Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

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Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.

Um homem bom

Chegou apressado na repartição, bateu o ponto de forma atabalhoada e correu pra sua mesa. Estava 15 minutos atrasado e aquilo o perturbava. Não se lembrava da última vez que se atrasara nos vinte anos de serviço ali.  Estava pálido, mais que o normal, e o suor lhe escorria aos borbotões das têmporas, do pescoço, das axilas.

_Tá tudo bem Geraldo?_ Perguntou o chefe, demonstrando uma preocupação protocolar. _Claro, seu Almeida, tudo sob controle_ respondeu, esbaforido, enquanto ajeitava a papelada sobre a mesa_ só um pequeno contratempo no caminho, nada demais.

Colocou a mão sobre o abdome, inspirou profundamente e se concentrou na papelada. Não podia decepcionar seu Almeida. Não podia deixar que os colegas pensassem que era relapso ou omisso. Era preciso atender as expectativas, ainda que elas não fossem lá grandes coisas. Como sempre em sua vida.

Após uma hora, mais ou menos, conseguiu minimamente se secar, aparentando uma certa normalidade. Contudo, ofegava ainda e permanecia pálido. A hora do almoço se aproximava e os funcionários, como de hábito, postavam-se em frente ao relógio fazendo uma contagem regressiva mental.

_Não vai almoçar não, Geraldo?

_Estou sem fome, depois eu como um lanche, tenho algumas coisas atrasadas aqui.

Os colegas, ao se afastarem, comentavam. “Que diabos ele tem?” “Pelo jeito, é crise em casa.” ‘Nessa idade aí, não deve estar mais dando no couro e a patroa já partiu pra assistência.” “Cala a boca, não fala merda, conheço a mulher de Geraldo, vai à igreja todos os domingos.” “E isso lá significa alguma coisa?”. A polêmica durou exatos três minutos, inconclusa, já que ninguém tinha intimidade suficiente para questionar diretamente Geraldo.

Isolado em sua mesa, Geraldo cabisbaixo aguardava os minutos e as horas passarem. No interior daquela repartição, o tempo se arrastava como se os ponteiros do relógio estivessem congelados. Embora estivesse estranho aquele dia, não deixava de sorrir, complacente, e tentar parecer solícito. Precisava agradar a todos. Tinha essa necessidade. A simples ideia de contrariar quem quer que fosse lhe causava pânico, taquicardia, independente da hierarquia, do chefe à faxineira. Se lhe perguntassem alguma opinião sobre política ou futebol, tratava de analisar o inquiridor e respondia exatamente aquilo que achava que se esperava ouvir. Era capaz de dar uma resposta diametralmente oposto minutos depois a outra pessoa.

Prestes a bater seis da tarde, novamente o relógio era assistido pelos funcionários de bolsas e pastas em punho, prontos a arrancarem. Geraldo levantou-se vagarosamente, com a mão sob o abdome, e caminhou rumo à porta. Agora, mancava, mas apertou o passo preocupado em se atrasar para o jantar e iniciar uma discussão com a mulher. Algo que, evidentemente, o apavorava. Pegou o coletivo e saltou no ponto a duas quadras de casa, com passos desajeitados tentando compensar a dessincronização das pernas.

_Tudo bem, querido, como foi seu dia? Está mancando… Está tudo bem Geraldo?

_Sim, não foi nada não, logo passa, respondeu, não sendo mais questionado.

Sentou-se e comeu mecanicamente a janta, tentando transparecer o máximo de normalidade possível. Trocaram meia dúzia de palavras sobre o clima, o preço do supermercado e a filha da vizinha pega fumando maconha, de novo. Geraldo só suspirou, levantou-se e lavou a louça.

_Bom, vou deitar, hoje foi um dia duro e não posso me atrasar amanhã_ disse à esposa, que assistia a novela deitada no sofá.

(…)

A mulher acordou ao som do despertador. Virou-se para o lado e chamou o marido, encostando a mão em seu ombro. “Geraldo, você vai perder a hora, acorda”, disse sonolenta. Nada. Chacoalhou o companheiro, que permanecia inerte. Acendeu a luz do abajour e virou Geraldo de barriga pra cima, colocando a mão na boca pra conter um grito de terror. Geraldo, de olhos semiabertos, não mais respirava. Ergueu a mão que desde o dia anterior o marido recobria o abdome e encontrou uma mancha de sangue. Levantou a camisa e viu um corte profundo.

