O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

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Crítica

Acordou atordoado, apertou os olhos e tentou identificar aquele lugar. A consistência da madeira salpicada pela poeira fez-lhe perceber que estava no chão. Aos poucos, sua visão ia desanuviando, enquanto observava ao redor tentando se localizar. Apesar da escuridão, podia ver dezenas, quem sabe centenas de velhos livros amontoados pelos cantos. Mas o pouco que pôde ver já lhe dava a certeza que não conhecia aquele lugar abafado e cheirando a mofo. Tomou um longo inspiro e tentou se levantar, mas sentiu uma dor aguda no topo da cabeça. Passou a mão e sentiu um molhado quente. Sangue. Mesmo cambaleante, levantou-se, mas, quando foi dar o primeiro passo, sua perna esquerda ficou. Estava acorrentada.

Foi entrando em pânico. Que diabos era aquilo? Um sequestro? Mas nem rico era, muito longe disso. Parentes abastados, tampouco tinha. Tentou se controlar, sentou-se e pôs-se a raciocinar. Fora sequestrado, isso é fato, mas por quê? Não possuía inimigos declarados, pelo menos não que se lembrasse, muito menos amantes ressentidas. Sua vida sempre fora pacata, até mesmo entediante para dizer o menos. Sempre carregado pela onda do acaso, como descreveu uma vez ao psicanalista, dando asas a uma verve poética muito pouco explorada. Isso porque sempre preferiu a prosa. Pensava em prosa. A única centelha de brilhantismo na vida, inclusive, havia sido o primeiro e único livro publicado há quase cinco anos. ”Metáfora literal”. Sim, título não era seu forte, mas o livro fez relativo sucesso. Despontou como grande promessa literária, o nome que iria sacudir a mesmice reinante num meio dominado por panelinhas e sucessos hereditários. Pelo menos foi isso que leu numa crítica de jornal, devidamente recortada e emoldurada com pompa na parede do quarto e… Isso! descobrira o mistério! Por certo seu sequestrador o conhece e pensa que aquele livro o deixara rico e…

O estampido da porta ressoou forte no quarto abafado. A luz que entrou o cegou por uns instantes, mas pôde ver a silhueta de um homem, um homem alto e corpulento, que entrou sem dizer nada, puxou uma cadeira do canto e sentou-se ao seu lado. Usava uma touca ninja recobrindo o rosto, uma camiseta de cor indefinida na qual despontava dois braços grossos como toras, e uma calça que parecia ser um jeans surrado, mas não podia ter certeza. Ficaram alguns instantes se encarando, antes que alguém decidisse começar algum diálogo.

_Olha, se você pensa que eu tenho dinheiro ou algo assim, sinto dizer que está enganado, o pouco que ganhei com aquele livro já foi pro ralo há muito tempo.

O homem permanecia imóvel, calado, encarando-o. Podia ouvir sua respiração meio ofegante.

_Você não vai conseguir nenhum dinheiro com isso, cara, tô te dizendo.

Silêncio. Percebeu que era inútil tentar falar e simplesmente esperou que seu improvável anfitrião se pronunciasse, o que realmente aconteceu após alguns longos minutos.

_Não entendeu mesmo o que está acontecendo aqui, não é mesmo?

A voz era rouca, metálica, quase inumana. Mas não parecia hostil nem raivosa, o que o tranquilizou um pouco, o que era possível tranquilizar diante daquela situação. Esperou que seu interlocutor continuasse.

_Eu te conheço. Li seu livro. Ele mudou a minha vida. Você é um gênio.

_Bom, essa não é uma forma muito comum de demonstrar admiração, não é mesmo?

_Você se engana. No final disso tudo, vai me agradecer.

O diálogo surrealista deu uma nova pausa. Ambos se entreolhando no escuro do quarto abafado. O jovem escritor de um só livro e aquele seu admirador misterioso e ameaçador, como são todos os admiradores na verdade.

_Encontrei seu livro num dia em que planejava dar cabo da minha vida. Algo como um milagre, por acaso. Caminhava pela rua pensando como deveria fazer e dei de cara com ele numa vitrine de livraria. Sem saber exatamente por que, fui lá e comprei, sentei numa praça e o li de uma só vez. Quando terminei já estava ficando escuro, e eu era outra pessoa, percebe o que é isso?

Escutava apenas, esperando o momento em que acordaria daquele pesadelo. Nunca ninguém havia dito aquilo, e seu ego, em situações normais, deleitar-se-ia, assim mesmo com mesóclise, com tão elogiosa declaração. Mas naquele momento só conseguia sentir medo. Certo, uma vaidade pode ter despontado ali, já que, diabos, era um escritor afinal, mas, sobretudo medo.

