Quarta-feira de cinzas

 

Trôpegos, abriram a porta do apartamento escorados um ao outro, enganchados e ansiosos. Ele segurava seu cabelo atrás da nuca enquanto preenchia o pescoço de beijos ávidos. Ela, percorria suas costas com as mãos, arranhando-as, e tentava alcançar o máximo que conseguia, esticando o braço para debaixo de sua calças. Despiram-se com a violência sutil dos amantes. Logo, estavam completamente nus, iluminados somente pela luz da cidade que invadia o quarto pelas frestas da cortina e se refletia no suor de seus corpos.

Contemplaram-se por alguns poucos momentos, numa breve trégua silenciosa, e entregaram-se violentamente, entre soluços roucos e gemidos. Fizeram amor por toda a madrugada até desfalecerem-se, exaustos.

O sol já ardia lá fora quando ele se levantou, desvencilhou-se cuidadosamente de seus braços e vestiu-se. Antes de sair, deixou o dinheiro em cima da máscara de colombina largada no criado mudo.

Enquanto eles dormem

Vamos fazer um jogo, ela disse, sentando-se do meu lado e cruzando as pernas, como costumava fazer quando se sentava no chão. O vestido amarelo coberto por pequenas flores – ou seriam cerejas? – vermelhas, deixando transparecer as canelas finas. Mas não escondia as curvas cada vez mais sinuosas que anunciavam seu tempo de mulher. O cheiro de alfazema – seria mesmo alfazema? – escapava de seu cabelo molhado e inundava o quarto escuro. Lá fora, todos dormiam.

Que jogo, respondi desconfiado, hesitando, esperando mais algumas de suas brincadeiras em que, invariavelmente, eu caía. Ela se aproximou mais ainda, a ponto de alguns fios de seus cabelos, longos cabelos negros, tocarem meu rosto. A ponto de poder sentir seu hálito quente e a sua respiração, a temperatura de seu rosto aumentando. Ficou parada na minha frente, olhando, perscrutando meu rosto como se o visse pela primeira vez. Notando com curiosidade e percorrendo cada traço dos meus olhos, nariz e boca.

Você vai ter que fechar os olhos, e não vai poder abrir aconteça o que acontecer – falou com decisão, de forma dura, fingindo uma severidade caricata. Continuava desconfiado, claro, tentando imaginar qual era a peça desta feita. Fiquei sentado no chão, apoiado na cama pensando em várias hipóteses do que ela poderia fazer. Me trancaria aqui de novo, como aquela vez, alguns anos atrás, em que nossos pais conversavam e fumavam no jardim, e que passei quase meia hora – ou teriam sido poucos minutos? –  aos berros, desesperado, tentando sair? Não tínhamos mais idade, pensei, e aquilo lhe valeu um mês de castigo, deve ter aprendido a lição. – Vamos lá, seu medroso – insistiu, apelando desta vez ao meu brio, tentando me desestabilizar, e conseguindo, como sempre conseguia.

Não respondi, apenas fechei os olhos e tentei me manter alerta, preparado para qualquer troça que pudesse ser vítima. A expectativa fez acelerar meu coração e minhas mão ficaram frias, como quando das provas de final de semestre. No escuro do quarto, apenas se ouvia, ao fundo, o ruído dos poucos carros que ainda passavam na rua de trás. Senti o hálito quente se aproximando e os fios molhados de seu cabelo tocando cada vez mais meu rosto, e, naqueles poucos segundos, todas as hipóteses aventadas na minha cabeça se esvaíram, junto ao medo – seria aquilo medo? – de alguma traquinagem infantil. Os batimentos cardíacos, porém, não arrefeceram e se aceleram, produzindo um fino fio de suor que escorregava pela minha têmpora direita.

Senti sua boca tocando a minha, o lábio levemente roçando e contornando o meu, antes de finalmente se encaixar num só movimento, o que fez que o entreabrisse, numa posição estática de consternação – ou seria simplesmente espanto? – antes dela pressioná-lo mais fortemente e colocar sua mão na minha nuca – mão macia como nunca havia reparado – alisando-o e fazendo com que todos meus pelos do corpo se arrepiassem como se uma corrente elétrica me atravessasse. Não tive tempo de concatenar qualquer tipo de pensamento enquanto sua boca abria a minha, e senti a ponta de sua língua, úmida e áspera, tocar meu lábio e a própria língua, num movimento lento e suave, conquistando cada vez mais espaço e desbravando aqueles cantos e lugares recônditos.

Afastou-se então e percebi que havia algum tempo que não respirava, quando dei um suspiro profundo. Notei meu lábio molhado e imaginei, no escuro, que ela me fitava, sentia sua respiração calma e a temperatura da sua pele. Lá fora – haveria ainda um mundo lá fora, e os carros, as pessoas, a escola? – todos dormiam. E algo, dentro de mim, despertava.

