Crítica

Acordou atordoado, apertou os olhos e tentou identificar aquele lugar. A consistência da madeira salpicada pela poeira fez-lhe perceber que estava no chão. Aos poucos, sua visão ia desanuviando, enquanto observava ao redor tentando se localizar. Apesar da escuridão, podia ver dezenas, quem sabe centenas de velhos livros amontoados pelos cantos. Mas o pouco que pôde ver já lhe dava a certeza que não conhecia aquele lugar abafado e cheirando a mofo. Tomou um longo inspiro e tentou se levantar, mas sentiu uma dor aguda no topo da cabeça. Passou a mão e sentiu um molhado quente. Sangue. Mesmo cambaleante, levantou-se, mas, quando foi dar o primeiro passo, sua perna esquerda ficou. Estava acorrentada.

Foi entrando em pânico. Que diabos era aquilo? Um sequestro? Mas nem rico era, muito longe disso. Parentes abastados, tampouco tinha. Tentou se controlar, sentou-se e pôs-se a raciocinar. Fora sequestrado, isso é fato, mas por quê? Não possuía inimigos declarados, pelo menos não que se lembrasse, muito menos amantes ressentidas. Sua vida sempre fora pacata, até mesmo entediante para dizer o menos. Sempre carregado pela onda do acaso, como descreveu uma vez ao psicanalista, dando asas a uma verve poética muito pouco explorada. Isso porque sempre preferiu a prosa. Pensava em prosa. A única centelha de brilhantismo na vida, inclusive, havia sido o primeiro e único livro publicado há quase cinco anos. ”Metáfora literal”. Sim, título não era seu forte, mas o livro fez relativo sucesso. Despontou como grande promessa literária, o nome que iria sacudir a mesmice reinante num meio dominado por panelinhas e sucessos hereditários. Pelo menos foi isso que leu numa crítica de jornal, devidamente recortada e emoldurada com pompa na parede do quarto e… Isso! descobrira o mistério! Por certo seu sequestrador o conhece e pensa que aquele livro o deixara rico e…

O estampido da porta ressoou forte no quarto abafado. A luz que entrou o cegou por uns instantes, mas pôde ver a silhueta de um homem, um homem alto e corpulento, que entrou sem dizer nada, puxou uma cadeira do canto e sentou-se ao seu lado. Usava uma touca ninja recobrindo o rosto, uma camiseta de cor indefinida na qual despontava dois braços grossos como toras, e uma calça que parecia ser um jeans surrado, mas não podia ter certeza. Ficaram alguns instantes se encarando, antes que alguém decidisse começar algum diálogo.

_Olha, se você pensa que eu tenho dinheiro ou algo assim, sinto dizer que está enganado, o pouco que ganhei com aquele livro já foi pro ralo há muito tempo.

O homem permanecia imóvel, calado, encarando-o. Podia ouvir sua respiração meio ofegante.

_Você não vai conseguir nenhum dinheiro com isso, cara, tô te dizendo.

Silêncio. Percebeu que era inútil tentar falar e simplesmente esperou que seu improvável anfitrião se pronunciasse, o que realmente aconteceu após alguns longos minutos.

_Não entendeu mesmo o que está acontecendo aqui, não é mesmo?

A voz era rouca, metálica, quase inumana. Mas não parecia hostil nem raivosa, o que o tranquilizou um pouco, o que era possível tranquilizar diante daquela situação. Esperou que seu interlocutor continuasse.

_Eu te conheço. Li seu livro. Ele mudou a minha vida. Você é um gênio.

_Bom, essa não é uma forma muito comum de demonstrar admiração, não é mesmo?

_Você se engana. No final disso tudo, vai me agradecer.

O diálogo surrealista deu uma nova pausa. Ambos se entreolhando no escuro do quarto abafado. O jovem escritor de um só livro e aquele seu admirador misterioso e ameaçador, como são todos os admiradores na verdade.