Em meio à perplexidade daquela cena, percebeu que Geraldo havia sido esfaqueado. Nunca se soube por quem ou em quais circunstâncias, num segredo que Geraldo levou junto a sua bondosa solicitude.

Vício

Tirou cuidadosamente o esparadrapo do dedo da mão direita. Alinhou o alfinete com a esquerda e introduziu, lentamente, sua ponta por debaixo da unha. A dor fina, aguda, veio acompanhada de um filete de sangue. Um estremecimento profundo emanou da mão para o braço, percorrendo todo o corpo. Chupou o sangue e recolocou o esparadrapo.

Já estava convencido. Havia se viciado na dor. Todos os dias, procurava alguma forma de provocar um novo impulso diferente dos nervos ao córtex e ao hipotálamo. A blusa cobria os cortes alinhados nos braços. As mesmas marcas que ostentava na parte superior das coxas. Como todo viciado, porém, precisava de mais.

A descoberta veio por acaso. O tênis apertado lhe machucava o pé direito a ponto de formar uma bolha. A princípio um pequeno incômodo, mas que poucos dias depois já se transformava numa ferida que manchava as meias de sangue. Percebeu, no entanto, que não tomara nenhuma providência não por desleixo, como pensava. Estranhou quando se deu conta que, na verdade, gostava daquela sensação.

Não era adepto de práticas sadomasoquistas, como alguns poderiam pensar. Tinha aversão a tudo aquilo. Seu prazer não era de forma alguma sexual. Era uma espécie de alívio físico, como coçar uma picada de mosquito. Mas dez, cem, vezes mais intenso. Sentia-se bem, vivo, aliviado com a dor. E não queria que parasse.

As feridas crescentes, porém, o preocupavam. Era obrigado agora a usar manga comprida no sol e calor do verão. E arrumar desculpas para os curativos nas mãos. Decidiu, enfim, procurar ajuda. Descobriu na Internet um grupo de pessoas que, como ele, eram viciadas em dor. Uma espécie de sofredores anônimos. Reuniam-se nas noites de quarta numa pequena sala nos fundos de uma igreja do centro da cidade.

Chegou ao local bem no horário da reunião, cálculo para evitar maiores constrangimentos. Todos já estavam acomodados, sentados em círculo nas modestas cadeiras de madeira. Teve pouco tempo para estudar as 15 pessoas que o cercavam, mas percebeu que alguns usavam terno. Outros vestiam apenas uma camisa social genérica, enquanto dois ou três trajavam camisetas surradas. Notou também algumas mulheres, talvez quatro, e um adolescente. As mulheres também diferiam entre si, uma idosa, outra na casa dos quarenta e as outras duas um pouco mais moças, bem parecidas entre si, talvez irmãs.

A primeira impressão é que estava diante de um grupo eclético, tanto em relação à faixa etária quanto a classe social. Compartilhavam, porém, uma estranha característica: pequenos curativos nos dedos e braços. Pelo menos um deles tinha hematomas bem visíveis no rosto.

Explicaram-lhe que, como de praxe, ele iniciaria a reunião com um depoimento pessoal. Tudo bem, respondeu.

_Boa noite a todos, meu nome é…

_Seja bem-vindo… Responderam num coro copioso.

Relatou de forma breve a sua angústia. Como estava naquele grupo, achou por bem carregar no drama e nas dificuldades que o vício lhe trouxera. Disse ainda ser aquilo uma aberração, que tinha vergonha de procurar um médico e o tacharem de louco. E, por fim, que esperava se livrar disso o quanto antes. Tentando parecer simpático, agradeceu a acolhida.

O homem que o recebera, um sujeito dos seus cinquenta anos, calvo, de camisa pólo azul e óculos de aro fino, levantou-se então e o tocou de forma gentil nos ombros.

_Meu filho, se você quiser parar com isso, lamento dizer que aqui não é o lugar – Pronunciava as palavras de forma calma e tranquila, enquanto falava de pé, ao seu lado.

