Mensagem

Recebeu aquela misteriosa mensagem no meio da madrugada, o que lhe fez paralisar por alguns longos minutos. A janelinha do Facebook irrompeu sem aviso enquanto lia com atenção alguma coisa sobre o meteoro que atingiria a Terra nas próximas semanas. Tão logo recobrou a atenção, fechou-a bruscamente como se escondesse de alguém, ainda que estivesse sozinho.

No dia seguinte, acordou novamente sonolento e arrastou-se à repartição no que seriam seus últimos dias antes da aguardada aposentadoria. A mensagem, porém, martelava em sua cabeça com insistência.

_Que foi Sérgio?

_Nada não, coisa de velho, sabe como é.

Nunca fora de muitas palavras e por isso ninguém deu atenção ao seu jeito amuado. Mas saiu naquele dia com uma pressa fora do normal, dando uma despedida coletiva de meias palavras, quase um muxoxo, atraindo olhares e algumas sobrancelhas levantadas. O velho Sérgio acabou encontrando um encosto de cabeça nessa etapa da vida, alguém mais corajoso acabou soltando num tom jocoso.

Não conseguiu jantar e foi direto para o computador. Com o mouse trêmulo e hesitante, abriu aquela janelinha, como se espiasse por uma estreita fresta, ou um buraco da fechadura, alguma coisa proibida.  Enfim, estava lá, a mensagem enigmática, amedrontadora, que lhe tirara a paz nas últimas 24 horas: “Oi Sérgio, tudo bem com você?”

Leu, releu, fechou e abriu de novo. Continuava lá. Não ousou responder, apenas fechou o Facebook e arrancou o fio da tomada sem finalizar.

Naquela noite decidiu tomar seus comprimidos para dormir, pois sabia que de outro jeito não conseguiria.

De manhã cedo já estava na repartição antes da hora de bater o ponto. A camisa amassada, os cabelos grisalhos desalinhados e as olheiras já começavam a atrair comentários maldosos daquele microcosmo no qual conseguira passar incólume por quase quatro décadas.

Esperou impacientemente o Almeida chegar. Almeida, um pouco mais novo que ele, era o que se poderia chamar de amigo, em seus próprios termos. Isso significa a única pessoa ali que conseguia trocar meia dúzia de palavras numa semana, apesar dele o ter convidado para ser padrinho de sua filha há uns 20 anos atrás. Qual era mesmo o nome dela? Não conseguia se lembrar pois sempre quando perguntava, naquelas perguntas formais e obrigatórias, referia-se a “sua filha”. Como vai sua filha? E ela sempre estava bem.

_Almeida, tudo bem? – Perguntou se aproximando da mesa do colega, com um fio de voz quase sussurrando.

_Sérgio, beleza? Tudo tranquilo. – Respondeu, ajeitando a pasta e arrumando o bloco de papel timbrado, posicionando o carimbo e estralando os dedos como se fosse partir para uma briga.

_ Como tá a filha?

_ Tá bem, Sérgio.

Continuou ali, olhando para o Almeida, que mal estranhou o colega olhando fixamente para ele, esperando alguma reação ou que perguntasse o que queria, o que não aconteceria.

_Almeida, precisa falar contigo.

Aquela frase fez o amigo parar instantaneamente. Era a primeira vez que ouvia algo assim em tantos anos de convivência. Deixou os papeis de lado, ajeitou os óculos de aro fino, franziu a testa focando bem  Sérgio e encostou a mão no braço do colega que estava sobre a mesa.

_Aconteceu algo, Sérgio? _ disse, preocupado, imitando o tom baixo de sua voz.

_Não… Quero dizer, sim… É estranho, queria ver se a gente podia conversar.

Percebendo a gravidade da situação, Almeida propôs-lhe que conversassem após o expediente, no boteco que havia na esquina da rua.  Sempre vazio, não despertaria grandes atenções.

Às 18h15, lá estavam.

_Almeida, não sei como dizer isso, você provavelmente vai me achar maluco, mas é que…

_Diga logo homem, bradou Almeida enchendo os copos e alcançando um para Sérgio.

_Eu recebi uma mensagem da Vânia, disse Sérgio, seco e direto, esperando a reação do colega antes de falar qualquer outra coisa.

Almeida terminou o gole de cerveja e colocou a copo sobre a mesa.  Olhou fixamente para Sérgio durante alguns segundos, sem dizer nada.

