Pesadilla

 

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os fios de cabelo que se pregavam como algas em meu rosto. Inclinei a cabeça para frente e tentei relaxar o corpo teso. Mexi levemente as pontas dos meus dedos num movimento contínuo, sentindo em suas pontas a textura áspera do cobertor. Pela janela do meu quarto, uma fresta da persiana deixava escapar dois fios luminosos de claridade. Já era dia.

Empreendi um esforço considerável para levantar. Encostei os pés no chão frio do taco envelhecido do quarto, firmei a planta do calcanhar neles e pendi para frente. Um corpo suspenso no ar, ancorado por pés frágeis e cambaleantes. Forcei os olhos no quarto escuro, tentando identificar aquele lugar. Observei o criado mudo empoeirado, por sobre o qual repousava um velho retrato. Seria eu ali, embaixo daquela camada de poeira? Passei a mão e descobri metade da fotografia, revelando um homem de sorriso aberto, de uma alegria um tanto triste ou forçada talvez. Era eu, mas não era eu. Virei para baixo.

Caminhei em direção à sala e tropecei sobre a garrafa vazia jogada no chão. Escorei-me na parede para não perder o equilíbrio, em vão. Escorreguei lentamente. O pó cinza entrava em minhas narinas e decidi que seria uma boa ideia permanecer por ali por um tempo. Minhas mãos apalparam um pedaço de papel amassado, peguei-o postando à minha frente, tentando focá-lo numa das frestas que entravam pela janela. Meu boletim da sétima série, logo reconheci as notas. Quanto potencial, sorri sarcasticamente em pensamento.

Ouvi um ruído na sala, um rangido de sofá. Decidi levantar, o que fiz lentamente. A passos lentos, entro na sala franzindo a testa e cerrando os olhos por conta da luz que transbordava da janela. Ainda assim, a penumbra tomava conta de boa parte do cômodo. A poeira suspensa parecia uma densa neblina. Sentado sobre a poltrona, um velho senhor olhava para baixo, indiferente, como se matutasse algo. De chapeu cinza, camisa branca, calça social e sapatos carcomidos. Minha presença não pareceu incomodá-lo.

Quando percebeu que estava ali, levantou-se apoiado na bengala, apalpou a poeira da calça e me estendeu a mão direita. Apertei, sentindo sua pele fria e rugosa. Ele se virou e, sem dizer qualquer coisa, abriu a porta, postando-se ao lado para me dar passagem. A claridade de fora iluminou seu rosto, explicitando profundos sulcos morenos e finos fios brancos  despontando do queixo. Reconheci meu avô.

Caminhei em direção à porta e, antes de atravessá-la, olhei ao meu redor como se me despedisse. A velha TV recoberta por um véu alvo de teias empoeiradas. Os livros amarelados jaziam sobre o chão. No canto, três frascos abertos quase passavam desapercebidos, com alguns comprimidos vermelhos quase se integrando os tacos de madeira.

Dou um passo à frente e, sob os olhos do velho, atravesso a porta. Estava voltando para casa.

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os cabelos à minha fronte.

Abri os olhos após um longo pesadelo.

Abri os olhos.

Longo pesadelo.

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Responsabilidades

As articulações de meus dedos já doíam quando ele parou de se debater. Um espasmo rápido e seus músculos se contraíram, antes de relaxar e se estender completamente. As marcas de minhas mãos ficaram impressas em seu pescoço, num tom arroxeado.

Acendi um cigarro e fiquei contemplando seu corpo inerte jogado ao chão. Os olhos arregalados pararam em minha direção, como se me olhassem também. A boca entreaberta deixava parte da ponta da língua para fora. Aproveitei a bituca que ainda fumegava e queimei seu braço, uma lição antiga de um professor de Legislação que jurava que aplicava esse teste em todo velório que ia. Se formasse bolha era porque ainda estava vivo. Não fez, meu trabalho estava terminado.

Hora de voltar para casa.

A primeira vez que ele apareceu foi no banheiro, não tenho mais certeza. Abri o box ao sair do chuveiro e me deparei com ele ali, parado, em pé no canto. Mentiria se dissesse que me assustei. Fiquei parado na sua frente, encarando-o. Não sou homem de fugir às minhas responsabilidades. Ele, por sua vez, permaneceu imóvel, alheio à minha presença. Peguei a toalha, me enxuguei e abri o vitrô para escovar os dentes.