_Encontrei seu livro num dia em que planejava dar cabo da minha vida. Algo como um milagre, por acaso. Caminhava pela rua pensando como deveria fazer e dei de cara com ele numa vitrine de livraria. Sem saber exatamente por que, fui lá e comprei, sentei numa praça e o li de uma só vez. Quando terminei já estava ficando escuro, e eu era outra pessoa, percebe o que é isso?

Escutava apenas, esperando o momento em que acordaria daquele pesadelo. Nunca ninguém havia dito aquilo, e seu ego, em situações normais, deleitar-se-ia, assim mesmo com mesóclise, com tão elogiosa declaração. Mas naquele momento só conseguia sentir medo. Certo, uma vaidade pode ter despontado ali, já que, diabos, era um escritor afinal, mas, sobretudo medo.

_Depois disso, estudei você. Vasculhei sua vida e passei esses anos todos te seguindo, analisando cada passo que você dava mas, principalmente, esperando sua próxima obra, que não veio.

Essa última parte saiu com um leve tom de desaprovação e decepção, seguido por um suspiro forte que o fez estremecer.

_Olha, cara, eu te entendo, realmente te entendo. Mas se você me estudou mesmo como diz, sabe que eu não criei mais nada depois daquilo. Deve saber ainda que tentei, eu tentei cara, pra caralho. Mas simplesmente não saiu mais nada. Bloqueei, já era.

O homem balançou a cabeça por debaixo da touca, bufando.

_Eu sei disso, e essa é a razão por você estar aqui, vou te ajudar?

_Meu amigo, você não entendeu. Eu não sou capaz mais de criar nada. Já desisti dessa vida. Claro, no começo fiquei desesperado, angustiado mesmo, pensei também em acabar com tudo, como você. Mas percebi que existem outras coisas na vida. Tua salvação estava num livro, a minha, estava fora dele, percebe?

_Você só precisa de um estímulo, uma razão para escrever, e eu vou te ajudar.

O homem se levantou fazendo ranger o piso de madeira, virou-se de costas, abriu uma gaveta e retirou um objeto que não pôde identificar, e sentou-se novamente com o objeto nas mãos.

_O que vai acontecer é o seguinte. Ali do seu lado tem um computador, sem Internet ou qualquer tipo de comunicação externa, evidentemente. Você vai escrever uma obra em uma semana. Se não…

Levantou o objeto que retirara da gaveta e seu temor se revelava fundado. Uma arma.

_Você está completamente louco! Eu não escrevo nada há anos e você quer que eu escreva um livro inteiro em sete dias! Isso é loucura!

_Como eu te disse, estou apenas te ajudando. Você precisa de um estímulo, uma razão para escrever. Não há razão melhor que a própria vida, não? Você é um gênio e é minha responsabilidade não deixar que o mundo abra mão disso.

_Você está louco! Louco!

Gritava, desesperado, com todas as forças, enquanto observava o homem se levantar calmamente e sair do quarto. Ao final, estava exausto. As gotas de suor escorriam pelo rosto e caíam no chão se misturando à poeira do piso. Recobrou as forças e recomeçou a gritar, até perceber que ninguém o escutaria.

(…)

Espancava as teclas do teclado enfurecidamente tal qual um Kerouac movido a benzedrina. Mais magro, alimentava-se mal com o pão diário fornecido por seu algoz e praticamente não dormia envolvido com sua obra urgente. Sem ideia original, apostou naquilo no qual apostam todos os escritores  em crise criativa: uma narrativa autobiográfica, o velho truque metalinguístico. Mas, enfim, chegava à conclusão que, talvez, o homem misterioso estivesse certo. A gravidade da situação o fizera a ganhar, aos poucos na penumbra daquele espaço claustrofóbico, um ânimo que há muito não sentia. Os dedos moviam-se quase que por vontade própria e as frases iam simplesmente deslizando linha por linha, sem o menor esforço. Enquanto isso, a obra tomava corpo, suas estruturas iam crescendo e se solidificando como um edifício, uma torre forte e viril.

