais básicas como frustração, tristeza ou alegria. Era como se o automatismo do trabalho tivesse se apossado de sua alma e, agora, respondia mecanicamente a estímulos sem maiores consequências. Sim, era isso. Ela, Lúcia, uma garota como tantas outras com suas dores, alegrias, frustrações e medos, não sentia mais. Era como se algo dentro dela, alguma chave, tivesse sido abruptamente desligada. Uma anestesia profunda que penetrava em suas vísceras e escorregava pela alma, ou o que quer tenha ali no lugar da alma.

No dia seguinte passou no posto de saúde antes de ir ao trabalho. Relatou ao clínico geral o episódio do café, do gelo, a fome que não sentia mais. O doutor tomou seu pulso, sua pressão, ouviu seu batimento cardíaco, verificou os reflexos do joelho, olhou por dentro de seu ouvido e apalpou o fundo da língua com uma paleta de madeira, mandando-a dizer “ahhhhh”, abrindo bem a boca. “Olha, aparentemente está tudo normal, mas vamos ter que fazer alguns exames”, disse, enquanto fazia anotações em sua prancheta.

_Mas doutor é que…

Lúcia deteve-se. Por algum motivo, não falou sobre sua real condição.

_Mais alguma coisa, Lúcia?

_Não, não, doutor.

_Bem, temos que fazer mais exames, mas pode ser um quadro de estresse ou ansiedade, leve essas guias e depois marcamos um retorno.

Pegou as guias de qualquer jeito, enfiou-as na bolsa e despediu-se rapidamente do médico.

Lúcia saiu de lá com a certeza que não mais voltaria. Ali, naquele consultório, havia percebido algo a mais. Sentia-se, pela primeira vez na vida, verdadeiramente livre. E aquilo não era ruim.