A partir daí, começou a me seguir para todo lugar que eu fosse. Sempre calado, como uma sombra sorrateira. Caminhava ao meu lado na rua, um pouco mais atrás, contando os passos. Com o passar dos dias, percebi que seu corpo ia se putrefando, exalando um cheiro cada vez mais forte e nauseante. Um cheiro que conhecia bem.

Aprendi a conviver com isso, embora deva confessar não ser algo muito agradável. Principalmente quando se senta ao meu lado no almoço, com os olhos perdidos num horizonte de morte.

Evidente que só eu posso vê-lo. Mesmo aqui, do meu lado, enquanto escrevo essas linhas. Nossos mortos, nós próprios devemos carregar.

O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

Samsara

Tomou aquele café amargo num só gole. O líquido preto, fervente, desceu queimando a faringe. Uma corrente elétrica percorreu-lhe o corpo. Levantou então a cabeça e inspirou, inflando os pulmões com o ar fresco daquela manhã fria de inverno. Sob a mesa à sua frente jaziam as contas vencidas, o velho celular inquieto e todas as suas preocupações.

Uma estranha calma pairava sobre a cidade. Um silêncio sepulcral que podia se ouvir por debaixo das conversas da lanchonete, do ruído dos carros e do incessante alarme que tantas vezes amaldiçoara. Tudo lhe era alheio e ao mesmo tempo mais próximo que nunca.

_O senhor está bem?

A atendente perguntava com um ar sincero de preocupação, inclinando-se para averiguar de perto sua fisionomia. Por certo, estranhando a demora em terminar aquela xícara de café. Por certo ainda, temerosa em liberar lugar para novos clientes.

_Estou sim, claro, obrigado.

Levantou-se calmamente da cadeira, deixando uma nota sobre a mesa. Guardou o celular trêmulo no bolso junto às contas amassadas num só bolo de papel.

_ Na verdade, dona, acabei de morrer logo ali, disse, apontando seu lugar na cadeira. Mas estou ótimo.

Afastou-se a passos ligeiros deixando a atendente com um olhar atônito balançando a cabeça em sinal de desaprovação. De fato, havia morrido algo nele ali naquele momento.

E de fato, sentia-se ótimo.

Agridoce

Acordei naquela calçada com um gosto amargo na boca. Não, não é uma metáfora, entende? A saliva grossa trazia um sabor amargo típico de ressaca. As pernas doíam e o pescoço estava endurecido pelo mau jeito. Também, pudera, havia dormido praticamente sentado na marquise daquele prédio. Levantei dali cambaleando, ajeitando o velho casaco verde musgo, estilo militar. Bati a poeira da calça abrigo preta que cobria metade do tênis adidas cinza, e fiquei um tempo em pé ali, tentando lembrar o que sonhara naquelas poucas horas. Tentava me concentrar mas era difícil, por que não lembramos dos nossos sonhos quando acordamos? Aquilo realmente me deixava puto, era como se a gente perdesse algo que sabia que estava por ali, mas que não conseguia encontrar. Imagens aleatórias sem sequência ou sentido iam e viam. Um balão vermelho cintilante rasgando um céu azul, um céu realmente bonito, desses de cartão postal, o balão subia, subia e chegava até bem perto do sol e se transformava numa grande bola de fogo. Desde criança sonho com balões, e eles caem, furam, desaparecem, mas acho que era a primeira vez que o via queimar.

Era o meu terceiro dia. O aviso de despejo que o oficial de Justiça trouxe ainda estava pregado na porta do apartamento, por isso resolvi ficar por ali mesmo, como se algo me ligasse àquele lugar. Sabe aquelas histórias de quando alguém morre e o espírito ainda tem uma conexão com corpo, e por isso fica preso a este mundo? Os monges tibetanos queimam os mortos para deixar o espírito partir livre ao seu destino. Por isso havia resolvido atear fogo naquele prédio, mas acabei desistindo, mais pelo trabalho que isso daria, na verdade, embora a imagem daquele velho edifício se consumindo em chamas pudesse me trazer algum tipo de satisfação. Como o balão.