Ao fim e a cabo dos sete dias, fraco e absolutamente extenuado, gritou e urrou ao colocar o ponto final em sua obra. O grande escritor voltara! As ninfas traziam de volta sua generosidade àquele farrapo humano para que voltasse triunfante ao Olimpo da literatura. Estava nada menos que extasiado quando finalmente mandou imprimir as páginas na impressora portátil instalada ao lado do computador. Observou cada folha saindo como um pai observa o nascimento de um filho, velando aquela criatura que trazia sua vida de volta, literalmente e metaforicamente falando.

Poucos segundos após a última folha ter sido impressa, o homem mascarado abriu a porta do quarto. Sem dizer nada, sentou-se na cadeira em frente ao computador, desocupada pelo escritor, e pôs-se a ler as páginas recém-paridas. O jovem, mesmo calado, não conseguia esconder a excitação, e roía as unhas, tentando controlar as pernas que teimavam em balançar.

Após terminar a última página, o homem se levantou e postou-se à frente do escritor que, ansioso, esperava odes ao seu talento. Mas ao invés disso, houve silêncio por alguns minutos que transformaram a excitação numa aguda e angustiante ansiedade.

O homem sacou então a arma e atirou na cabeça do jovem escritor.

_Tá uma merda.

Anúncios

Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.

Enquanto eles dormem

Vamos fazer um jogo, ela disse, sentando-se do meu lado e cruzando as pernas, como costumava fazer quando se sentava no chão. O vestido amarelo coberto por pequenas flores – ou seriam cerejas? – vermelhas, deixando transparecer as canelas finas. Mas não escondia as curvas cada vez mais sinuosas que anunciavam seu tempo de mulher. O cheiro de alfazema – seria mesmo alfazema? – escapava de seu cabelo molhado e inundava o quarto escuro. Lá fora, todos dormiam.

Que jogo, respondi desconfiado, hesitando, esperando mais algumas de suas brincadeiras em que, invariavelmente, eu caía. Ela se aproximou mais ainda, a ponto de alguns fios de seus cabelos, longos cabelos negros, tocarem meu rosto. A ponto de poder sentir seu hálito quente e a sua respiração, a temperatura de seu rosto aumentando. Ficou parada na minha frente, olhando, perscrutando meu rosto como se o visse pela primeira vez. Notando com curiosidade e percorrendo cada traço dos meus olhos, nariz e boca.

Você vai ter que fechar os olhos, e não vai poder abrir aconteça o que acontecer – falou com decisão, de forma dura, fingindo uma severidade caricata. Continuava desconfiado, claro, tentando imaginar qual era a peça desta feita. Fiquei sentado no chão, apoiado na cama pensando em várias hipóteses do que ela poderia fazer. Me trancaria aqui de novo, como aquela vez, alguns anos atrás, em que nossos pais conversavam e fumavam no jardim, e que passei quase meia hora – ou teriam sido poucos minutos? –  aos berros, desesperado, tentando sair? Não tínhamos mais idade, pensei, e aquilo lhe valeu um mês de castigo, deve ter aprendido a lição. – Vamos lá, seu medroso – insistiu, apelando desta vez ao meu brio, tentando me desestabilizar, e conseguindo, como sempre conseguia.

Não respondi, apenas fechei os olhos e tentei me manter alerta, preparado para qualquer troça que pudesse ser vítima. A expectativa fez acelerar meu coração e minhas mão ficaram frias, como quando das provas de final de semestre. No escuro do quarto, apenas se ouvia, ao fundo, o ruído dos poucos carros que ainda passavam na rua de trás. Senti o hálito quente se aproximando e os fios molhados de seu cabelo tocando cada vez mais meu rosto, e, naqueles poucos segundos, todas as hipóteses aventadas na minha cabeça se esvaíram, junto ao medo – seria aquilo medo? – de alguma traquinagem infantil. Os batimentos cardíacos, porém, não arrefeceram e se aceleram, produzindo um fino fio de suor que escorregava pela minha têmpora direita.

