O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

Anúncios

Agridoce

Acordei naquela calçada com um gosto amargo na boca. Não, não é uma metáfora, entende? A saliva grossa trazia um sabor amargo típico de ressaca. As pernas doíam e o pescoço estava endurecido pelo mau jeito. Também, pudera, havia dormido praticamente sentado na marquise daquele prédio. Levantei dali cambaleando, ajeitando o velho casaco verde musgo, estilo militar. Bati a poeira da calça abrigo preta que cobria metade do tênis adidas cinza, e fiquei um tempo em pé ali, tentando lembrar o que sonhara naquelas poucas horas. Tentava me concentrar mas era difícil, por que não lembramos dos nossos sonhos quando acordamos? Aquilo realmente me deixava puto, era como se a gente perdesse algo que sabia que estava por ali, mas que não conseguia encontrar. Imagens aleatórias sem sequência ou sentido iam e viam. Um balão vermelho cintilante rasgando um céu azul, um céu realmente bonito, desses de cartão postal, o balão subia, subia e chegava até bem perto do sol e se transformava numa grande bola de fogo. Desde criança sonho com balões, e eles caem, furam, desaparecem, mas acho que era a primeira vez que o via queimar.

Era o meu terceiro dia. O aviso de despejo que o oficial de Justiça trouxe ainda estava pregado na porta do apartamento, por isso resolvi ficar por ali mesmo, como se algo me ligasse àquele lugar. Sabe aquelas histórias de quando alguém morre e o espírito ainda tem uma conexão com corpo, e por isso fica preso a este mundo? Os monges tibetanos queimam os mortos para deixar o espírito partir livre ao seu destino. Por isso havia resolvido atear fogo naquele prédio, mas acabei desistindo, mais pelo trabalho que isso daria, na verdade, embora a imagem daquele velho edifício se consumindo em chamas pudesse me trazer algum tipo de satisfação. Como o balão.

Sei que logo vou perder a noção do tempo, mas por enquanto este é o terceiro dia. Meus cabelos estão ensebados e a pele oleosa por causa do calor, mas isso não me incomoda muito. Levanto então e o estômago se contorce, fazendo barulho. Fome. Não sei qual a última vez que comi. A única coisa que engoli ontem foi um terço de uma garrafa de aguardente que uma travesti me trouxe. Ela chegou, perguntou se eu aceitava, claro, respondi, daí ela se sentou do meu lado, passou a garrafa e pôs-se a falar, falar. Não lembro muito bem o que dizia, mas tinha algo a ver com um cara que fazia programa com ela pouco antes e que não queria pagar o que ela exigia, e houve uma briga ou algo assim. Tomava aos goles a garrafa enquanto fingia que prestava atenção e respondia com grunhidos e monossílabos, enfim, ela deve ter pegado a garrafa de volta quando dormi, pois não achei mais ela.

O porteiro não me cumprimenta mais. Passo por ele e ele vira o rosto, disfarça, com uma cara meio constrangida. Embora o lugar seja o mesmo no qual vivo há cinco anos mais ou menos, é como se estivesse habitando um outro mundo, como se fosse um fantasma em que a maioria não pudesse enxergar, que alguns sentem medo e que os únicos a te perceberem ali são os outros fantasmas. As putas, travecos, e os noias fedendo a mijo e suor. Mas esses só andam por ali à noite e já era dia, o sol queimava a pele e o estômago retorcia. O gosto amargo já ia embora junto com a saliva que secava. Fico um pouco tonto, preciso muito comer. Qualquer coisa.

Um homem se aproxima do outro lado do quarteirão. Camisa da seleção, verde e amarela, duas listras pintadas no rosto, um pouco gordo de bochechas rosadas e óculos escuros rayban. Ele me vê, sei que me viu, porque seus passos ficam um pouco hesitantes. Ele é dos que conseguem me ver e sentem medo. Me aproximo, ele desvia o passo pro outro lado, mas eu o sigo. Bom dia, tudo bem, digo, tentando parecer simpático, mas ele olha pra mim com olhos de pavor. O senhor me desculpe viu, mas estou com fome, será que não tem uns trocados pra eu comprar algo, pergunto, com um tom de voz quase infantil, tentando engolir o constrangimento, porque ainda sentia vergonha daquilo, é algo que não superei ainda, mas que já me disseram que passa com o tempo, que era normal nos primeiros dias. Ele não responde e aperta o passo. Moço, moço, repito, e nada. Corro por trás dele então, o agarro pela camisa e, rodando, o jogo com força contra o muro. O rayban dele se quebra e corta o supercílio encharcando o rosto de sangue. Aproveito pra enfiar a mão no bolso de trás da sua bermuda e pegar a carteira. Cadê a porra do celular, grito, passa o celular ou te mato aqui mesmo. Ele me entrega seu iphone, tremendo. Melhor vazar daqui, algumas pessoas já olham pra cá, estou dando muita bandeira, embora ninguém faça nada.