_Depois disso, estudei você. Vasculhei sua vida e passei esses anos todos te seguindo, analisando cada passo que você dava mas, principalmente, esperando sua próxima obra, que não veio.

Essa última parte saiu com um leve tom de desaprovação e decepção, seguido por um suspiro forte que o fez estremecer.

_Olha, cara, eu te entendo, realmente te entendo. Mas se você me estudou mesmo como diz, sabe que eu não criei mais nada depois daquilo. Deve saber ainda que tentei, eu tentei cara, pra caralho. Mas simplesmente não saiu mais nada. Bloqueei, já era.

O homem balançou a cabeça por debaixo da touca, bufando.

_Eu sei disso, e essa é a razão por você estar aqui, vou te ajudar?

_Meu amigo, você não entendeu. Eu não sou capaz mais de criar nada. Já desisti dessa vida. Claro, no começo fiquei desesperado, angustiado mesmo, pensei também em acabar com tudo, como você. Mas percebi que existem outras coisas na vida. Tua salvação estava num livro, a minha, estava fora dele, percebe?

_Você só precisa de um estímulo, uma razão para escrever, e eu vou te ajudar.

O homem se levantou fazendo ranger o piso de madeira, virou-se de costas, abriu uma gaveta e retirou um objeto que não pôde identificar, e sentou-se novamente com o objeto nas mãos.

_O que vai acontecer é o seguinte. Ali do seu lado tem um computador, sem Internet ou qualquer tipo de comunicação externa, evidentemente. Você vai escrever uma obra em uma semana. Se não…

Levantou o objeto que retirara da gaveta e seu temor se revelava fundado. Uma arma.

_Você está completamente louco! Eu não escrevo nada há anos e você quer que eu escreva um livro inteiro em sete dias! Isso é loucura!

_Como eu te disse, estou apenas te ajudando. Você precisa de um estímulo, uma razão para escrever. Não há razão melhor que a própria vida, não? Você é um gênio e é minha responsabilidade não deixar que o mundo abra mão disso.

_Você está louco! Louco!

Gritava, desesperado, com todas as forças, enquanto observava o homem se levantar calmamente e sair do quarto. Ao final, estava exausto. As gotas de suor escorriam pelo rosto e caíam no chão se misturando à poeira do piso. Recobrou as forças e recomeçou a gritar, até perceber que ninguém o escutaria.

(…)

Espancava as teclas do teclado enfurecidamente tal qual um Kerouac movido a benzedrina. Mais magro, alimentava-se mal com o pão diário fornecido por seu algoz e praticamente não dormia envolvido com sua obra urgente. Sem ideia original, apostou naquilo no qual apostam todos os escritores  em crise criativa: uma narrativa autobiográfica, o velho truque metalinguístico. Mas, enfim, chegava à conclusão que, talvez, o homem misterioso estivesse certo. A gravidade da situação o fizera a ganhar, aos poucos na penumbra daquele espaço claustrofóbico, um ânimo que há muito não sentia. Os dedos moviam-se quase que por vontade própria e as frases iam simplesmente deslizando linha por linha, sem o menor esforço. Enquanto isso, a obra tomava corpo, suas estruturas iam crescendo e se solidificando como um edifício, uma torre forte e viril.

Ao fim e a cabo dos sete dias, fraco e absolutamente extenuado, gritou e urrou ao colocar o ponto final em sua obra. O grande escritor voltara! As ninfas traziam de volta sua generosidade àquele farrapo humano para que voltasse triunfante ao Olimpo da literatura. Estava nada menos que extasiado quando finalmente mandou imprimir as páginas na impressora portátil instalada ao lado do computador. Observou cada folha saindo como um pai observa o nascimento de um filho, velando aquela criatura que trazia sua vida de volta, literalmente e metaforicamente falando.

Poucos segundos após a última folha ter sido impressa, o homem mascarado abriu a porta do quarto. Sem dizer nada, sentou-se na cadeira em frente ao computador, desocupada pelo escritor, e pôs-se a ler as páginas recém-paridas. O jovem, mesmo calado, não conseguia esconder a excitação, e roía as unhas, tentando controlar as pernas que teimavam em balançar.

Após terminar a última página, o homem se levantou e postou-se à frente do escritor que, ansioso, esperava odes ao seu talento. Mas ao invés disso, houve silêncio por alguns minutos que transformaram a excitação numa aguda e angustiante ansiedade.