_A Vânia falou contigo é?

_Sim, replicou prontamente.

Almeida esperou outros longos segundos, como se digerindo a resposta.  Em silêncio, tomou outro demorado gole de cerveja, sempre olhando fixamente os olhos de Sérgio.

_Você sonhou com ela? Ela apareceu para você numa visão, algo assim?

_Não, ela me mandou uma mensagem no Facebook.

_No Facebook…

Almeida repetiu a resposta, talvez com a esperança de que o amigo ouvisse o que acabara de dizer e se tocasse do absurdo. Sérgio, porém, permanecia com aquele mesmo ar preocupado que dos dois dias anteriores, olhando para Almeida e para os lados como alguém sendo vigiado ou perseguido.

_Sérgio, se tem uma coisa que eu sei da sua vida esses anos todos, é de como essa história da Vânia mexeu com você.

_Olha Almeida, sei que você deve estar me achando louco, mas é o que aconteceu, não posso fazer nada.

_Certo, e o que você respondeu?

_Nada. Não consegui responder nada.

A garrafa já ia terminando quando Almeida foi ao balcão e pediu outra. Aquela história não iria terminar na primeira. Voltou à mesa já argumentando o que concatenara naquela rápida volta.

_Pode ser uma brincadeira de alguém, sei lá. Alguém que sabe que vocês eram noivos quando ela te largou, pouco antes de morrer.

_Almeida, isso tem mais de 30 anos, quem vai saber disso?

_Bom, ou pode ser ela mesmo, vai saber. Você não chegou a ir ao enterro dela, não é?

_Não, fiquei sabendo só alguns meses depois, quando encontrei por acaso um amigo em comum.

_Então, meu caro Sérgio, pode ser que ela esteja tão viva quanto eu e você. Ou quem sabe seja ela mandando uma mensagem do além, vai saber.

_… – Sérgio pareceu não ter gostado da brincadeira.

_Certo é, meu amigo, que você vai ter que respondê-la e descobrir o que está acontecendo. Chega de esconder o passado, meu velho, é hora de encará-lo, ainda que isso seja doloroso pra você.

Sérgio ouvia calado, rodando o copo de cerveja na mesa formando irregulares círculos de água. Nunca ouvira Almeida falar daquele jeito. Aliás, em poucas ocasiões o ouviu de fato. Chegou a sentir raiva do que parecia ser uma recriminação. O que ele quis dizer com “encarar o passado”? Por acaso o chamava de medroso? Mas o que dizia fazia sentido. Seja o que fosse, teria de descobrir o que estava acontecendo.

Pagaram a conta, despediram-se e Sérgio tomou o rumo de casa, decidido. Ligou o computador e encarou aquela janelinha. A foto, o mesmo rosto de como se lembrava dela, como que olhando para ele.

Começou a digitar: “Oi Vânia, tudo bem sim, e com você…”.

Parou e olhou aquela frase. Tomou ar como se fosse dar um longo mergulho e pôs-se a escrever freneticamente. Simplesmente derramou ali todas as angústias, frustrações, mágoas e tudo mais que guardara no peito por quatro longas décadas. Escrevia como se possuído, sem parar, por quase duas horas.

Quando terminou, sentia-se de fato mais leve, como se um peso tivesse sido tirado dos seus ombros. Olhou para a tela do computador por alguns instantes. Minutos? Segundos? Não saberia dizer. Fechou a janela sem apertar enter. Bloqueou o perfil de Vânia.

Decerto era uma brincadeira. Esse Almeida, sempre pregando peça, pensou.

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Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

Enquanto eles dormem

Vamos fazer um jogo, ela disse, sentando-se do meu lado e cruzando as pernas, como costumava fazer quando se sentava no chão. O vestido amarelo coberto por pequenas flores – ou seriam cerejas? – vermelhas, deixando transparecer as canelas finas. Mas não escondia as curvas cada vez mais sinuosas que anunciavam seu tempo de mulher. O cheiro de alfazema – seria mesmo alfazema? – escapava de seu cabelo molhado e inundava o quarto escuro. Lá fora, todos dormiam.

Que jogo, respondi desconfiado, hesitando, esperando mais algumas de suas brincadeiras em que, invariavelmente, eu caía. Ela se aproximou mais ainda, a ponto de alguns fios de seus cabelos, longos cabelos negros, tocarem meu rosto. A ponto de poder sentir seu hálito quente e a sua respiração, a temperatura de seu rosto aumentando. Ficou parada na minha frente, olhando, perscrutando meu rosto como se o visse pela primeira vez. Notando com curiosidade e percorrendo cada traço dos meus olhos, nariz e boca.