Tento primeiro andar, a passos rápidos, tentando fingir normalidade. Mas percebo uma certa movimentação por ali. Pega, pega, escuto, é a polícia, polícia, ele está ali ó. Corro. Esbarro numa senhora de andador, que grita, mas porra, tonto que estou não consigo dar um pique. Um baque, um estrondo forte, caio. Meu rosto raspa o chão da calçada e a minha boca fica molhada e doce. Vejo algumas pessoas se amontoando a minha volta, mas só observo, entre eles o reflexo do sol projetado no prédio espelhado, esperando passar por ali um balão.

Ao fundo, sons de fogos de artifício me fazem sorrir, mesmo sabendo que não eram pra mim.

Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

Crítica

Acordou atordoado, apertou os olhos e tentou identificar aquele lugar. A consistência da madeira salpicada pela poeira fez-lhe perceber que estava no chão. Aos poucos, sua visão ia desanuviando, enquanto observava ao redor tentando se localizar. Apesar da escuridão, podia ver dezenas, quem sabe centenas de velhos livros amontoados pelos cantos. Mas o pouco que pôde ver já lhe dava a certeza que não conhecia aquele lugar abafado e cheirando a mofo. Tomou um longo inspiro e tentou se levantar, mas sentiu uma dor aguda no topo da cabeça. Passou a mão e sentiu um molhado quente. Sangue. Mesmo cambaleante, levantou-se, mas, quando foi dar o primeiro passo, sua perna esquerda ficou. Estava acorrentada.

Foi entrando em pânico. Que diabos era aquilo? Um sequestro? Mas nem rico era, muito longe disso. Parentes abastados, tampouco tinha. Tentou se controlar, sentou-se e pôs-se a raciocinar. Fora sequestrado, isso é fato, mas por quê? Não possuía inimigos declarados, pelo menos não que se lembrasse, muito menos amantes ressentidas. Sua vida sempre fora pacata, até mesmo entediante para dizer o menos. Sempre carregado pela onda do acaso, como descreveu uma vez ao psicanalista, dando asas a uma verve poética muito pouco explorada. Isso porque sempre preferiu a prosa. Pensava em prosa. A única centelha de brilhantismo na vida, inclusive, havia sido o primeiro e único livro publicado há quase cinco anos. ”Metáfora literal”. Sim, título não era seu forte, mas o livro fez relativo sucesso. Despontou como grande promessa literária, o nome que iria sacudir a mesmice reinante num meio dominado por panelinhas e sucessos hereditários. Pelo menos foi isso que leu numa crítica de jornal, devidamente recortada e emoldurada com pompa na parede do quarto e… Isso! descobrira o mistério! Por certo seu sequestrador o conhece e pensa que aquele livro o deixara rico e…

O estampido da porta ressoou forte no quarto abafado. A luz que entrou o cegou por uns instantes, mas pôde ver a silhueta de um homem, um homem alto e corpulento, que entrou sem dizer nada, puxou uma cadeira do canto e sentou-se ao seu lado. Usava uma touca ninja recobrindo o rosto, uma camiseta de cor indefinida na qual despontava dois braços grossos como toras, e uma calça que parecia ser um jeans surrado, mas não podia ter certeza. Ficaram alguns instantes se encarando, antes que alguém decidisse começar algum diálogo.

_Olha, se você pensa que eu tenho dinheiro ou algo assim, sinto dizer que está enganado, o pouco que ganhei com aquele livro já foi pro ralo há muito tempo.

O homem permanecia imóvel, calado, encarando-o. Podia ouvir sua respiração meio ofegante.

_Você não vai conseguir nenhum dinheiro com isso, cara, tô te dizendo.

