O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

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Agridoce

Acordei naquela calçada com um gosto amargo na boca. Não, não é uma metáfora, entende? A saliva grossa trazia um sabor amargo típico de ressaca. As pernas doíam e o pescoço estava endurecido pelo mau jeito. Também, pudera, havia dormido praticamente sentado na marquise daquele prédio. Levantei dali cambaleando, ajeitando o velho casaco verde musgo, estilo militar. Bati a poeira da calça abrigo preta que cobria metade do tênis adidas cinza, e fiquei um tempo em pé ali, tentando lembrar o que sonhara naquelas poucas horas. Tentava me concentrar mas era difícil, por que não lembramos dos nossos sonhos quando acordamos? Aquilo realmente me deixava puto, era como se a gente perdesse algo que sabia que estava por ali, mas que não conseguia encontrar. Imagens aleatórias sem sequência ou sentido iam e viam. Um balão vermelho cintilante rasgando um céu azul, um céu realmente bonito, desses de cartão postal, o balão subia, subia e chegava até bem perto do sol e se transformava numa grande bola de fogo. Desde criança sonho com balões, e eles caem, furam, desaparecem, mas acho que era a primeira vez que o via queimar.

Era o meu terceiro dia. O aviso de despejo que o oficial de Justiça trouxe ainda estava pregado na porta do apartamento, por isso resolvi ficar por ali mesmo, como se algo me ligasse àquele lugar. Sabe aquelas histórias de quando alguém morre e o espírito ainda tem uma conexão com corpo, e por isso fica preso a este mundo? Os monges tibetanos queimam os mortos para deixar o espírito partir livre ao seu destino. Por isso havia resolvido atear fogo naquele prédio, mas acabei desistindo, mais pelo trabalho que isso daria, na verdade, embora a imagem daquele velho edifício se consumindo em chamas pudesse me trazer algum tipo de satisfação. Como o balão.

Sei que logo vou perder a noção do tempo, mas por enquanto este é o terceiro dia. Meus cabelos estão ensebados e a pele oleosa por causa do calor, mas isso não me incomoda muito. Levanto então e o estômago se contorce, fazendo barulho. Fome. Não sei qual a última vez que comi. A única coisa que engoli ontem foi um terço de uma garrafa de aguardente que uma travesti me trouxe. Ela chegou, perguntou se eu aceitava, claro, respondi, daí ela se sentou do meu lado, passou a garrafa e pôs-se a falar, falar. Não lembro muito bem o que dizia, mas tinha algo a ver com um cara que fazia programa com ela pouco antes e que não queria pagar o que ela exigia, e houve uma briga ou algo assim. Tomava aos goles a garrafa enquanto fingia que prestava atenção e respondia com grunhidos e monossílabos, enfim, ela deve ter pegado a garrafa de volta quando dormi, pois não achei mais ela.

O porteiro não me cumprimenta mais. Passo por ele e ele vira o rosto, disfarça, com uma cara meio constrangida. Embora o lugar seja o mesmo no qual vivo há cinco anos mais ou menos, é como se estivesse habitando um outro mundo, como se fosse um fantasma em que a maioria não pudesse enxergar, que alguns sentem medo e que os únicos a te perceberem ali são os outros fantasmas. As putas, travecos, e os noias fedendo a mijo e suor. Mas esses só andam por ali à noite e já era dia, o sol queimava a pele e o estômago retorcia. O gosto amargo já ia embora junto com a saliva que secava. Fico um pouco tonto, preciso muito comer. Qualquer coisa.