_Como assim? Vocês não vão me ajudar? Por quê?

Transparecia certo transtorno e nervosismo, a tal ponto que gaguejava ou comia as sílabas, como costumava fazer quando nervoso.

_Vou te explicar, tenha calma. Quando os primeiros de nós começaram a se reunir, tínhamos esse objetivo de superar o nosso vício. Fizemos de tudo e, acredite meu rapaz, quando eu digo de tudo, quero dizer de tudo mesmo.

Ouvia aquilo em silêncio, mas com a expressão de contrariedade ainda marcada no rosto.

_Chegamos então à conclusão que a única coisa que podíamos fazer era aprender a nos aceitar como somos e viver da melhor forma com isso. Tentarmos não nos matar, por exemplo, enfim, administrar esse nosso vício.

_Mas isso é loucura! – explodiu, consternado – Isso não é normal, não podemos viver assim!

Todos assistiam àquela cena em silêncio, alguns até mexiam no celular, como se nada demais estivesse acontecendo. Como se já tivessem assistido muitas vezes e aquele tipo de reação fosse absolutamente previsível.

_Meu caro, e o que é normal? Nós gostamos da dor? Sim, gostamos. A buscamos todos os dias da nossa vida, pra aliviar algo que existe e pulsa dentro do peito? Sim, claro. Mas isso é diferente do que as outras pessoas fazem? Olhe as pessoas ao seu redor, no seu emprego ou na sua família. Você mesmo vai me dizer que nunca se envolveu com alguém sabendo que daria errado, que seria uma catástrofe, enfim, sabendo que iria, de alguma forma, sofrer?

Não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Mas também não conseguia articular palavras para responder ou argumentar do contrário. Apenas balançava a cabeça tentando demonstrar uma indignação inverossímil. Mais para si próprio, talvez, que para a plateia.

_Por que o drama, no cinema ou no teatro, faz sucesso? Por que as pessoas pagam pra sentir aquilo que seria, por definição, desagradável? Por que ouvimos música pra chorar? As pessoas ditas normais sentem a mesma coisa que nós aqui sentimos dentro do peito e todos buscam alguma catarse. A humanidade, meu rapaz, é viciada na dor.

Num rompante, levantou-se de forma brusca da cadeira e, sem dizer nada, caminhou em direção à porta. Ao sair notou a expressão irritante de normalidade do grupo. Pensou ter visto até uma das mulheres bocejando discretamente. Bando de malucos, pensou, antes de ganhar as ruas.

Na quarta-feira seguinte, foi um dos primeiros a chegar.

O fim

Caixas vazias e livros empoeirados jazem sobre a cama. Um velho Neruda entreaberto exibe algumas páginas amassadas. No ambiente, traços de antigos incensos queimados, amores despedaçados e uma miríade de lembranças evaporando no ar.

O cenário de terra devastada de uma guerra perdida. Quando tudo termina, o que resta é como Berlim após a Segunda Guerra. Sem os russos orgulhosos hasteando a bandeira no Reichastag, claro, pois aqui não há vencedores. Apenas escombros fumegantes e destroços. A reconstrução é difícil, penso, mas inevitável. Dure o que durar, os muros, as casas e os prédios se reerguerão, mais fortes. Mas até lá, só resta destruição.

Cada centímetro do quarto evoca um conjunto de memórias, boas ou ruins. Quem viver aqui vai sentir a mesma coisa que eu? Vai perceber os frêmitos de prazer e loucura nas noites intensas que tivemos? Conseguirá sentir a paz das tardes de domingo? A raiva e exasperação dos estertores da nossa história e, por fim, a nostalgia e o lamento? Besteira, penso, racional que sou. Quantas histórias já não devem ter passado por aqui, igualmente anônimas aos outros, e se desvaneceram por completo? Os pisos guardam seus segredos.

Contenho as lágrimas, ele já vai chegar. Vem pegar o que resta das suas coisas. Ouço ao longe seu Passat chegando, tomo rapidamente as chaves e saio do apartamento pela porta lateral, escorando-me rente ao corredor.