Senti sua boca tocando a minha, o lábio levemente roçando e contornando o meu, antes de finalmente se encaixar num só movimento, o que fez que o entreabrisse, numa posição estática de consternação – ou seria simplesmente espanto? – antes dela pressioná-lo mais fortemente e colocar sua mão na minha nuca – mão macia como nunca havia reparado – alisando-o e fazendo com que todos meus pelos do corpo se arrepiassem como se uma corrente elétrica me atravessasse. Não tive tempo de concatenar qualquer tipo de pensamento enquanto sua boca abria a minha, e senti a ponta de sua língua, úmida e áspera, tocar meu lábio e a própria língua, num movimento lento e suave, conquistando cada vez mais espaço e desbravando aqueles cantos e lugares recônditos.

Afastou-se então e percebi que havia algum tempo que não respirava, quando dei um suspiro profundo. Notei meu lábio molhado e imaginei, no escuro, que ela me fitava, sentia sua respiração calma e a temperatura da sua pele. Lá fora – haveria ainda um mundo lá fora, e os carros, as pessoas, a escola? – todos dormiam. E algo, dentro de mim, despertava.

Quando florescem os gerânios

Cheguei com um vaso de flores. Simples, pequenos gerânios vermelhos num vaso de barro, como as que ela costumava plantar em nosso jardim. De todas as lembranças da infância, a que me marca mais é de seu pequeno jardim florido. Eu, criança ainda, sujo de barro da cabeça aos pés a ajudando a cultivar os gerânios e margaridas do pequeno canteiro no quintal. Ela, tão grande, plantava com mãos cuidadosas as pequenas mudas que, algum tempo depois, começavam a florescer. “É mágica mãe?”. “Não, filho, é deus que faz crescer… A gente planta e deus lá em cima faz a flor crescer e desabrochar”. Quando chovia, o cheiro de terra molhada se misturava ao perfume e eu ficava na janela, inebriado com aquele aroma.

Mesmo adolescente, continuava a ajudá-la a plantar seus gerânios e margaridas. E a cheirar a terra quando chovia. Claro, nessa idade somos pegos por outras preocupações, mas mesmo no turbilhão de hormônios e ansiedade que nos atinge nessa fase da vida, nunca me esqueci de seu jardim. Era o nosso elo. Nosso pacto filial. E me comovia perceber o quanto aquele pequeno pedaço de terra era tão importante para ela. Mesmo quando o pai ficou desempregado, ou nossa vó morreu, ainda assim, abatida, muitas vezes aos prantos, ela continuava a regar seu jardim.

Quando saí de casa para a faculdade ela se jogou sobre mim aos prantos. Disse para ser forte, valente na vida. E que o nosso jardim estaria sempre ali pra quando voltasse. Depois, consegui emprego em outra cidade e fiz minha própria família. Mas morávamos num apartamento. O máximo que consegui cultivar foram algumas ervas num canto da cozinha. Ela, contudo, sempre mandava, por carta, uma foto de seu jardim, orgulhosa. Mesmo em tempos de email, Facebook e wathsapp, chegava aquela carta pelo Correio, com um bilhetinho e uma foto.

Até que as cartas cessaram.

Abri o portão, com o vaso nas mãos, e olhei o canteiro. O capim e os arbustos haviam tomado conta de tudo. Meu pai, com um aspecto cansado, alcançou-me no quintal. “Olha, filho, você precisa ser forte, não se deixe abater”, disse, com os olhos marejados e a mão no meu ombro. Abracei-o.

Quando entrei, a enfermeira sorriu pra mim e saiu, deixando-nos a sós. Aproximei-me e beijei sua testa. Vestia uma camisola azul e estava coberta por um lençol. Havia envelhecido muito desde a última a vez que a vira. Seus cabelos, já completamente encanecidos, pareciam mais secos e quebradiços, e sua pele já não tinha cor de antes. Tinha o olhar perdido no horizonte, o qual manteve mesmo com a minha presença. Sentei-me ao seu lado e peguei sua mão. “Olha mãe, que bonito, iguais aos que a senhora plantava, lembra?”. Ela virou a cabeça e olhou para o vaso, sem falar nada.