Um homem se aproxima do outro lado do quarteirão. Camisa da seleção, verde e amarela, duas listras pintadas no rosto, um pouco gordo de bochechas rosadas e óculos escuros rayban. Ele me vê, sei que me viu, porque seus passos ficam um pouco hesitantes. Ele é dos que conseguem me ver e sentem medo. Me aproximo, ele desvia o passo pro outro lado, mas eu o sigo. Bom dia, tudo bem, digo, tentando parecer simpático, mas ele olha pra mim com olhos de pavor. O senhor me desculpe viu, mas estou com fome, será que não tem uns trocados pra eu comprar algo, pergunto, com um tom de voz quase infantil, tentando engolir o constrangimento, porque ainda sentia vergonha daquilo, é algo que não superei ainda, mas que já me disseram que passa com o tempo, que era normal nos primeiros dias. Ele não responde e aperta o passo. Moço, moço, repito, e nada. Corro por trás dele então, o agarro pela camisa e, rodando, o jogo com força contra o muro. O rayban dele se quebra e corta o supercílio encharcando o rosto de sangue. Aproveito pra enfiar a mão no bolso de trás da sua bermuda e pegar a carteira. Cadê a porra do celular, grito, passa o celular ou te mato aqui mesmo. Ele me entrega seu iphone, tremendo. Melhor vazar daqui, algumas pessoas já olham pra cá, estou dando muita bandeira, embora ninguém faça nada.

Tento primeiro andar, a passos rápidos, tentando fingir normalidade. Mas percebo uma certa movimentação por ali. Pega, pega, escuto, é a polícia, polícia, ele está ali ó. Corro. Esbarro numa senhora de andador, que grita, mas porra, tonto que estou não consigo dar um pique. Um baque, um estrondo forte, caio. Meu rosto raspa o chão da calçada e a minha boca fica molhada e doce. Vejo algumas pessoas se amontoando a minha volta, mas só observo, entre eles o reflexo do sol projetado no prédio espelhado, esperando passar por ali um balão.

Ao fundo, sons de fogos de artifício me fazem sorrir, mesmo sabendo que não eram pra mim.

Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.

Um homem bom

Chegou apressado na repartição, bateu o ponto de forma atabalhoada e correu pra sua mesa. Estava 15 minutos atrasado e aquilo o perturbava. Não se lembrava da última vez que se atrasara nos vinte anos de serviço ali.  Estava pálido, mais que o normal, e o suor lhe escorria aos borbotões das têmporas, do pescoço, das axilas.

_Tá tudo bem Geraldo?_ Perguntou o chefe, demonstrando uma preocupação protocolar. _Claro, seu Almeida, tudo sob controle_ respondeu, esbaforido, enquanto ajeitava a papelada sobre a mesa_ só um pequeno contratempo no caminho, nada demais.

Colocou a mão sobre o abdome, inspirou profundamente e se concentrou na papelada. Não podia decepcionar seu Almeida. Não podia deixar que os colegas pensassem que era relapso ou omisso. Era preciso atender as expectativas, ainda que elas não fossem lá grandes coisas. Como sempre em sua vida.

Após uma hora, mais ou menos, conseguiu minimamente se secar, aparentando uma certa normalidade. Contudo, ofegava ainda e permanecia pálido. A hora do almoço se aproximava e os funcionários, como de hábito, postavam-se em frente ao relógio fazendo uma contagem regressiva mental.

_Não vai almoçar não, Geraldo?

_Estou sem fome, depois eu como um lanche, tenho algumas coisas atrasadas aqui.

Os colegas, ao se afastarem, comentavam. “Que diabos ele tem?” “Pelo jeito, é crise em casa.” ‘Nessa idade aí, não deve estar mais dando no couro e a patroa já partiu pra assistência.” “Cala a boca, não fala merda, conheço a mulher de Geraldo, vai à igreja todos os domingos.” “E isso lá significa alguma coisa?”. A polêmica durou exatos três minutos, inconclusa, já que ninguém tinha intimidade suficiente para questionar diretamente Geraldo.

Isolado em sua mesa, Geraldo cabisbaixo aguardava os minutos e as horas passarem. No interior daquela repartição, o tempo se arrastava como se os ponteiros do relógio estivessem congelados. Embora estivesse estranho aquele dia, não deixava de sorrir, complacente, e tentar parecer solícito. Precisava agradar a todos. Tinha essa necessidade. A simples ideia de contrariar quem quer que fosse lhe causava pânico, taquicardia, independente da hierarquia, do chefe à faxineira. Se lhe perguntassem alguma opinião sobre política ou futebol, tratava de analisar o inquiridor e respondia exatamente aquilo que achava que se esperava ouvir. Era capaz de dar uma resposta diametralmente oposto minutos depois a outra pessoa.