Sei que logo vou perder a noção do tempo, mas por enquanto este é o terceiro dia. Meus cabelos estão ensebados e a pele oleosa por causa do calor, mas isso não me incomoda muito. Levanto então e o estômago se contorce, fazendo barulho. Fome. Não sei qual a última vez que comi. A única coisa que engoli ontem foi um terço de uma garrafa de aguardente que uma travesti me trouxe. Ela chegou, perguntou se eu aceitava, claro, respondi, daí ela se sentou do meu lado, passou a garrafa e pôs-se a falar, falar. Não lembro muito bem o que dizia, mas tinha algo a ver com um cara que fazia programa com ela pouco antes e que não queria pagar o que ela exigia, e houve uma briga ou algo assim. Tomava aos goles a garrafa enquanto fingia que prestava atenção e respondia com grunhidos e monossílabos, enfim, ela deve ter pegado a garrafa de volta quando dormi, pois não achei mais ela.

O porteiro não me cumprimenta mais. Passo por ele e ele vira o rosto, disfarça, com uma cara meio constrangida. Embora o lugar seja o mesmo no qual vivo há cinco anos mais ou menos, é como se estivesse habitando um outro mundo, como se fosse um fantasma em que a maioria não pudesse enxergar, que alguns sentem medo e que os únicos a te perceberem ali são os outros fantasmas. As putas, travecos, e os noias fedendo a mijo e suor. Mas esses só andam por ali à noite e já era dia, o sol queimava a pele e o estômago retorcia. O gosto amargo já ia embora junto com a saliva que secava. Fico um pouco tonto, preciso muito comer. Qualquer coisa.

Um homem se aproxima do outro lado do quarteirão. Camisa da seleção, verde e amarela, duas listras pintadas no rosto, um pouco gordo de bochechas rosadas e óculos escuros rayban. Ele me vê, sei que me viu, porque seus passos ficam um pouco hesitantes. Ele é dos que conseguem me ver e sentem medo. Me aproximo, ele desvia o passo pro outro lado, mas eu o sigo. Bom dia, tudo bem, digo, tentando parecer simpático, mas ele olha pra mim com olhos de pavor. O senhor me desculpe viu, mas estou com fome, será que não tem uns trocados pra eu comprar algo, pergunto, com um tom de voz quase infantil, tentando engolir o constrangimento, porque ainda sentia vergonha daquilo, é algo que não superei ainda, mas que já me disseram que passa com o tempo, que era normal nos primeiros dias. Ele não responde e aperta o passo. Moço, moço, repito, e nada. Corro por trás dele então, o agarro pela camisa e, rodando, o jogo com força contra o muro. O rayban dele se quebra e corta o supercílio encharcando o rosto de sangue. Aproveito pra enfiar a mão no bolso de trás da sua bermuda e pegar a carteira. Cadê a porra do celular, grito, passa o celular ou te mato aqui mesmo. Ele me entrega seu iphone, tremendo. Melhor vazar daqui, algumas pessoas já olham pra cá, estou dando muita bandeira, embora ninguém faça nada.

Tento primeiro andar, a passos rápidos, tentando fingir normalidade. Mas percebo uma certa movimentação por ali. Pega, pega, escuto, é a polícia, polícia, ele está ali ó. Corro. Esbarro numa senhora de andador, que grita, mas porra, tonto que estou não consigo dar um pique. Um baque, um estrondo forte, caio. Meu rosto raspa o chão da calçada e a minha boca fica molhada e doce. Vejo algumas pessoas se amontoando a minha volta, mas só observo, entre eles o reflexo do sol projetado no prédio espelhado, esperando passar por ali um balão.

Ao fundo, sons de fogos de artifício me fazem sorrir, mesmo sabendo que não eram pra mim.

Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

Crítica

Acordou atordoado, apertou os olhos e tentou identificar aquele lugar. A consistência da madeira salpicada pela poeira fez-lhe perceber que estava no chão. Aos poucos, sua visão ia desanuviando, enquanto observava ao redor tentando se localizar. Apesar da escuridão, podia ver dezenas, quem sabe centenas de velhos livros amontoados pelos cantos. Mas o pouco que pôde ver já lhe dava a certeza que não conhecia aquele lugar abafado e cheirando a mofo. Tomou um longo inspiro e tentou se levantar, mas sentiu uma dor aguda no topo da cabeça. Passou a mão e sentiu um molhado quente. Sangue. Mesmo cambaleante, levantou-se, mas, quando foi dar o primeiro passo, sua perna esquerda ficou. Estava acorrentada.