“Vitinho?”, ela disse, chamando-me pelo nome de meu tio, irmão dela. “Não mãe, sou seu filho”. Era a primeira vez, desde que diagnosticado o alzheimer, que ela não me reconhecia. Já vim preparado para aquela situação, ou pelo menos achava isso. Mas a pessoa que você mais ama e confia nessa vida não mais te reconhecer e te olhar como um estranho… Meus olhos se encheram de lágrimas, que tratei de conter rapidamente. O que nos define? Nossa personalidade, identidade e lembranças? Quem era então aquela pessoa deitada ali, que me olhava com desconfiança? Ainda seria minha mãe? Ou ela, na prática, já morrera com o avanço da doença?

“Você tá triste, Vitinho?”, ela perguntou com um fio de voz. “Não mãe, não tô não”. Ela então olhou para os gerânios que eu ainda segurava, fitou-os por um longo momento e exclamou: “São lindas! Lindas!”. “Sim, mãe, vou deixá-las aqui com a senhora”. Nada mais disse, ficando estática com o olhar perdido para além dos gerânios.

Enxuguei as lágrimas e deixei o vaso em cima do criado mudo. Havia um pouco dela ali ainda. Amanhã carpo o canteiro e chamo meu filho pra me ajudar a refazer o jardim. Ela vai ficar feliz.

‘Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio?’

_Não posso dizer que tenha realmente entendido o teu problema, rapaz_ Disse, enquanto encostava o estetoscópio frio em suas costas, provocando arrepios.

_É bem simples, doutor. Quer dizer, é estranho, muito estranho, mas ao mesmo tempo é simples_ respondeu, arqueando as costas a cada pontada de frio que recebia.

_Tente então me explicar novamente, mas seja mais claro, por favor… Quer dizer que você acordou hoje pela manhã e não era mais quem era? _ Percebeu que não seria necessário verificar sua respiração ou pulso e voltou o estetoscópio de volta ao pescoço.

_Isso, doutor, exatamente. Logo que abri os olhos percebi que havia algo errado. Não reconhecia minha cama, meu quarto… Levantei-me, procurei um espelho e, quando observei meu próprio reflexo nele, não me reconheci… Respirei fundo, achei que estava num pesadelo, mas quando vi que era real, que tudo aquilo estava acontecendo, entrei em pânico.

_Olha, filho, é normal que um dia ou outro acordemos nos sentindo um tanto estranhos… Isso é absolutamente normal, não quer dizer que esteja doente ou algo assim.

_Não doutor, o senhor não entendeu… Não estou falando em metáfora, estou sendo literal! Eu era outra pessoa!

Um momento de silêncio se fez então, como se os dois se analisassem mutuamente, tentando perscrutar a mente um do outro.

_Veja bem, rapaz_ Disse, apontando para uma caixa no canto da sala, que logo se podia ver se tratar de algum instrumento musical, com os cantos arredondados_ Sabe o que é aquilo? É uma guitarra elétrica dos meus tempos de adolescência. Tocava numa banda, acredita? Fazíamos cover de Ramones, Clash… Sabe qual era o meu sonho? Muitos sonham em se tonar médico, mas eu queria mesmo era tocar, ouvir os gritos das multidões, encenar aquela catarse coletiva todas as noites… _Dizia, enquanto a empolgação o fazia cerrar os punhos e brilhar os olhos_ Bom, e aqui estou eu. Em algum momento da vida, as responsabilidades falam mais alto, sabe? Quando me olho no espelho, com esse avental asseado, esses cabelos brancos, que já me faltam inclusive, esses óculos, mal me reconheço. Quase posso dizer a mim mesmo: ‘Quem diabos é você?’