Silêncio. Percebeu que era inútil tentar falar e simplesmente esperou que seu improvável anfitrião se pronunciasse, o que realmente aconteceu após alguns longos minutos.

_Não entendeu mesmo o que está acontecendo aqui, não é mesmo?

A voz era rouca, metálica, quase inumana. Mas não parecia hostil nem raivosa, o que o tranquilizou um pouco, o que era possível tranquilizar diante daquela situação. Esperou que seu interlocutor continuasse.

_Eu te conheço. Li seu livro. Ele mudou a minha vida. Você é um gênio.

_Bom, essa não é uma forma muito comum de demonstrar admiração, não é mesmo?

_Você se engana. No final disso tudo, vai me agradecer.

O diálogo surrealista deu uma nova pausa. Ambos se entreolhando no escuro do quarto abafado. O jovem escritor de um só livro e aquele seu admirador misterioso e ameaçador, como são todos os admiradores na verdade.

_Encontrei seu livro num dia em que planejava dar cabo da minha vida. Algo como um milagre, por acaso. Caminhava pela rua pensando como deveria fazer e dei de cara com ele numa vitrine de livraria. Sem saber exatamente por que, fui lá e comprei, sentei numa praça e o li de uma só vez. Quando terminei já estava ficando escuro, e eu era outra pessoa, percebe o que é isso?

Escutava apenas, esperando o momento em que acordaria daquele pesadelo. Nunca ninguém havia dito aquilo, e seu ego, em situações normais, deleitar-se-ia, assim mesmo com mesóclise, com tão elogiosa declaração. Mas naquele momento só conseguia sentir medo. Certo, uma vaidade pode ter despontado ali, já que, diabos, era um escritor afinal, mas, sobretudo medo.

_Depois disso, estudei você. Vasculhei sua vida e passei esses anos todos te seguindo, analisando cada passo que você dava mas, principalmente, esperando sua próxima obra, que não veio.

Essa última parte saiu com um leve tom de desaprovação e decepção, seguido por um suspiro forte que o fez estremecer.

_Olha, cara, eu te entendo, realmente te entendo. Mas se você me estudou mesmo como diz, sabe que eu não criei mais nada depois daquilo. Deve saber ainda que tentei, eu tentei cara, pra caralho. Mas simplesmente não saiu mais nada. Bloqueei, já era.

O homem balançou a cabeça por debaixo da touca, bufando.

_Eu sei disso, e essa é a razão por você estar aqui, vou te ajudar?

_Meu amigo, você não entendeu. Eu não sou capaz mais de criar nada. Já desisti dessa vida. Claro, no começo fiquei desesperado, angustiado mesmo, pensei também em acabar com tudo, como você. Mas percebi que existem outras coisas na vida. Tua salvação estava num livro, a minha, estava fora dele, percebe?

_Você só precisa de um estímulo, uma razão para escrever, e eu vou te ajudar.

O homem se levantou fazendo ranger o piso de madeira, virou-se de costas, abriu uma gaveta e retirou um objeto que não pôde identificar, e sentou-se novamente com o objeto nas mãos.

_O que vai acontecer é o seguinte. Ali do seu lado tem um computador, sem Internet ou qualquer tipo de comunicação externa, evidentemente. Você vai escrever uma obra em uma semana. Se não…

Levantou o objeto que retirara da gaveta e seu temor se revelava fundado. Uma arma.

_Você está completamente louco! Eu não escrevo nada há anos e você quer que eu escreva um livro inteiro em sete dias! Isso é loucura!

_Como eu te disse, estou apenas te ajudando. Você precisa de um estímulo, uma razão para escrever. Não há razão melhor que a própria vida, não? Você é um gênio e é minha responsabilidade não deixar que o mundo abra mão disso.

_Você está louco! Louco!

Gritava, desesperado, com todas as forças, enquanto observava o homem se levantar calmamente e sair do quarto. Ao final, estava exausto. As gotas de suor escorriam pelo rosto e caíam no chão se misturando à poeira do piso. Recobrou as forças e recomeçou a gritar, até perceber que ninguém o escutaria.