Você vai ter que fechar os olhos, e não vai poder abrir aconteça o que acontecer – falou com decisão, de forma dura, fingindo uma severidade caricata. Continuava desconfiado, claro, tentando imaginar qual era a peça desta feita. Fiquei sentado no chão, apoiado na cama pensando em várias hipóteses do que ela poderia fazer. Me trancaria aqui de novo, como aquela vez, alguns anos atrás, em que nossos pais conversavam e fumavam no jardim, e que passei quase meia hora – ou teriam sido poucos minutos? –  aos berros, desesperado, tentando sair? Não tínhamos mais idade, pensei, e aquilo lhe valeu um mês de castigo, deve ter aprendido a lição. – Vamos lá, seu medroso – insistiu, apelando desta vez ao meu brio, tentando me desestabilizar, e conseguindo, como sempre conseguia.

Não respondi, apenas fechei os olhos e tentei me manter alerta, preparado para qualquer troça que pudesse ser vítima. A expectativa fez acelerar meu coração e minhas mão ficaram frias, como quando das provas de final de semestre. No escuro do quarto, apenas se ouvia, ao fundo, o ruído dos poucos carros que ainda passavam na rua de trás. Senti o hálito quente se aproximando e os fios molhados de seu cabelo tocando cada vez mais meu rosto, e, naqueles poucos segundos, todas as hipóteses aventadas na minha cabeça se esvaíram, junto ao medo – seria aquilo medo? – de alguma traquinagem infantil. Os batimentos cardíacos, porém, não arrefeceram e se aceleram, produzindo um fino fio de suor que escorregava pela minha têmpora direita.

Senti sua boca tocando a minha, o lábio levemente roçando e contornando o meu, antes de finalmente se encaixar num só movimento, o que fez que o entreabrisse, numa posição estática de consternação – ou seria simplesmente espanto? – antes dela pressioná-lo mais fortemente e colocar sua mão na minha nuca – mão macia como nunca havia reparado – alisando-o e fazendo com que todos meus pelos do corpo se arrepiassem como se uma corrente elétrica me atravessasse. Não tive tempo de concatenar qualquer tipo de pensamento enquanto sua boca abria a minha, e senti a ponta de sua língua, úmida e áspera, tocar meu lábio e a própria língua, num movimento lento e suave, conquistando cada vez mais espaço e desbravando aqueles cantos e lugares recônditos.

Afastou-se então e percebi que havia algum tempo que não respirava, quando dei um suspiro profundo. Notei meu lábio molhado e imaginei, no escuro, que ela me fitava, sentia sua respiração calma e a temperatura da sua pele. Lá fora – haveria ainda um mundo lá fora, e os carros, as pessoas, a escola? – todos dormiam. E algo, dentro de mim, despertava.

Gênero

“Você é gay?”, ela me pergunta de supetão, virando-se pra mim da cadeira do computador, com um certo ar inquisidor. Confesso que não esperava esse tipo de pergunta. Sei que talvez não me encaixe exatamente no estereótipo de masculinidade, mas tampouco já dei mostras do contrário. Não que seja homofóbico, muito pelo contrário, mas aquela pergunta, sem mais nem menos, me intrigou.

“Por que diabos está me perguntando isso?”, devolvi à namorada, tomando o cuidado de não parecer muito ofensivo. Olho para a tela do notebook e percebo então um de meus textos abertos num arquivo de Word. Era uma espécie de carta de amor a um garoto, uma declaração na verdade, em que a personagem abre seus sentimentos e divaga sobre a definição dessa palavra tão banalizada e ao mesmo tempo tão incompreendida nos dias de hoje. Um gancho para uma reflexão sobre o amor, um texto tão clichê quanto isso. O conto, assim como inúmeros outros, jazia perdido e esquecido em alguma pasta aleatória do computador. Inacabado, como a maioria dos que o acompanhavam.

“Não, meu amor, estava escrevendo uma estória, um tipo de conto, em que a personagem, o eu-lírico digamos assim, é uma garota, e ela escreve uma carta a um menino pelo qual está apaixonada”. Ela olha o texto, franze a testa e aperta os olhinhos como sempre fazia quando se sentia contrariada. “Mas você é homem!”, dispara então, aparentemente não aceitando tão prosaica explicação. “Sim, mas é um exercício de imaginação, entende? A gente imagina ser uma garota, cria uma personagem na cabeça e, a partir dela, escreve o que seria uma carta a um pretende, e vai desenvolvendo o tema”.

