Onde andará Ricardo?

“Ele já está chegando?”, perguntou, não conseguindo segurar a ansiedade diante dos amigos. Todos amontoados na pequena cozinha de Ricardo. Ao centro, o bolo pousado sobre a mesa exibia cinco velinhas fincadas, cujas chamas ardiam trêmulas. Todos preparados para a chegada do aniversariante, a postos para surpreendê-lo. “Sim, sim, acho que é ele”. Um rebuliço tomou conta dali, a luz se apagou e todos fizeram silêncio. Eis que a porta se abriu e, quando o grito quase escapava da garganta, perceberam que não era Ricardo. “Cadê ele?”, foi perguntando Sérgio que acabara de abrir a porta, tendo como resposta um longo suspiro de decepção.

Rapidamente todos voltaram aos seus postos. Sérgio encontrou uma fresta na porta onde poderia se esconder. Alguns minutos se passaram quando aconteceu o primeiro questionamento. “Vocês tem certeza que ele vem mesmo?”, disse Flavinha, amiga de longa data de Ricardo e ex-namorada de Sérgio. “Claro que vem, aonde mais ele poderia ir?”, respondeu com uma certa impaciência Danilo, o organizador da festa surpresa e em geral o impulsionador de todas as iniciativas da turma. Do trivial bar de sexta à noite à viagem nas férias de mochilão pela América Latina.

Os minutos se passaram, porém, sem que Ricardo aparecesse. A impaciência e ansiedade foram dando lugar a um sentimento de decepção e angústia. No silêncio, os ponteiros do relógio da cozinha foi marcando seu movimento cadenciado, lentamente, como se pesasse toneladas. “Onde diabos ele se meteu?”, perguntou Flavinha, olhando para Marcelo, que cutucava Danilo com o cotovelo. “Não faço ideia, para onde mais poderia ter ido?”, balbuciou o organizador da festa surpresa, que acabou surpreendendo foi eles próprios.

“Bem que eu notei algo estranho nele esses dias”, cochichou Flavinha. “Estranho como? Estava deprimido ou algo assim?”, perguntou Danilo. “Não deprimido, mas não sei… Parecia aéreo, mais do que de costume”, respondeu. “Cara, eu estou ficando preocupado, a gente sabe como é o Ricardo, ele tem uma verdadeira fixação pela rotina, se aferra a ela com as duas mãos e não tem quem mude”, lembrou Marcelo, tentando compreender o que havia de diferente naquele dia. O amigo teve certa generosidade no comentário. A verdade é que Ricardo era o tipo de pessoa extremamente previsível. Daquelas que você pergunta algo já sabendo a resposta. Uma certa previsibilidade que, longe de torná-lo alguém desinteressante, conferia certa coesão ao grupo, espécie de âncora num mundo volátil e cada vez mais dinâmico.

“Agora que você falou, é verdade, ele andava meio estranho ultimamente”, lembrou Marcelo. “Andava esses dias com um olhar perdido, como quem matuta algo”, disse. “Caralho, não viaja, porra!”, irritou-se Danilo, “agora vocês vão ficar aí falando merda, cacete?”. Transmitia um nervosismo que parecia mais apreensão do que propriamente raiva. Um silêncio sepulcral então tomou conta do lugar, sendo quebrado apenas pelo ponteiro do relógio. No escuro da cozinha, eles se entreolhavam de soslaio, tentando ler os pensamentos um do outro. Teria acontecido algo com Ricardo? Um acidente talvez, teria que ser uma coisa bem grave que o desviasse de sua rota previamente traçada e repetida dia após dia de forma metódica.

“Não tô com um bom pressentimento”, suspirou Flavinha. “Tenta ligar no celular dele”. “Já tô tentando, só dá caixa”. Ao lado do bolo, o retrato de Ricardo observava a cena na penumbra, iluminado pela metade com um feixe de luz vindo da rua. O olhar vazio no horizonte, o cabelo de um castanho escuro sem um corte definido e a camisa azul traçavam um perfil de alguém normal, previsível como qualquer outra. Alguém que olhasse para a foto já poderia pressupor a personalidade de Ricardo. Centrado, até certo ponto sério, sem chegar a ser sisudo, porém. Enfim, um rapaz formado de meios termos. Não que alguém achasse isso um defeito, pelo contrário, mas acostumaram-se com ele assim.

“E se ele viajou, resolveu fugir de casa, sei lá, já que tava estranho desse jeito…”, disse Marcelo, rompendo mais uma vez o silêncio e provocando verdadeiros gritos de indignação. “Não fala merda, o Ricardo nunca faria algo assim, até parece que você não conhece ele”, explodiu mais uma vez Danilo. Sim, conhecia, até demais. Cresceram juntos naquela rua, compartilhando sonhos, dificuldades e tudo o mais o que acompanha o crescimento de alguém. “Bom, não eram vocês que sempre diziam que ele precisava sair da rotina, fazer algo diferente? Taí, hoje pelo jeito ele resolver fazer isso”, desabafou Flavinha, num tom claramente provocativo. “Se ele fugiu, despirocou, algo assim, deve ter deixado alguma mensagem, bilhete, sei lá”, continuou. Ligaram a luz e puseram-se a procurar o que seria uma carta de despedida.

Reviraram todos os cômodos e nada encontraram. Começaram a perceber que eles mesmos aferraram-se à rotina e suas comodidades, o que justamente reclamavam de Ricardo. Quando um elemento dessa rotina se rompe, quando o incerto toma lugar do previsível, a insegurança invade o que seria a zona de conforto. “É inútil, não tem nada aqui”, falou num tom desanimado e contrariado Marcelo.

Flavinha tomou à frente. “Galera, ele não vem mais, vamos aceitar”. Aos poucos, a apreensão foi dando lugar à conformação. O elo entre eles, o porto seguro, o cara previsível, não mais viria e era necessário aceitar esse fato. Recolheram o bolo e as velas, arrumaram tudo como antes e bateram a porta. Talvez nunca mais apareça, tenha resolvido mudar de vida e comprou uma passagem pra algum lugar inóspito e inalcançável.

Ricardo, enfim, não voltou para casa. Naquele momento, era tudo o precisavam saber e era tudo o que mais temiam.

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