Gênero

“Você é gay?”, ela me pergunta de supetão, virando-se pra mim da cadeira do computador, com um certo ar inquisidor. Confesso que não esperava esse tipo de pergunta. Sei que talvez não me encaixe exatamente no estereótipo de masculinidade, mas tampouco já dei mostras do contrário. Não que seja homofóbico, muito pelo contrário, mas aquela pergunta, sem mais nem menos, me intrigou.

“Por que diabos está me perguntando isso?”, devolvi à namorada, tomando o cuidado de não parecer muito ofensivo. Olho para a tela do notebook e percebo então um de meus textos abertos num arquivo de Word. Era uma espécie de carta de amor a um garoto, uma declaração na verdade, em que a personagem abre seus sentimentos e divaga sobre a definição dessa palavra tão banalizada e ao mesmo tempo tão incompreendida nos dias de hoje. Um gancho para uma reflexão sobre o amor, um texto tão clichê quanto isso. O conto, assim como inúmeros outros, jazia perdido e esquecido em alguma pasta aleatória do computador. Inacabado, como a maioria dos que o acompanhavam.

“Não, meu amor, estava escrevendo uma estória, um tipo de conto, em que a personagem, o eu-lírico digamos assim, é uma garota, e ela escreve uma carta a um menino pelo qual está apaixonada”. Ela olha o texto, franze a testa e aperta os olhinhos como sempre fazia quando se sentia contrariada. “Mas você é homem!”, dispara então, aparentemente não aceitando tão prosaica explicação. “Sim, mas é um exercício de imaginação, entende? A gente imagina ser uma garota, cria uma personagem na cabeça e, a partir dela, escreve o que seria uma carta a um pretende, e vai desenvolvendo o tema”.

Percebendo seus olhinhos ainda confusos me fitando, tento achar algum exemplo mais próximo de sua realidade. “Tipo chico Buarque, sabe? Você adora ele não? Lembra de ‘Olhos nos Olhos’ ou ‘Com açúcar e com afeto’? É como se ele fosse uma mulher cantando sobre um homem, é um personagem que ele inventou na cabeça”.

Percebo que a explicação agora surtira efeito, pois seu rosto se descontrai um pouco. Porém, é evidente que ela ainda não se deu por satisfeita. Após alguns instantes de reflexão, com a mão no queixo, sentencia: “Mas você não é o Chico Buarque!”.

“Eu sei, meu bem, eu sei”.

O fim

Caixas vazias e livros empoeirados jazem sobre a cama. Um velho Neruda entreaberto exibe algumas páginas amassadas. No ambiente, traços de antigos incensos queimados, amores despedaçados e uma miríade de lembranças evaporando no ar.

O cenário de terra devastada de uma guerra perdida. Quando tudo termina, o que resta é como Berlim após a Segunda Guerra. Sem os russos orgulhosos hasteando a bandeira no Reichastag, claro, pois aqui não há vencedores. Apenas escombros fumegantes e destroços. A reconstrução é difícil, penso, mas inevitável. Dure o que durar, os muros, as casas e os prédios se reerguerão, mais fortes. Mas até lá, só resta destruição.

Cada centímetro do quarto evoca um conjunto de memórias, boas ou ruins. Quem viver aqui vai sentir a mesma coisa que eu? Vai perceber os frêmitos de prazer e loucura nas noites intensas que tivemos? Conseguirá sentir a paz das tardes de domingo? A raiva e exasperação dos estertores da nossa história e, por fim, a nostalgia e o lamento? Besteira, penso, racional que sou. Quantas histórias já não devem ter passado por aqui, igualmente anônimas aos outros, e se desvaneceram por completo? Os pisos guardam seus segredos.

Contenho as lágrimas, ele já vai chegar. Vem pegar o que resta das suas coisas. Ouço ao longe seu Passat chegando, tomo rapidamente as chaves e saio do apartamento pela porta lateral, escorando-me rente ao corredor.

Ele chega a passos rápidos. Parece bem, um pouco mais envelhecido que da última vez. Talvez abatido. Ou teria sido eu que o enxergava diferente? Quando nos conhecemos dei pouca atenção àquele rapaz franzino que tentava me impressionar tirando Chico Buarque no violão. Fiz vistas grossas pra como ele desafinava, o que, na verdade, chegava a me comover. Tenho dessas coisas. Ou costumava ter.

Do corredor escuto barulhos de caixas e malas, e os passos de seu sapato, inconfundível. Alguns minutos se passam até ele sair do apartamento, fechando mecanicamente a porta e a trancando com um braço enquanto se equilibra para segurar as caixas em outra.O apeita aperta e a garganta fecha, mas eu seguro, resignada.