Percebendo seus olhinhos ainda confusos me fitando, tento achar algum exemplo mais próximo de sua realidade. “Tipo chico Buarque, sabe? Você adora ele não? Lembra de ‘Olhos nos Olhos’ ou ‘Com açúcar e com afeto’? É como se ele fosse uma mulher cantando sobre um homem, é um personagem que ele inventou na cabeça”.

Percebo que a explicação agora surtira efeito, pois seu rosto se descontrai um pouco. Porém, é evidente que ela ainda não se deu por satisfeita. Após alguns instantes de reflexão, com a mão no queixo, sentencia: “Mas você não é o Chico Buarque!”.

“Eu sei, meu bem, eu sei”.

O fim

Caixas vazias e livros empoeirados jazem sobre a cama. Um velho Neruda entreaberto exibe algumas páginas amassadas. No ambiente, traços de antigos incensos queimados, amores despedaçados e uma miríade de lembranças evaporando no ar.

O cenário de terra devastada de uma guerra perdida. Quando tudo termina, o que resta é como Berlim após a Segunda Guerra. Sem os russos orgulhosos hasteando a bandeira no Reichastag, claro, pois aqui não há vencedores. Apenas escombros fumegantes e destroços. A reconstrução é difícil, penso, mas inevitável. Dure o que durar, os muros, as casas e os prédios se reerguerão, mais fortes. Mas até lá, só resta destruição.

Cada centímetro do quarto evoca um conjunto de memórias, boas ou ruins. Quem viver aqui vai sentir a mesma coisa que eu? Vai perceber os frêmitos de prazer e loucura nas noites intensas que tivemos? Conseguirá sentir a paz das tardes de domingo? A raiva e exasperação dos estertores da nossa história e, por fim, a nostalgia e o lamento? Besteira, penso, racional que sou. Quantas histórias já não devem ter passado por aqui, igualmente anônimas aos outros, e se desvaneceram por completo? Os pisos guardam seus segredos.

Contenho as lágrimas, ele já vai chegar. Vem pegar o que resta das suas coisas. Ouço ao longe seu Passat chegando, tomo rapidamente as chaves e saio do apartamento pela porta lateral, escorando-me rente ao corredor.

Ele chega a passos rápidos. Parece bem, um pouco mais envelhecido que da última vez. Talvez abatido. Ou teria sido eu que o enxergava diferente? Quando nos conhecemos dei pouca atenção àquele rapaz franzino que tentava me impressionar tirando Chico Buarque no violão. Fiz vistas grossas pra como ele desafinava, o que, na verdade, chegava a me comover. Tenho dessas coisas. Ou costumava ter.

Do corredor escuto barulhos de caixas e malas, e os passos de seu sapato, inconfundível. Alguns minutos se passam até ele sair do apartamento, fechando mecanicamente a porta e a trancando com um braço enquanto se equilibra para segurar as caixas em outra.O apeita aperta e a garganta fecha, mas eu seguro, resignada.

Ouço o motor do velho Passat ligando. Engasgava sempre antes da partida, até o barulho cessar por completo.

Entro novamente no quarto, vazio. Por sobre a cama ele deixou o Neruda entreaberto. Resolvo deixá-lo lá como está. Quem sabe os futuros amantes, pelo menos, possam aproveitar parte dessa nossa história que termina aqui.

Quando florescem os gerânios

Cheguei com um vaso de flores. Simples, pequenos gerânios vermelhos num vaso de barro, como as que ela costumava plantar em nosso jardim. De todas as lembranças da infância, a que me marca mais é de seu pequeno jardim florido. Eu, criança ainda, sujo de barro da cabeça aos pés a ajudando a cultivar os gerânios e margaridas do pequeno canteiro no quintal. Ela, tão grande, plantava com mãos cuidadosas as pequenas mudas que, algum tempo depois, começavam a florescer. “É mágica mãe?”. “Não, filho, é deus que faz crescer… A gente planta e deus lá em cima faz a flor crescer e desabrochar”. Quando chovia, o cheiro de terra molhada se misturava ao perfume e eu ficava na janela, inebriado com aquele aroma.