O homem sacou então a arma e atirou na cabeça do jovem escritor.

_Tá uma merda.

Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.

Um homem bom

Chegou apressado na repartição, bateu o ponto de forma atabalhoada e correu pra sua mesa. Estava 15 minutos atrasado e aquilo o perturbava. Não se lembrava da última vez que se atrasara nos vinte anos de serviço ali.  Estava pálido, mais que o normal, e o suor lhe escorria aos borbotões das têmporas, do pescoço, das axilas.

_Tá tudo bem Geraldo?_ Perguntou o chefe, demonstrando uma preocupação protocolar. _Claro, seu Almeida, tudo sob controle_ respondeu, esbaforido, enquanto ajeitava a papelada sobre a mesa_ só um pequeno contratempo no caminho, nada demais.

Colocou a mão sobre o abdome, inspirou profundamente e se concentrou na papelada. Não podia decepcionar seu Almeida. Não podia deixar que os colegas pensassem que era relapso ou omisso. Era preciso atender as expectativas, ainda que elas não fossem lá grandes coisas. Como sempre em sua vida.

Após uma hora, mais ou menos, conseguiu minimamente se secar, aparentando uma certa normalidade. Contudo, ofegava ainda e permanecia pálido. A hora do almoço se aproximava e os funcionários, como de hábito, postavam-se em frente ao relógio fazendo uma contagem regressiva mental.

_Não vai almoçar não, Geraldo?

_Estou sem fome, depois eu como um lanche, tenho algumas coisas atrasadas aqui.

Os colegas, ao se afastarem, comentavam. “Que diabos ele tem?” “Pelo jeito, é crise em casa.” ‘Nessa idade aí, não deve estar mais dando no couro e a patroa já partiu pra assistência.” “Cala a boca, não fala merda, conheço a mulher de Geraldo, vai à igreja todos os domingos.” “E isso lá significa alguma coisa?”. A polêmica durou exatos três minutos, inconclusa, já que ninguém tinha intimidade suficiente para questionar diretamente Geraldo.

Isolado em sua mesa, Geraldo cabisbaixo aguardava os minutos e as horas passarem. No interior daquela repartição, o tempo se arrastava como se os ponteiros do relógio estivessem congelados. Embora estivesse estranho aquele dia, não deixava de sorrir, complacente, e tentar parecer solícito. Precisava agradar a todos. Tinha essa necessidade. A simples ideia de contrariar quem quer que fosse lhe causava pânico, taquicardia, independente da hierarquia, do chefe à faxineira. Se lhe perguntassem alguma opinião sobre política ou futebol, tratava de analisar o inquiridor e respondia exatamente aquilo que achava que se esperava ouvir. Era capaz de dar uma resposta diametralmente oposto minutos depois a outra pessoa.

Prestes a bater seis da tarde, novamente o relógio era assistido pelos funcionários de bolsas e pastas em punho, prontos a arrancarem. Geraldo levantou-se vagarosamente, com a mão sob o abdome, e caminhou rumo à porta. Agora, mancava, mas apertou o passo preocupado em se atrasar para o jantar e iniciar uma discussão com a mulher. Algo que, evidentemente, o apavorava. Pegou o coletivo e saltou no ponto a duas quadras de casa, com passos desajeitados tentando compensar a dessincronização das pernas.

_Tudo bem, querido, como foi seu dia? Está mancando… Está tudo bem Geraldo?

_Sim, não foi nada não, logo passa, respondeu, não sendo mais questionado.

Sentou-se e comeu mecanicamente a janta, tentando transparecer o máximo de normalidade possível. Trocaram meia dúzia de palavras sobre o clima, o preço do supermercado e a filha da vizinha pega fumando maconha, de novo. Geraldo só suspirou, levantou-se e lavou a louça.

_Bom, vou deitar, hoje foi um dia duro e não posso me atrasar amanhã_ disse à esposa, que assistia a novela deitada no sofá.

(…)

A mulher acordou ao som do despertador. Virou-se para o lado e chamou o marido, encostando a mão em seu ombro. “Geraldo, você vai perder a hora, acorda”, disse sonolenta. Nada. Chacoalhou o companheiro, que permanecia inerte. Acendeu a luz do abajour e virou Geraldo de barriga pra cima, colocando a mão na boca pra conter um grito de terror. Geraldo, de olhos semiabertos, não mais respirava. Ergueu a mão que desde o dia anterior o marido recobria o abdome e encontrou uma mancha de sangue. Levantou a camisa e viu um corte profundo.