Ele chega a passos rápidos. Parece bem, um pouco mais envelhecido que da última vez. Talvez abatido. Ou teria sido eu que o enxergava diferente? Quando nos conhecemos dei pouca atenção àquele rapaz franzino que tentava me impressionar tirando Chico Buarque no violão. Fiz vistas grossas pra como ele desafinava, o que, na verdade, chegava a me comover. Tenho dessas coisas. Ou costumava ter.

Do corredor escuto barulhos de caixas e malas, e os passos de seu sapato, inconfundível. Alguns minutos se passam até ele sair do apartamento, fechando mecanicamente a porta e a trancando com um braço enquanto se equilibra para segurar as caixas em outra.O apeita aperta e a garganta fecha, mas eu seguro, resignada.

Ouço o motor do velho Passat ligando. Engasgava sempre antes da partida, até o barulho cessar por completo.

Entro novamente no quarto, vazio. Por sobre a cama ele deixou o Neruda entreaberto. Resolvo deixá-lo lá como está. Quem sabe os futuros amantes, pelo menos, possam aproveitar parte dessa nossa história que termina aqui.

VOCÊ

(ode ao fracasso)

Você é minha papoula, eu dizia. Você é minha cocaína, devolvia. Você é minha marijuana, falava. Você é meu LSD, respondia. Você é minha alegria, exclamava. Você é minha felicidade, arriscava. Você é meu desejo, declarava. Você é minha paixão, retorquia. Você é meu amor, romantizava. Você é meu marido, constatava. Você é minha vida, exagerava. Você é meu tudo, competia. Você é meu alicerce, confessava. Você é meu lar, argumentava. Você é minha dúvida, mandava. Você é meu tédio, se vingava. Você é minha frustração, atacava. Você é minha dor, defendia-se. Você é meu problema, terminava. Você é meu fardo, exasperava. Você é minha página virada, dizia. Você é minha lembrança, respondia.

Você é a minha saudade, pensava. E ninguém respondia.

Desnorteio

Uma enorme bolha tomava conta de seu peito, sufocando-a. Vinha sempre à noite, enchia-se como um balão de ar transplantado em sua caixa torácica, a comprimir suas vísceras dificultando a respiração. Arfava, sentia vontade de gritar, expelir todo aquele ar com um grito primal, cru, alto. Mas continha-se. Era isso o que sempre fazia. Era isso o que lhe ensinaram. Conter-se, reprimir tudo aquilo que guardava no peito. Aquilo que ficava maior e mais cheio a cada vez que andava na rua e ouvia impropérios, dos mais sórdidos. Aquilo que pesava um pouco a cada dia ao notar os olhares acusadores dos colegas e dos professores. Aquilo que ardia cada vez que seus pais faziam aquela cara de desaprovação, aquele ar de decepção que só os filhos podem identificar e sentir. Aquilo que doi, e que doía cada vez mais ao ligar a televisão e se ver refletida na tela como um pedaço de carne, e se perguntar, eu deveria ser assim? E perceber que não era, e que nunca seria. Seria sempre uma estranha. Em casa, na rua e na escola. E dentro de si mesma. E enquanto isso aquela bolha se inflava e sufocava. E não podia gritar, correr ou pedir ajuda. Ódio, tristeza e desprezo que se amalgamam num único desespero. Desnorteio. Estranhamento num mundo em que não se encaixava. E se encaixar para que? Para viver uma vida vazia, sem sentido, asséptico, guardada e exposta como numa prateleira de uma loja de departamento? Ou na sessão de frios, junto às outras carnes enfiadas no gelo e anunciadas como promoção. Só tinha certeza de uma coisa. Queria correr. Para onde? Qualquer lugar, simplesmente correr de tudo aquilo ali, escapar por um alçapão mágico que a faria sumir para sempre. Mas não tinha para onde. Não tinha como. E, para falar a verdade, não tinha forças para qualquer coisa assim. Estava extenuada, exaurida. Tinha claustrofobia do mundo e chorava no pequeno canto escuro do quarto, sozinha. Chorava no ônibus a caminho da escola, no banheiro do colégio. E ouvia os comentários e os buchichos. E o que poderia fazer? Fugir pra onde?

Tudo o que podia fazer era puxar a saia rente ao joelho, escondendo as marcas dos cortes da noite anterior e engolindo seco para não deixar aquela bolha escapar pela boca.