_ Doutor, com todo o respeito, o senhor ainda não me entendeu. Não tenho nada contra a minha vida. Quer dizer, não posso dizer que seja uma vida de aventuras, emocionante e tudo mais. Mas também não posso me queixar. Trabalho numa corretora da Bolsa, ou trabalhava, já não sei mais… Mas enfim, tenho esposa, uma vida estável e até certo ponto feliz. Não tenho do que reclamar.

_ E quando acordou, hoje, quem você era?

_Alguém completamente diferente! Em cima do criado mudo havia uma carteirinha da OAB, então penso que seja advogado. A foto da identidade era a mesma que via no reflexo do espelho! Peguei o celular o disquei o número da minha esposa, quando tentei contar a ela o que estava acontecendo, que precisava de ajuda, ela desligou na minha cara. Liguei de novo e ela disse que iria chamar o marido e acionar a polícia. Não sei o que está acontecendo.

_É como aqueles filmes em que o homem troca de corpo com a mulher, e vice-versa?

_É pior, porque no caso eu não sei quem eu era, ou quem era o homem que agora sou! E mais, quem deve estar no meu lugar. Estou desesperado, não sei o que fazer! E, doutor, por favor, eu não estou louco. Sempre fui uma pessoa extremamente sensata e racional. Se estivesse desequilibrado, certamente eu saberia.

_Bom, filho, eu sinceramente não sei se posso te ajudar…_ Disse coçando a cabeça e ajeitando os óculos_ Nunca vi um caso parecido. A única coisa que poderia fazer é, talvez, encaminhá-lo a um neurologista pra fazer uma ressonância.

_Já lhe disse, doutor, não há nada de errado com a minha cabeça! Olha, eu sei que é difícil acreditar, na sua posição eu pensaria a mesma coisa. ‘Esse cara tá maluco’. Mas, por favor, acredite, eu estou no perfeito domínio das minhas faculdades mentais e o que lhe digo é a pura verdade.

_Difícil, difícil… Eu poderia te reter aqui por insanidade. Seria, inclusive, a coisa mais sensata a se fazer. Mas vou te propor uma coisa. Volte pra sua casa, a que você acordou hoje. Tome um banho quente, relaxe, e vá dormir. Se você acordar a mesma pessoa, me ligue e vemos o que fazer.

_Tudo bem doutor, obrigado. Sabe de uma coisa? Só de saber que há alguém me ajudando já me alivia…

_Cuide-se rapaz_ Disse, batendo nas costas do sujeito enquanto o levava à porta.

Ao fechar a porta, retornou à cadeira e apertou uma tecla do telefone. ‘Marlene? Está vendo esse rapaz que acabou de sair do meu consultório? Por favor, mande sedar e levar à psiquiatria’.

Levantou-se e abriu a caixa esquecida no canto, revelando uma Mosrite vermelha empoeirada. Apoiou-a no colo e tirou os acordes de Blitzkrieg Bop. Quem sabe amanhã não seria um astro do rock?

Segunda chance

Uma corrente elétrica percorreu seu corpo, fazendo o coração disparar. Por alguns instantes, paralisada, tentou entender como aquilo seria possível.

Como fazia todas as tardes, havia sentado no café a caminho de casa. Hábito de anos, era o momento raro de tranquilidade que aproveitava para ler o jornal que não conseguira ler de manhã e, principalmente, pensar na vida e se entregar a devaneios. Acomodou-se em seu lugar cativo e pediu um espresso, apesar do sufocante calor daquele verão. Pendurou a bolsa na cadeira, acomodou a pasta de trabalho na mesa e abriu a revista que pegara ali mesmo, mais para se distrair passando as páginas do que para ler mesmo. Com o café já na mesa, despejou uma pequena colher de açúcar e mexeu displicente, quando olhou para o lado, o que a fez imediatamente largar a colherinha.

Bem ao seu lado, paralela à mesa, uma jovem de cabelos negros e compridos também tomava um espresso. Havia espalhado seus livros por sobre a mesa e apoiava a cabeça na mão esquerda, enquanto levava a xícara à boca com a direita. Distraída, carregava um meio sorriso, tímido, como se sonhasse de olhos abertos, de modo que não percebeu a mulher que a espiava bem ao seu lado.