Em meio à perplexidade daquela cena, percebeu que Geraldo havia sido esfaqueado. Nunca se soube por quem ou em quais circunstâncias, num segredo que Geraldo levou junto a sua bondosa solicitude.

Enquanto eles dormem

Vamos fazer um jogo, ela disse, sentando-se do meu lado e cruzando as pernas, como costumava fazer quando se sentava no chão. O vestido amarelo coberto por pequenas flores – ou seriam cerejas? – vermelhas, deixando transparecer as canelas finas. Mas não escondia as curvas cada vez mais sinuosas que anunciavam seu tempo de mulher. O cheiro de alfazema – seria mesmo alfazema? – escapava de seu cabelo molhado e inundava o quarto escuro. Lá fora, todos dormiam.

Que jogo, respondi desconfiado, hesitando, esperando mais algumas de suas brincadeiras em que, invariavelmente, eu caía. Ela se aproximou mais ainda, a ponto de alguns fios de seus cabelos, longos cabelos negros, tocarem meu rosto. A ponto de poder sentir seu hálito quente e a sua respiração, a temperatura de seu rosto aumentando. Ficou parada na minha frente, olhando, perscrutando meu rosto como se o visse pela primeira vez. Notando com curiosidade e percorrendo cada traço dos meus olhos, nariz e boca.

Você vai ter que fechar os olhos, e não vai poder abrir aconteça o que acontecer – falou com decisão, de forma dura, fingindo uma severidade caricata. Continuava desconfiado, claro, tentando imaginar qual era a peça desta feita. Fiquei sentado no chão, apoiado na cama pensando em várias hipóteses do que ela poderia fazer. Me trancaria aqui de novo, como aquela vez, alguns anos atrás, em que nossos pais conversavam e fumavam no jardim, e que passei quase meia hora – ou teriam sido poucos minutos? –  aos berros, desesperado, tentando sair? Não tínhamos mais idade, pensei, e aquilo lhe valeu um mês de castigo, deve ter aprendido a lição. – Vamos lá, seu medroso – insistiu, apelando desta vez ao meu brio, tentando me desestabilizar, e conseguindo, como sempre conseguia.

Não respondi, apenas fechei os olhos e tentei me manter alerta, preparado para qualquer troça que pudesse ser vítima. A expectativa fez acelerar meu coração e minhas mão ficaram frias, como quando das provas de final de semestre. No escuro do quarto, apenas se ouvia, ao fundo, o ruído dos poucos carros que ainda passavam na rua de trás. Senti o hálito quente se aproximando e os fios molhados de seu cabelo tocando cada vez mais meu rosto, e, naqueles poucos segundos, todas as hipóteses aventadas na minha cabeça se esvaíram, junto ao medo – seria aquilo medo? – de alguma traquinagem infantil. Os batimentos cardíacos, porém, não arrefeceram e se aceleram, produzindo um fino fio de suor que escorregava pela minha têmpora direita.

Senti sua boca tocando a minha, o lábio levemente roçando e contornando o meu, antes de finalmente se encaixar num só movimento, o que fez que o entreabrisse, numa posição estática de consternação – ou seria simplesmente espanto? – antes dela pressioná-lo mais fortemente e colocar sua mão na minha nuca – mão macia como nunca havia reparado – alisando-o e fazendo com que todos meus pelos do corpo se arrepiassem como se uma corrente elétrica me atravessasse. Não tive tempo de concatenar qualquer tipo de pensamento enquanto sua boca abria a minha, e senti a ponta de sua língua, úmida e áspera, tocar meu lábio e a própria língua, num movimento lento e suave, conquistando cada vez mais espaço e desbravando aqueles cantos e lugares recônditos.

Afastou-se então e percebi que havia algum tempo que não respirava, quando dei um suspiro profundo. Notei meu lábio molhado e imaginei, no escuro, que ela me fitava, sentia sua respiração calma e a temperatura da sua pele. Lá fora – haveria ainda um mundo lá fora, e os carros, as pessoas, a escola? – todos dormiam. E algo, dentro de mim, despertava.

Gênero

“Você é gay?”, ela me pergunta de supetão, virando-se pra mim da cadeira do computador, com um certo ar inquisidor. Confesso que não esperava esse tipo de pergunta. Sei que talvez não me encaixe exatamente no estereótipo de masculinidade, mas tampouco já dei mostras do contrário. Não que seja homofóbico, muito pelo contrário, mas aquela pergunta, sem mais nem menos, me intrigou.