Ouço o motor do velho Passat ligando. Engasgava sempre antes da partida, até o barulho cessar por completo.

Entro novamente no quarto, vazio. Por sobre a cama ele deixou o Neruda entreaberto. Resolvo deixá-lo lá como está. Quem sabe os futuros amantes, pelo menos, possam aproveitar parte dessa nossa história que termina aqui.

Quando florescem os gerânios

Cheguei com um vaso de flores. Simples, pequenos gerânios vermelhos num vaso de barro, como as que ela costumava plantar em nosso jardim. De todas as lembranças da infância, a que me marca mais é de seu pequeno jardim florido. Eu, criança ainda, sujo de barro da cabeça aos pés a ajudando a cultivar os gerânios e margaridas do pequeno canteiro no quintal. Ela, tão grande, plantava com mãos cuidadosas as pequenas mudas que, algum tempo depois, começavam a florescer. “É mágica mãe?”. “Não, filho, é deus que faz crescer… A gente planta e deus lá em cima faz a flor crescer e desabrochar”. Quando chovia, o cheiro de terra molhada se misturava ao perfume e eu ficava na janela, inebriado com aquele aroma.

Mesmo adolescente, continuava a ajudá-la a plantar seus gerânios e margaridas. E a cheirar a terra quando chovia. Claro, nessa idade somos pegos por outras preocupações, mas mesmo no turbilhão de hormônios e ansiedade que nos atinge nessa fase da vida, nunca me esqueci de seu jardim. Era o nosso elo. Nosso pacto filial. E me comovia perceber o quanto aquele pequeno pedaço de terra era tão importante para ela. Mesmo quando o pai ficou desempregado, ou nossa vó morreu, ainda assim, abatida, muitas vezes aos prantos, ela continuava a regar seu jardim.

Quando saí de casa para a faculdade ela se jogou sobre mim aos prantos. Disse para ser forte, valente na vida. E que o nosso jardim estaria sempre ali pra quando voltasse. Depois, consegui emprego em outra cidade e fiz minha própria família. Mas morávamos num apartamento. O máximo que consegui cultivar foram algumas ervas num canto da cozinha. Ela, contudo, sempre mandava, por carta, uma foto de seu jardim, orgulhosa. Mesmo em tempos de email, Facebook e wathsapp, chegava aquela carta pelo Correio, com um bilhetinho e uma foto.

Até que as cartas cessaram.

Abri o portão, com o vaso nas mãos, e olhei o canteiro. O capim e os arbustos haviam tomado conta de tudo. Meu pai, com um aspecto cansado, alcançou-me no quintal. “Olha, filho, você precisa ser forte, não se deixe abater”, disse, com os olhos marejados e a mão no meu ombro. Abracei-o.

Quando entrei, a enfermeira sorriu pra mim e saiu, deixando-nos a sós. Aproximei-me e beijei sua testa. Vestia uma camisola azul e estava coberta por um lençol. Havia envelhecido muito desde a última a vez que a vira. Seus cabelos, já completamente encanecidos, pareciam mais secos e quebradiços, e sua pele já não tinha cor de antes. Tinha o olhar perdido no horizonte, o qual manteve mesmo com a minha presença. Sentei-me ao seu lado e peguei sua mão. “Olha mãe, que bonito, iguais aos que a senhora plantava, lembra?”. Ela virou a cabeça e olhou para o vaso, sem falar nada.

“Vitinho?”, ela disse, chamando-me pelo nome de meu tio, irmão dela. “Não mãe, sou seu filho”. Era a primeira vez, desde que diagnosticado o alzheimer, que ela não me reconhecia. Já vim preparado para aquela situação, ou pelo menos achava isso. Mas a pessoa que você mais ama e confia nessa vida não mais te reconhecer e te olhar como um estranho… Meus olhos se encheram de lágrimas, que tratei de conter rapidamente. O que nos define? Nossa personalidade, identidade e lembranças? Quem era então aquela pessoa deitada ali, que me olhava com desconfiança? Ainda seria minha mãe? Ou ela, na prática, já morrera com o avanço da doença?

“Você tá triste, Vitinho?”, ela perguntou com um fio de voz. “Não mãe, não tô não”. Ela então olhou para os gerânios que eu ainda segurava, fitou-os por um longo momento e exclamou: “São lindas! Lindas!”. “Sim, mãe, vou deixá-las aqui com a senhora”. Nada mais disse, ficando estática com o olhar perdido para além dos gerânios.

Enxuguei as lágrimas e deixei o vaso em cima do criado mudo. Havia um pouco dela ali ainda. Amanhã carpo o canteiro e chamo meu filho pra me ajudar a refazer o jardim. Ela vai ficar feliz.