Mesmo adolescente, continuava a ajudá-la a plantar seus gerânios e margaridas. E a cheirar a terra quando chovia. Claro, nessa idade somos pegos por outras preocupações, mas mesmo no turbilhão de hormônios e ansiedade que nos atinge nessa fase da vida, nunca me esqueci de seu jardim. Era o nosso elo. Nosso pacto filial. E me comovia perceber o quanto aquele pequeno pedaço de terra era tão importante para ela. Mesmo quando o pai ficou desempregado, ou nossa vó morreu, ainda assim, abatida, muitas vezes aos prantos, ela continuava a regar seu jardim.

Quando saí de casa para a faculdade ela se jogou sobre mim aos prantos. Disse para ser forte, valente na vida. E que o nosso jardim estaria sempre ali pra quando voltasse. Depois, consegui emprego em outra cidade e fiz minha própria família. Mas morávamos num apartamento. O máximo que consegui cultivar foram algumas ervas num canto da cozinha. Ela, contudo, sempre mandava, por carta, uma foto de seu jardim, orgulhosa. Mesmo em tempos de email, Facebook e wathsapp, chegava aquela carta pelo Correio, com um bilhetinho e uma foto.

Até que as cartas cessaram.

Abri o portão, com o vaso nas mãos, e olhei o canteiro. O capim e os arbustos haviam tomado conta de tudo. Meu pai, com um aspecto cansado, alcançou-me no quintal. “Olha, filho, você precisa ser forte, não se deixe abater”, disse, com os olhos marejados e a mão no meu ombro. Abracei-o.

Quando entrei, a enfermeira sorriu pra mim e saiu, deixando-nos a sós. Aproximei-me e beijei sua testa. Vestia uma camisola azul e estava coberta por um lençol. Havia envelhecido muito desde a última a vez que a vira. Seus cabelos, já completamente encanecidos, pareciam mais secos e quebradiços, e sua pele já não tinha cor de antes. Tinha o olhar perdido no horizonte, o qual manteve mesmo com a minha presença. Sentei-me ao seu lado e peguei sua mão. “Olha mãe, que bonito, iguais aos que a senhora plantava, lembra?”. Ela virou a cabeça e olhou para o vaso, sem falar nada.

“Vitinho?”, ela disse, chamando-me pelo nome de meu tio, irmão dela. “Não mãe, sou seu filho”. Era a primeira vez, desde que diagnosticado o alzheimer, que ela não me reconhecia. Já vim preparado para aquela situação, ou pelo menos achava isso. Mas a pessoa que você mais ama e confia nessa vida não mais te reconhecer e te olhar como um estranho… Meus olhos se encheram de lágrimas, que tratei de conter rapidamente. O que nos define? Nossa personalidade, identidade e lembranças? Quem era então aquela pessoa deitada ali, que me olhava com desconfiança? Ainda seria minha mãe? Ou ela, na prática, já morrera com o avanço da doença?

“Você tá triste, Vitinho?”, ela perguntou com um fio de voz. “Não mãe, não tô não”. Ela então olhou para os gerânios que eu ainda segurava, fitou-os por um longo momento e exclamou: “São lindas! Lindas!”. “Sim, mãe, vou deixá-las aqui com a senhora”. Nada mais disse, ficando estática com o olhar perdido para além dos gerânios.

Enxuguei as lágrimas e deixei o vaso em cima do criado mudo. Havia um pouco dela ali ainda. Amanhã carpo o canteiro e chamo meu filho pra me ajudar a refazer o jardim. Ela vai ficar feliz.

VOCÊ

(ode ao fracasso)

Você é minha papoula, eu dizia. Você é minha cocaína, devolvia. Você é minha marijuana, falava. Você é meu LSD, respondia. Você é minha alegria, exclamava. Você é minha felicidade, arriscava. Você é meu desejo, declarava. Você é minha paixão, retorquia. Você é meu amor, romantizava. Você é meu marido, constatava. Você é minha vida, exagerava. Você é meu tudo, competia. Você é meu alicerce, confessava. Você é meu lar, argumentava. Você é minha dúvida, mandava. Você é meu tédio, se vingava. Você é minha frustração, atacava. Você é minha dor, defendia-se. Você é meu problema, terminava. Você é meu fardo, exasperava. Você é minha página virada, dizia. Você é minha lembrança, respondia.

Você é a minha saudade, pensava. E ninguém respondia.