“Por que diabos está me perguntando isso?”, devolvi à namorada, tomando o cuidado de não parecer muito ofensivo. Olho para a tela do notebook e percebo então um de meus textos abertos num arquivo de Word. Era uma espécie de carta de amor a um garoto, uma declaração na verdade, em que a personagem abre seus sentimentos e divaga sobre a definição dessa palavra tão banalizada e ao mesmo tempo tão incompreendida nos dias de hoje. Um gancho para uma reflexão sobre o amor, um texto tão clichê quanto isso. O conto, assim como inúmeros outros, jazia perdido e esquecido em alguma pasta aleatória do computador. Inacabado, como a maioria dos que o acompanhavam.

“Não, meu amor, estava escrevendo uma estória, um tipo de conto, em que a personagem, o eu-lírico digamos assim, é uma garota, e ela escreve uma carta a um menino pelo qual está apaixonada”. Ela olha o texto, franze a testa e aperta os olhinhos como sempre fazia quando se sentia contrariada. “Mas você é homem!”, dispara então, aparentemente não aceitando tão prosaica explicação. “Sim, mas é um exercício de imaginação, entende? A gente imagina ser uma garota, cria uma personagem na cabeça e, a partir dela, escreve o que seria uma carta a um pretende, e vai desenvolvendo o tema”.

Percebendo seus olhinhos ainda confusos me fitando, tento achar algum exemplo mais próximo de sua realidade. “Tipo chico Buarque, sabe? Você adora ele não? Lembra de ‘Olhos nos Olhos’ ou ‘Com açúcar e com afeto’? É como se ele fosse uma mulher cantando sobre um homem, é um personagem que ele inventou na cabeça”.

Percebo que a explicação agora surtira efeito, pois seu rosto se descontrai um pouco. Porém, é evidente que ela ainda não se deu por satisfeita. Após alguns instantes de reflexão, com a mão no queixo, sentencia: “Mas você não é o Chico Buarque!”.

“Eu sei, meu bem, eu sei”.

O fim

Caixas vazias e livros empoeirados jazem sobre a cama. Um velho Neruda entreaberto exibe algumas páginas amassadas. No ambiente, traços de antigos incensos queimados, amores despedaçados e uma miríade de lembranças evaporando no ar.

O cenário de terra devastada de uma guerra perdida. Quando tudo termina, o que resta é como Berlim após a Segunda Guerra. Sem os russos orgulhosos hasteando a bandeira no Reichastag, claro, pois aqui não há vencedores. Apenas escombros fumegantes e destroços. A reconstrução é difícil, penso, mas inevitável. Dure o que durar, os muros, as casas e os prédios se reerguerão, mais fortes. Mas até lá, só resta destruição.

Cada centímetro do quarto evoca um conjunto de memórias, boas ou ruins. Quem viver aqui vai sentir a mesma coisa que eu? Vai perceber os frêmitos de prazer e loucura nas noites intensas que tivemos? Conseguirá sentir a paz das tardes de domingo? A raiva e exasperação dos estertores da nossa história e, por fim, a nostalgia e o lamento? Besteira, penso, racional que sou. Quantas histórias já não devem ter passado por aqui, igualmente anônimas aos outros, e se desvaneceram por completo? Os pisos guardam seus segredos.

Contenho as lágrimas, ele já vai chegar. Vem pegar o que resta das suas coisas. Ouço ao longe seu Passat chegando, tomo rapidamente as chaves e saio do apartamento pela porta lateral, escorando-me rente ao corredor.

Ele chega a passos rápidos. Parece bem, um pouco mais envelhecido que da última vez. Talvez abatido. Ou teria sido eu que o enxergava diferente? Quando nos conhecemos dei pouca atenção àquele rapaz franzino que tentava me impressionar tirando Chico Buarque no violão. Fiz vistas grossas pra como ele desafinava, o que, na verdade, chegava a me comover. Tenho dessas coisas. Ou costumava ter.

Do corredor escuto barulhos de caixas e malas, e os passos de seu sapato, inconfundível. Alguns minutos se passam até ele sair do apartamento, fechando mecanicamente a porta e a trancando com um braço enquanto se equilibra para segurar as caixas em outra.O apeita aperta e a garganta fecha, mas eu seguro, resignada.

Ouço o motor do velho Passat ligando. Engasgava sempre antes da partida, até o barulho cessar por completo.

Entro novamente no quarto, vazio. Por sobre a cama ele deixou o Neruda entreaberto. Resolvo deixá-lo lá como está. Quem sabe os futuros amantes, pelo menos, possam aproveitar parte dessa nossa história que termina aqui.