Prestes a bater seis da tarde, novamente o relógio era assistido pelos funcionários de bolsas e pastas em punho, prontos a arrancarem. Geraldo levantou-se vagarosamente, com a mão sob o abdome, e caminhou rumo à porta. Agora, mancava, mas apertou o passo preocupado em se atrasar para o jantar e iniciar uma discussão com a mulher. Algo que, evidentemente, o apavorava. Pegou o coletivo e saltou no ponto a duas quadras de casa, com passos desajeitados tentando compensar a dessincronização das pernas.

_Tudo bem, querido, como foi seu dia? Está mancando… Está tudo bem Geraldo?

_Sim, não foi nada não, logo passa, respondeu, não sendo mais questionado.

Sentou-se e comeu mecanicamente a janta, tentando transparecer o máximo de normalidade possível. Trocaram meia dúzia de palavras sobre o clima, o preço do supermercado e a filha da vizinha pega fumando maconha, de novo. Geraldo só suspirou, levantou-se e lavou a louça.

_Bom, vou deitar, hoje foi um dia duro e não posso me atrasar amanhã_ disse à esposa, que assistia a novela deitada no sofá.

(…)

A mulher acordou ao som do despertador. Virou-se para o lado e chamou o marido, encostando a mão em seu ombro. “Geraldo, você vai perder a hora, acorda”, disse sonolenta. Nada. Chacoalhou o companheiro, que permanecia inerte. Acendeu a luz do abajour e virou Geraldo de barriga pra cima, colocando a mão na boca pra conter um grito de terror. Geraldo, de olhos semiabertos, não mais respirava. Ergueu a mão que desde o dia anterior o marido recobria o abdome e encontrou uma mancha de sangue. Levantou a camisa e viu um corte profundo.

Em meio à perplexidade daquela cena, percebeu que Geraldo havia sido esfaqueado. Nunca se soube por quem ou em quais circunstâncias, num segredo que Geraldo levou junto a sua bondosa solicitude.

VOCÊ

(ode ao fracasso)

Você é minha papoula, eu dizia. Você é minha cocaína, devolvia. Você é minha marijuana, falava. Você é meu LSD, respondia. Você é minha alegria, exclamava. Você é minha felicidade, arriscava. Você é meu desejo, declarava. Você é minha paixão, retorquia. Você é meu amor, romantizava. Você é meu marido, constatava. Você é minha vida, exagerava. Você é meu tudo, competia. Você é meu alicerce, confessava. Você é meu lar, argumentava. Você é minha dúvida, mandava. Você é meu tédio, se vingava. Você é minha frustração, atacava. Você é minha dor, defendia-se. Você é meu problema, terminava. Você é meu fardo, exasperava. Você é minha página virada, dizia. Você é minha lembrança, respondia.

Você é a minha saudade, pensava. E ninguém respondia.

Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Temos aqui então um protagonista. Não tão jovem, mas também não tão velho. Um rosto da multidão a procura de algo que não sabe exatamente o que é.

Não percebera o quanto esfriara aquela noite. Como sempre, estava desprevenido, com um jeans e apenas uma camiseta leve. Tão logo chegou à calçada, sentiu a cada vez mais rara garoa pousar-lhe na face. Mas nada que o incomodasse demais. Na verdade, gostava da garoa fina, do frio intenso que, mais hora menos hora, tomava a cidade. Nem mesmo reclamava do vento cortante que sibilava e fazia arder a orelha. 

Cultivava uma verdadeira paixão pelo aspecto noturno da metrópole. Os pontos cintilantes ao fundo traçavam um quadro lúdico da pequenez humana diante da grandiosidade do mundo, gostava de filosofar. Até mesmo a tão característica solidão experimentada no meio da massa urbana, aquele processo de isolamento coletivo, era-lhe de certo modo agradável. 