Como isso seria possível? Aquela menina era exatamente a sua imagem de anos atrás. Era como se olhasse um espelho e pudesse se ver refletida tal como era há 15 anos. Seu espanto foi maior quando, com o canto dos olhos, pôde reconhecer os livros do cursinho na mesa, o anel no dedo médio da mão direita, o esmalte branco. Não era simplesmente uma sósia de seus tempos de colégio. Era ela mesma, ali, ao seu lado, jovem. Lúcida e cética que era, desconfiou de alguma alucinação, talvez causada pelo calor. Tomou um gole de café, apertou os olhos com força e voltou a olhar para o lado. Ela continuava ali, mexendo seu espresso e sorrindo para o nada.

Alguma explicação racional haveria de ter. Uma fenda, um descompasso no tempo, ou coisa parecida? Certo é que, bem ao seu lado, estava ela mesma, jovem, e as pessoas ao redor nem desconfiavam da estranha situação que ali se passava. Pelas roupas, livros, e  o corte de cabelo, calculou que deveria estar com 18 anos ali. O sorriso incontido expressava o entusiasmo da época, os amores da juventude e os sonhos sonhados acordados nessa época da vida.

Já que não podia encontrar uma explicação, haveria ali uma oportunidade única. Algo que ninguém mais poderia ter e que, tantas vezes imaginara nos momentos de frustração. Pensou em chamar sua vizinha e dizer-lhe que o curso de Direito para o qual tanto estudava não daria certo. ‘Essa área não é pra você, mas se esforce para não acabar como uma corretora de imóveis frustrada’, diria. ‘Acredite em você mesma, não vá na conversa dos outros. Não se acomode para descobrir, mais tarde, que todos seus sonhos escorreram pelos dedos’.

Olhava-a enquanto recordações brotavam em sua mente e os olhos se enchiam de água. Dor e frustração sufocadas emergiam. ‘Daqui a pouco, seu coração vai se destroçar por causa de um idiota. Não se deixe abater. Você é maior que isso, você tem que saber quem é, aonde quer chegar. Não se leve tanto a sério, ninguém morre de amor. Não sofra o que não merece ser sofrido. Preste mais atenção nas pessoas que estão ao seu redor, e que você vai deixar ir embora’.

Surpreendeu-se ao repetir, em sua cabeça, frases como que saídas de um livro barato de auto-ajuda, algo que sempre teve repugnância, mesmo nos tempos de adolescência. Mas este seria, literalmente, uma auto-ajuda. Um manual de instruções para que não repetisse os mesmos erros.

Lembrou-se da mãe, que morreria quando tinha 20 anos e cuja culpa a perseguiu por anos a fio. ‘Daqui a pouco, sua mãe vai ficar muito doente. Ela vai morrer. E você, só depois de muitos anos, vai entender e perceber que não teve culpa de nada. É normal essas relações difíceis com os pais nessa idade, não carregue isso nas costas’.

Poderia, com a sabedoria forjada pelos próprios erros no decorrer desses anos, ditar a ela mesmo o caminho das pedras. Diria que ela não é o centro do mundo, que a vida não é tão complicada quanto queremos fazer parecer e que, na verdade, por mais que pudesse achar estranho ou inverossímil, a vida é leve, ou assim deveria ser.

Enxugou os olhos com o guardanapo, discretamente. Tocou de leve no ombro de sua vizinha, ‘desculpe, menina’. Ela levantou a cabeça, e fitou-a. Um momento de silêncio se estabeleceu, até que a mulher conseguiu finalmente esboçar algumas palavras. ‘Você pode me passar o açúcar, por favor?’. A garota sorriu e passou o potinho, voltando logo em seguida ao seu mundo de devaneios.

Ela voltou a olhar para a garota e percebeu que tudo o que diria seria egoísta. Estragar aquele belo momento de sonhos e expectativas, ainda que fadados ao fracasso, seria um crime imperdoável.