Foi entrando em pânico. Que diabos era aquilo? Um sequestro? Mas nem rico era, muito longe disso. Parentes abastados, tampouco tinha. Tentou se controlar, sentou-se e pôs-se a raciocinar. Fora sequestrado, isso é fato, mas por quê? Não possuía inimigos declarados, pelo menos não que se lembrasse, muito menos amantes ressentidas. Sua vida sempre fora pacata, até mesmo entediante para dizer o menos. Sempre carregado pela onda do acaso, como descreveu uma vez ao psicanalista, dando asas a uma verve poética muito pouco explorada. Isso porque sempre preferiu a prosa. Pensava em prosa. A única centelha de brilhantismo na vida, inclusive, havia sido o primeiro e único livro publicado há quase cinco anos. ”Metáfora literal”. Sim, título não era seu forte, mas o livro fez relativo sucesso. Despontou como grande promessa literária, o nome que iria sacudir a mesmice reinante num meio dominado por panelinhas e sucessos hereditários. Pelo menos foi isso que leu numa crítica de jornal, devidamente recortada e emoldurada com pompa na parede do quarto e… Isso! descobrira o mistério! Por certo seu sequestrador o conhece e pensa que aquele livro o deixara rico e…

O estampido da porta ressoou forte no quarto abafado. A luz que entrou o cegou por uns instantes, mas pôde ver a silhueta de um homem, um homem alto e corpulento, que entrou sem dizer nada, puxou uma cadeira do canto e sentou-se ao seu lado. Usava uma touca ninja recobrindo o rosto, uma camiseta de cor indefinida na qual despontava dois braços grossos como toras, e uma calça que parecia ser um jeans surrado, mas não podia ter certeza. Ficaram alguns instantes se encarando, antes que alguém decidisse começar algum diálogo.

_Olha, se você pensa que eu tenho dinheiro ou algo assim, sinto dizer que está enganado, o pouco que ganhei com aquele livro já foi pro ralo há muito tempo.

O homem permanecia imóvel, calado, encarando-o. Podia ouvir sua respiração meio ofegante.

_Você não vai conseguir nenhum dinheiro com isso, cara, tô te dizendo.

Silêncio. Percebeu que era inútil tentar falar e simplesmente esperou que seu improvável anfitrião se pronunciasse, o que realmente aconteceu após alguns longos minutos.

_Não entendeu mesmo o que está acontecendo aqui, não é mesmo?

A voz era rouca, metálica, quase inumana. Mas não parecia hostil nem raivosa, o que o tranquilizou um pouco, o que era possível tranquilizar diante daquela situação. Esperou que seu interlocutor continuasse.

_Eu te conheço. Li seu livro. Ele mudou a minha vida. Você é um gênio.

_Bom, essa não é uma forma muito comum de demonstrar admiração, não é mesmo?

_Você se engana. No final disso tudo, vai me agradecer.

O diálogo surrealista deu uma nova pausa. Ambos se entreolhando no escuro do quarto abafado. O jovem escritor de um só livro e aquele seu admirador misterioso e ameaçador, como são todos os admiradores na verdade.

_Encontrei seu livro num dia em que planejava dar cabo da minha vida. Algo como um milagre, por acaso. Caminhava pela rua pensando como deveria fazer e dei de cara com ele numa vitrine de livraria. Sem saber exatamente por que, fui lá e comprei, sentei numa praça e o li de uma só vez. Quando terminei já estava ficando escuro, e eu era outra pessoa, percebe o que é isso?

Escutava apenas, esperando o momento em que acordaria daquele pesadelo. Nunca ninguém havia dito aquilo, e seu ego, em situações normais, deleitar-se-ia, assim mesmo com mesóclise, com tão elogiosa declaração. Mas naquele momento só conseguia sentir medo. Certo, uma vaidade pode ter despontado ali, já que, diabos, era um escritor afinal, mas, sobretudo medo.

_Depois disso, estudei você. Vasculhei sua vida e passei esses anos todos te seguindo, analisando cada passo que você dava mas, principalmente, esperando sua próxima obra, que não veio.