Sim, amava tudo aquilo.

A cidade e seus personagens noturnos. As prostitutas decrépitas na esquina. O traficante mequetrefe oferecendo uma pedra. O andarilho sem rumo. O bêbado, trôpego, expulso do último boteco aberto. Estava diante de uma verdadeira enciclopédia humana, um conjunto fabuloso de histórias, trajetórias que, fossem cuidadosamente coletadas e analisadas, renderiam teses e descobertas psíquicas, psicológicas, sociais e antropológicas. Talvez o segredo do mundo estivesse ali. Na noite fria e escura de São Paulo. 

Pausa. Expectativa.

“Ei moço, me vê um cigarro, por favor”. A voz o despertara bruscamente das divagações que a megalópole suscitava. Olhou para o lado tentando distinguir o autor daquele pedido. Achou tratar-se de um mendigo, mas viu que não se parecia com um. Era um homem normal, até um pouco parecido com nosso protagonista. Cabelos pretos, curtos, barba feita, alto, enfim, poderia ser muito bem um colega da firma. “Me desculpa meu chapa, mas não fumo”, respondeu, tentando ser gentil diante daquela negativa.  

O homem, porém, pareceu contrariado. “Estou aqui te pedindo apenas um cigarro, com toda gentileza e educação, não esperava ser tratado com tamanha deselegância”, disse o homem enquanto coçava o queixo de forma enigmática. A voz ganhava um tom grave e ameaçador.  Nosso personagem divagador tentou se desvencilhar daquela situação incômoda, mas aquela estranha figura obstacularizava-lhe o caminho. O jeito era apelar para a diplomacia:

“Olha amigo, como eu já te disse, não tenho nada”, disse ao homem, forçando uma aparente calma, mas não conseguindo esconder um certo nervosismo. “Se eu tivesse certamente não te negaria”, falou ainda, esboçando um sorriso amarelo.

Pausa. As luzes se apagam. Vazio.

Abriu os olhos com dificuldades quando levantou a cabeça do chão. Sentia um gosto metálico na boca. De bruços, viu uma poça vermelha se formar ao seu redor. Tentou se levantar, mas uma pressão violenta no abdômen o fez retornar rapidamente ao solo. Olhou para cima e pôde ver o homem com um semblante transtornado. As veias do pescoço e da fronte saltavam, os olhos injetados se tingiam de vermelho e a boca entreaberta cuspia durante os berros.

“Como você ousa negar um cigarro a Deus, seu filho da puta? Verme imprestável, vai arder no fogo do inferno!”, vociferava o nosso estranho antagonista enquanto desferia chutes e golpeava o nosso personagem com selvageria. “Herege filho da puta! Filisteu!”, berrava,  e então dizia: “Eu sou Deus! Ouviu bem? Deus!”. Tentava se encolher para amenizar o impacto dos golpes, mas não conseguia. Pôde ouvir o estalido de uma costela partindo, em um rompante lancinante de dor.

Silêncio. Alívio.

Percebeu que os golpes terminaram quando seu algoz levou a mão ao ventre, arfando. Estava exausto. “Tomanocú”, disse, cuspindo em sua direção antes de se erguer, alisar calmamente a camisa e aparar os fios rebeldes da cabeça que se desalinharam com a sucessão de movimentos bruscos. Saiu então caminhando, onipotente, desaparecendo entre as ruas escuras como se nada houvesse ocorrido.

Do chão, gemendo, nosso protagonista mal conseguia abrir os olhos. Mas conseguiu notar quando uma senhora se aproximou com um pequeno lenço branco para enxugar-lhe o rosto. Entre o turbilhão de ódio, espanto e dor, aquilo realmente comoveu-lhe. Incrível. Do meio da selva de pedra de violência e barbárie, a megalópole esconde seus traços sutis, gentis, humanos, filosofou, mesmo sabendo que aquilo soara como um guia picareta de auto-ajuda de última categoria. Não importa. Quem disse que não existe amor em SP?