(…)

Espancava as teclas do teclado enfurecidamente tal qual um Kerouac movido a benzedrina. Mais magro, alimentava-se mal com o pão diário fornecido por seu algoz e praticamente não dormia envolvido com sua obra urgente. Sem ideia original, apostou naquilo no qual apostam todos os escritores  em crise criativa: uma narrativa autobiográfica, o velho truque metalinguístico. Mas, enfim, chegava à conclusão que, talvez, o homem misterioso estivesse certo. A gravidade da situação o fizera a ganhar, aos poucos na penumbra daquele espaço claustrofóbico, um ânimo que há muito não sentia. Os dedos moviam-se quase que por vontade própria e as frases iam simplesmente deslizando linha por linha, sem o menor esforço. Enquanto isso, a obra tomava corpo, suas estruturas iam crescendo e se solidificando como um edifício, uma torre forte e viril.

Ao fim e a cabo dos sete dias, fraco e absolutamente extenuado, gritou e urrou ao colocar o ponto final em sua obra. O grande escritor voltara! As ninfas traziam de volta sua generosidade àquele farrapo humano para que voltasse triunfante ao Olimpo da literatura. Estava nada menos que extasiado quando finalmente mandou imprimir as páginas na impressora portátil instalada ao lado do computador. Observou cada folha saindo como um pai observa o nascimento de um filho, velando aquela criatura que trazia sua vida de volta, literalmente e metaforicamente falando.

Poucos segundos após a última folha ter sido impressa, o homem mascarado abriu a porta do quarto. Sem dizer nada, sentou-se na cadeira em frente ao computador, desocupada pelo escritor, e pôs-se a ler as páginas recém-paridas. O jovem, mesmo calado, não conseguia esconder a excitação, e roía as unhas, tentando controlar as pernas que teimavam em balançar.

Após terminar a última página, o homem se levantou e postou-se à frente do escritor que, ansioso, esperava odes ao seu talento. Mas ao invés disso, houve silêncio por alguns minutos que transformaram a excitação numa aguda e angustiante ansiedade.

O homem sacou então a arma e atirou na cabeça do jovem escritor.

_Tá uma merda.

Primeira nobre verdade

_Você está louca, Lúcia?

A princípio não entendeu aquele grito reprovador da amiga bem ao seu lado. A confusão, porém, durou apenas poucos segundos, até se dar conta do braço por cima do fogo alto do fogão. Pegava a água que deixara fervendo para passar o café e, distraída, não se deu conta que havia esquecido de apagar o fogo. O cheiro característico de pele e pêlos queimado se espalhava pela pequena cozinha da firma, mas Lúcia, estranhamente, não sentia dor ou qualquer sensação no braço atingido.

Largou rapidamente a leiteira que usara para ferver a água, retirou alguns cubos de gelo do congelador, enrolando-os num pano de prato, e comprimiu-os no antebraço. “Essa merda vai fazer bolha”, pensou, vendo que a região havia ficado bastante vermelha, incluindo a pequena estrela tatuada no pulso. Estranhou que, embora pudesse notar a presença do gelo ali, não sentia o frio dele, apenas sua textura lisa e escorregadia. Não disse nada à amiga para não preocupá-la. Verdade seja dita, não falou nada, pois sabia que, do jeito que era, a obrigaria a ir no médico na mesma hora, algo que não estava disposta a fazer.

O jeito era voltar aos relatórios de auditoria da firma e ver isso depois. Sua rotina era entediante e, muitos diriam, massacrante, mas que, para ela, estava longe de ser necessariamente um fardo. Entregava-se ao automatismo das tarefas mais corriqueiras a fim de desobrigar-se de prender-se a pensamentos e problemas mais complexos. Sempre havia sido assim, muito antes daqueles 19 anos recém-completados, mas que, para ela, pareciam ser pelo menos três vezes mais. Bom, pregou um bandaid no braço e tocou a vida.

Mas quem era Lúcia? Ruiva recém-convertida, pele morena de canela e olhos negros curiosos, uma garota que você esbarraria no metrô a caminho de casa, ou que conversaria distraidamente na fila do banco. Garota comum, de sonhos comuns, tristezas comuns e aspirações comuns. Mas por que então Lúcia figuraria nesta história? É que coisas surpreendentes acontecem justamente com as pessoas mais comuns e, aparentemente triviais. Ou então, o contrário, poderíamos dizer ainda que ninguém é comum, como vamos ver em seguida.

