Sueños y crepúsculos

“Os mortos não fazem autocrítica”. Foi o que me veio à cabeça enquanto eu engatilhava o 38 e me punha junto à porta, esperando pelo pior. Completava já uma semana enfurnado naquele aparelho, e era tomado pelo tédio e a paranoia. O ranger dos tacos do corredor fez acelerar meu batimento cardíaco e, ato contínuo, desembanhei a arma da calça e a empunhei esperando alguma visita indesejável. A ordem é não ser preso sem resistência. Ou vivo, em outras palavras. Enquanto espero, colado à porta, o suor brota da testa e vai banhando o meu rosto, chegando até os lábios, fazendo-me sentir seu gosto salgado. Os minutos vão passando e nada acontece. Dou um suspiro, desengatilho e caio de joelhos no chão, exaurido. “Paciência chinesa camarada”, quase posso ouvir.

Onde estarão todos? Presos, mortos, alguns talvez tenham conseguido fugir para o exílio, embora a linha fosse permanecer aqui até o fim. Um a um, caindo como pássaros abatidos nas mãos da repressão. Os que restávamos somos agora sombras do que éramos há alguns meses. Envelhecemos anos, quiçá décadas. Aquela alegria juvenil e o entusiasmo típico se transformaram numa espécie de ceticismo cada vez maior, que nos vai tomando a cada dia, penetrando na carne e corroendo os ossos. As tais ações exemplares não despertaram a consciência revolucionária das massas. Isolados, não avançamos nem na primeira fase de preparação de nosso foco, com acumulação de recursos para nossa instalação no campo. A direção, por sua vez, cada vez mais burocrática e centralizadora, isolou as vozes dissonantes e enterrou os balanços. Ouvi dizer que um dos que bateram de frente foi praticamente entregue aos vergudos. Armaram um ponto falso e ele foi preso. Difícil que ainda esteja vivo.

O apartamento é silencioso e escuro, já que as cortinas devem estar permanentemente fechadas. As paredes parecem se mover a cada dia um pouco para a frente, aumentando essa sensação claustrofóbica. Não me lembro da última vez que tomei um banho. Com o passar do tempo, isso se torna secundário. Principalmente quando envolve um sério problema de segurança, pois o barulho do chuveiro poderia atrair a atenção de algum vizinho para um imóvel aparentemente vazio. Tento me manter são, a despeito de tudo. Apesar das esperanças escorrerem com o suor através do meu corpo, e a única confiança que ainda mantenho são nas três balas que carrego no tambor da minha arma.

À noite era o pior. Os poucos momentos de sono são invariavelmente invadidos por aquelas mesmas cenas. Acabávamos de expropriar uma agência bancária quando chegávamos ao JK azul que nos aguardava com o motor ligado. Entrei por um lado e Sérgio, quando abria a porta do outro, foi interceptado por um policial à paisana. Ainda teve tempo e reflexo de revidar, acertando o policial, que tombou como uma pedra no chão. Enquanto o carro arrancava, tentamos puxá-lo para dentro, mas nos tornamos alvo de uma viatura que despontava na esquina. A imagem de Sérgio deitado no asfalto, sangrando e descarregando seu fuzil contra a viatura ficou impressa na minha retina e se reproduz todas as noites. “Por que me deixou morrer nas mãos deles, camarada?”, Sérgio me pergunta, aparentando confusão e exibindo o corpo crivado de balas. Me desespero enquanto as lágrimas se esvaem. “Nós tentamos, Sérgio, não conseguimos te salvar, a polícia chegou, você viu, iríamos todos morrer lá”. Sérgio permanece imóvel, perplexo, fitando meus olhos, não parece mais me ouvir. “Meu nome não é Sérgio”. Acordo com taquicardia e o lençol molhado de suor, no que já se tornou uma torturante rotina.

“Calma, calma, sangue frio nas adversidades, sangue frio…”, tentava repetir para mim mesmo, como uma espécie de mantra para afugentar o desespero que ameaçava tomar conta da situação. O que fazer quando todas as suas verdades, outrora tão sólidas e nítidas, desabam como um castelo de cartas? Como não desistir e se entregar à loucura? Enfim, estou aqui aguentando, resistindo, num balanço que não vou ter como apresentar. Não sinto pena de mim mesmo, afinal de contas, quando entrei já sabia o que me esperava. “A morte é um acidente frequente”, não é? Mas se perder a vida é o esperado, o mesmo não se pode dizer da fé.

“Você está realmente convencido disso? Se entrar não tem volta, não vai poder mais ver seus amigos, familiares…”. Não a deixei terminar a frase. “Estou plenamente convencido e farei o que for preciso”, respondi, tentando forçar as pronúncias das sílabas, de tal modo que parecessem resoluta o bastante para impressioná-la. Um ano mais velha, tinha olhos castanhos e profundos, de uma tristeza melancólica e sutil. Foi a primeira a cair. Faltou a um ponto e não tivemos notícias suas durante dias, até o jornal publicar a foto de seu corpo junto ao fusca, perfurado por balas. Na legenda da foto, dizia que a “terrorista” havia resistido à prisão. Espero que realmente tenha tido essa oportunidade. Tina. Foi só ali que soube seu nome.

Sonhos espalhados no chão e imersos em sangue. Pior, o nosso.

Um barulho surdo irrompe meus devaneios. Três baques sucessivos e consigo distinguir o som da fechadura da porta se partindo e espatifando no chão. O estampido foi seguido por passos apressados pelo corredor lá fora. Tiro meu canivete do bolso e passo a esculpir rapidamente a parede. “Tina, presente”. Ouço então o som de vários gatilhos sendo acionados. Estou calmo, todavia, mais do que o normal, diria, a ponto de me surpreender. Olho para o meu 38, pendo o tambor para o lado e observo as três balas. “Tina, Sérgio e comandante”. Coloco de volta num só movimento, engatilhando, enquanto me levanto. Vivemos nossas próprias vidas, erramos nossos próprios erros.

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