Essa última parte saiu com um leve tom de desaprovação e decepção, seguido por um suspiro forte que o fez estremecer.

_Olha, cara, eu te entendo, realmente te entendo. Mas se você me estudou mesmo como diz, sabe que eu não criei mais nada depois daquilo. Deve saber ainda que tentei, eu tentei cara, pra caralho. Mas simplesmente não saiu mais nada. Bloqueei, já era.

O homem balançou a cabeça por debaixo da touca, bufando.

_Eu sei disso, e essa é a razão por você estar aqui, vou te ajudar?

_Meu amigo, você não entendeu. Eu não sou capaz mais de criar nada. Já desisti dessa vida. Claro, no começo fiquei desesperado, angustiado mesmo, pensei também em acabar com tudo, como você. Mas percebi que existem outras coisas na vida. Tua salvação estava num livro, a minha, estava fora dele, percebe?

_Você só precisa de um estímulo, uma razão para escrever, e eu vou te ajudar.

O homem se levantou fazendo ranger o piso de madeira, virou-se de costas, abriu uma gaveta e retirou um objeto que não pôde identificar, e sentou-se novamente com o objeto nas mãos.

_O que vai acontecer é o seguinte. Ali do seu lado tem um computador, sem Internet ou qualquer tipo de comunicação externa, evidentemente. Você vai escrever uma obra em uma semana. Se não…

Levantou o objeto que retirara da gaveta e seu temor se revelava fundado. Uma arma.

_Você está completamente louco! Eu não escrevo nada há anos e você quer que eu escreva um livro inteiro em sete dias! Isso é loucura!

_Como eu te disse, estou apenas te ajudando. Você precisa de um estímulo, uma razão para escrever. Não há razão melhor que a própria vida, não? Você é um gênio e é minha responsabilidade não deixar que o mundo abra mão disso.

_Você está louco! Louco!

Gritava, desesperado, com todas as forças, enquanto observava o homem se levantar calmamente e sair do quarto. Ao final, estava exausto. As gotas de suor escorriam pelo rosto e caíam no chão se misturando à poeira do piso. Recobrou as forças e recomeçou a gritar, até perceber que ninguém o escutaria.

(…)

Espancava as teclas do teclado enfurecidamente tal qual um Kerouac movido a benzedrina. Mais magro, alimentava-se mal com o pão diário fornecido por seu algoz e praticamente não dormia envolvido com sua obra urgente. Sem ideia original, apostou naquilo no qual apostam todos os escritores  em crise criativa: uma narrativa autobiográfica, o velho truque metalinguístico. Mas, enfim, chegava à conclusão que, talvez, o homem misterioso estivesse certo. A gravidade da situação o fizera a ganhar, aos poucos na penumbra daquele espaço claustrofóbico, um ânimo que há muito não sentia. Os dedos moviam-se quase que por vontade própria e as frases iam simplesmente deslizando linha por linha, sem o menor esforço. Enquanto isso, a obra tomava corpo, suas estruturas iam crescendo e se solidificando como um edifício, uma torre forte e viril.

Ao fim e a cabo dos sete dias, fraco e absolutamente extenuado, gritou e urrou ao colocar o ponto final em sua obra. O grande escritor voltara! As ninfas traziam de volta sua generosidade àquele farrapo humano para que voltasse triunfante ao Olimpo da literatura. Estava nada menos que extasiado quando finalmente mandou imprimir as páginas na impressora portátil instalada ao lado do computador. Observou cada folha saindo como um pai observa o nascimento de um filho, velando aquela criatura que trazia sua vida de volta, literalmente e metaforicamente falando.

Poucos segundos após a última folha ter sido impressa, o homem mascarado abriu a porta do quarto. Sem dizer nada, sentou-se na cadeira em frente ao computador, desocupada pelo escritor, e pôs-se a ler as páginas recém-paridas. O jovem, mesmo calado, não conseguia esconder a excitação, e roía as unhas, tentando controlar as pernas que teimavam em balançar.

Após terminar a última página, o homem se levantou e postou-se à frente do escritor que, ansioso, esperava odes ao seu talento. Mas ao invés disso, houve silêncio por alguns minutos que transformaram a excitação numa aguda e angustiante ansiedade.

O homem sacou então a arma e atirou na cabeça do jovem escritor.

_Tá uma merda.