Imersa em relatórios, números e tabelas, Lúcia nem se dera conta que o horário do almoço há muito havia se passado. Percebeu tão apenas aquele ronco no estômago, que a fez se levantar e preparar um pequeno lanche antes de voltar à labuta. O braço queimado, que percebia já pequenas bolhas se formando, tampouco doía. Começava a se intrigar de verdade, mas resolveu não fazer nada a princípio.

O dia seguinte transcorreu quase normalmente, tirando a fome que deixara definitivamente de sentir. Ao dormir, porém, naquele tradicional momento de reflexão e balanço do dia, intrigou-se com mais uma coisa. Algo deveras banal, claro, mas que naquele contexto parecera-lhe estranho. Um encontro desmarcado, nada demais. Há um certo tempo estava de olho no rapaz. Contou os dias que precisou tomar coragem antes de falar com ele pela primeira vez. Um assunto qualquer que, esperava, pudesse deslanchar uma conversa. “Nossa, que calor, não? Que sotaque bonito, de onde é?”. O rapaz pareceu, enfim, notar sua existência e, após um tempo, tomava ele próprio a iniciativa de conversar. Até que marcaram um primeiro encontro, um despretensioso café que ocorreria aquela noite. Pois bem, o aviso veio pelo whatsapp. Não poderia ir já que teria surgido um problema familiar inesperado. Uma desculpa para justificar um recuo? Não sabia, fato é que, percebia agora, não ficara frustrada ou triste, como normalmente ficaria. Só percebeu  a indiferença de sua reação naquele momento, e adormeceu.

Foi num momento rápido de distração no trabalho que se deu conta. Entre papeis e relatórios, caiu em si de que não sentia mais nada. Não era apenas a dor ou o frio que não era capaz mais de sentir, mas as emoções mais básicas como frustração, tristeza ou alegria. Era como se o automatismo do trabalho tivesse se apossado de sua alma e, agora, respondia mecanicamente a estímulos sem maiores consequências. Sim, era isso. Ela, Lúcia, uma garota como tantas outras com suas dores, alegrias, frustrações e medos, não sentia mais. Era como se algo dentro dela, alguma chave, tivesse sido abruptamente desligada. Uma anestesia profunda que penetrava em suas vísceras e escorregava pela alma, ou o que quer tenha ali no lugar da alma.

No dia seguinte passou no posto de saúde antes de ir ao trabalho. Relatou ao clínico geral o episódio do café, do gelo, a fome que não sentia mais. O doutor tomou seu pulso, sua pressão, ouviu seu batimento cardíaco, verificou os reflexos do joelho, olhou por dentro de seu ouvido e apalpou o fundo da língua com uma paleta de madeira, mandando-a dizer “ahhhhh”, abrindo bem a boca. “Olha, aparentemente está tudo normal, mas vamos ter que fazer alguns exames”, disse, enquanto fazia anotações em sua prancheta.

_Mas doutor é que…

Lúcia deteve-se. Por algum motivo, não falou sobre sua real condição.

_Mais alguma coisa, Lúcia?

_Não, não, doutor.

_Bem, temos que fazer mais exames, mas pode ser um quadro de estresse ou ansiedade, leve essas guias e depois marcamos um retorno.

Pegou as guias de qualquer jeito, enfiou-as na bolsa e despediu-se rapidamente do médico.

Lúcia saiu de lá com a certeza que não mais voltaria. Ali, naquele consultório, havia percebido algo a mais. Sentia-se, pela primeira vez na vida, verdadeiramente livre. E aquilo não era ruim.

Devir

Quase se arrependia daquela caminhada quando enxergou o lago naquele final de tarde de primavera. A água, embora turva, refletia o ocaso do sol e compunha um cenário que talvez pudesse chamar de exuberante. Aproximou-se sorrateiro até encostar-se no tronco de uma árvore rente à borda. Deixou escapar um grunhido abafado de dor quando se abaixou, apoiando o braço direito nas costas. E pôde suspirar, enfim, aliviado quando finalmente encontrou uma posição confortável. Praguejou diante daquela situação que achava ridícula, e da sua condição deprimente, mas enfim, diabos, que vá tudo à merda, pensou.

As pernas fracas demoraram alguns minutos até pararem de tremer. Sentado na grama e apoiado no tronco, segurava as canelas finas singradas por veias saltadas. Respirou fundo tentando encontrar algum tipo de paz ou qualquer coisa que fosse parecida a isso. Ouvia o barulho das últimas crianças deixando o parque, o que lhe desviou a atenção. Teve um reflexo de praguejar mais uma vez, como era de costume, mas se deteve. Seus olhos se voltaram para as águas calmas do lago, e as lentas ondulações provocadas pelo vento, deformando o reflexo do sol em círculos concêntricos.

Imagens da infância irromperam em sua cabeça. Viu-se menino na fazenda em que fora criado, jogando pedras na lagoa lamacenta. Como se espantasse uma mosca inconveniente, repeliu tais lembranças intrometidas. Um velho pensando na vida à beira de um lago, pensou, é uma imagem um tanto ridícula. Mas como uma mosca insistente, esses pensamentos voltavam e pousavam em sua testa. Isso se tornava comum a essa altura da vida. Como um flashback, passou a ver a vida como um álbum de fotos. A formatura, o primeiro casamento, o primeiro filho. Tivera uma vida boa, poderia dizer? Certamente, não teria vergonha ou hesitação em responder. Tampouco ninguém poderia negar. Teve seus amores, arroubos de juventude, uma união até certo ponto feliz, e filhos bons, que lhe deram netos bons.

A vida profissional também não ficaria atrás. Sempre fazia questão de lembrar, primeiro aos filhos e depois aos netos, sobre como cresceu na empresa, sempre por méritos próprios e sem o famoso QI, ressaltava sempre. O trabalho enaltece o homem, era seu lema, embora a essa altura talvez já não acreditasse nisso com a mesma convicção. Aposentou-se com honras e com um sentimento de dever cumprido. Tivera uma vida boa? Claro, sem dúvidas. Mas a mosca demorava em sua fronte, e ameaçava picá-lo. E… os sonhos?

Em toda a vida, seus sonhos não couberam naquele padrão. Cada contingência concreta da vida adulta fazia ruir um de seus tijolos. Quando deu por si, já não havia mais nada. Arrependimentos? Evidente. É cínico e desonesto quem diz não tê-los. Crescem na proporção em que os sonhos ruem. É a vida, pensou.

Durante um tempo, acreditou que os fardos fossem provações para o merecimento do paraíso no céu. Já em outra etapa, passou a crer no karma, e na retribuição de suas ações em vidas vindouras. Com certa maturidade, abandonou de vez o pensamento mágico e encarou de frente a completa descrença. Conformou-se com a ideia da finitude, sobretudo quando seu próprio corpo começava a dar sinais inequívocos disso. Não foi fácil ou tranquilo entender que, um dia como qualquer outro, dormiria para nunca mais despertar. Deixaria de existir como se nunca tivera existido. Sim, um belo dia, que não tardaria, iria morrer. Seu corpo apodreceria e se desintegraria e, algum tempo depois, não iria deixar mais qualquer vestígio. Remoeu a dura realidade que martelava em sua cabeça, mas, após um tempo, acabou aceitando de bom grado o destino. O que fazer? O tempo e o acaso são os senhores de tudo.

Uma outra ideia, então, passou a rondar zunindo sua cabeça. Uma ideia redentora, por certo. Morrendo, se desintegraria em moléculas, que voltariam à terra. Cada átomo que naquele momento compunha seu corpo senil voltaria à natureza e poderia, assim, ser qualquer coisa. Poderia ser aquela árvore em que se recostara. O lago que assistia a aurora. Poderia viajar e se tornar parte de um escritor que ainda não nasceu, um romancista que nunca fora, um maestro que sempre sonhou ser. Ou todos eles ao mesmo tempo. Não haveria mais consciência, claro, mas aquela simples possibilidade não deixava de ser um conforto. Talvez algo mais interessante que a imagem de um paraíso celestial habitado por anjos rechonchudos tocando harpa.

Aquela imagem o fez até mesmo esboçar um meio sorriso mal-humorado. O sol já havia se posto quando caiu em si. Sentiu a grama com a palma das mãos e arrancou um punhado do chão, misturado à terra. Apertou forte sentindo a textura dos grãos e do mato. Pela primeira vez na vida, sentia-se de fato integrado àquele lugar. Pela primeira vez, aquela sensação de estranhamento já não estava ali.

O som das cigarras dera início à sinfonia noturna. Tudo estava bem.

Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.