VOCÊ

(ode ao fracasso)

Você é minha papoula, eu dizia. Você é minha cocaína, devolvia. Você é minha marijuana, falava. Você é meu LSD, respondia. Você é minha alegria, exclamava. Você é minha felicidade, arriscava. Você é meu desejo, declarava. Você é minha paixão, retorquia. Você é meu amor, romantizava. Você é meu marido, constatava. Você é minha vida, exagerava. Você é meu tudo, competia. Você é meu alicerce, confessava. Você é meu lar, argumentava. Você é minha dúvida, mandava. Você é meu tédio, se vingava. Você é minha frustração, atacava. Você é minha dor, defendia-se. Você é meu problema, terminava. Você é meu fardo, exasperava. Você é minha página virada, dizia. Você é minha lembrança, respondia.

Você é a minha saudade, pensava. E ninguém respondia.

Um emprego digno

Era a terceira ou a quarta vez que passava por aquele anúncio estampado no mural. Desta, porém, resolveu parar e puxar um dos filetes com o número de telefone. Era um daqueles anúncios muito comuns nas faculdades, de papel sulfite recortado para o interessado destacar o número de contato. Acima, apenas um enunciado: “Precisando de trabalho? Entre em contato”.

Sabia que a vaga era para a faculdade de artes, mas não tinha ideia de que se tratava. Mas àquela altura não fazia tanta diferença. Já passava do segundo mês de aluguel atrasado e uma pilha de contas se acumulava sobre a escrivaninha do quarto. Sua dieta se resumia a dois ou três pingados na padaria, cobertos por um pão e manteiga na chapa. Precisava fazer algo rapidamente. Colocou créditos no celular e tentou a sorte.

Bem que se esforçou, mas não conseguiu que seu interlocutor lhe revelasse a natureza da vaga em questão. Foi apenas orientado para estar às 9h do dia seguinte em frente à faculdade. Munido de um roupão, de preferência. As instruções lhe soaram estranhas, claro, mas o anúncio de despejo que o esperava embaixo da porta de casa falou mais alto. Às 8h45 já estava posicionado em frente à faculdade. Dez minutos depois chegou uma mulher de uns 30 anos, de calça jeans e camiseta branca manchada de tinta. Dois minutos mais tarde se aproximou um senhor de longas barbas brancas e aparência circunspecta. Cumprimentaram-se com um tímido aceno de cabeça e permaneceram mudos, com os olhos voltados ao chão. Às 9h em ponto a porta se abriu e os três foram abrigados numa pequena sala. Um por um, foram sendo chamados para a entrevista.

Ele foi o terceiro. Viu a mulher e o velho entrarem na outra sala, permanecendo lá por uns 10 minutos e saírem tão mudos quanto entraram. Finalmente chegou a sua vez. Entrou na sala de entrevistas, uma pequena sala que mal comportava a mesa e as duas cadeiras além de uma estante com livros desdenhosamente empilhados. Um homem de óculos já sentado fez um sinal para que se acomodasse na cadeira em frente à sua. Pegou uma folha de papel e leu, apertando os olhos com as mãos na lente: “Silas, hmmm… bom…”. Alguns segundos de silêncio constrangedores se estabeleceram, sendo quebrados apenas com a ordem inesperada do empregador. “Queira tirar suas roupas, por favor”.

Hesitou por alguns instantes, como seria impossível não hesitar. Mas obedeceu, não se sabe por quê. Na verdade, não pensou muito, simplesmente se levantou e começou a se despir. Alguns dizem que a melhor maneira de fazer outra pessoa tomar uma atitude extrema é a pegando desprevenida, de forma com que não consiga, em poucos segundos, concatenar algum tipo de raciocínio e estabelecer uma ligação lógica com o que está sendo pedido ou ordenado. A resposta é automática. Mas Silas só foi pensar nisso mais tarde. Naquele momento, estava ocupado em desafivelar o velho cinto que travava nos momentos mais impróprios. Ficou, enfim, completamente nu à frente do entrevistador, que olhava meticulosamente para cada parte de seu corpo.

“Bom, você já deve ter percebido para o que está sendo chamado, não?”, afirmou em tom de interrogação o homem. Sils mentiu e assentiu com a cabeça, mesmo não fazendo ideia do que se passava ali. “Começa na segunda, chegue pontualmente no horário marcado que os alunos não podem esperar”. Foi só então que percebeu o real sentido da oferta que lhe fora feita. Modelo vivo. Nunca achou que daria para isso. Seu corpo tinha alguma simetria, verdade, mas estava longe de ser um deus apolíneo. Bem, pensou, talvez seja isso mesmo que queiram. A pontada no estômago não permitiu que se detivesse demasiadamente nesses pensamentos. Iria ganhar relativamente bem para ficar nu em frente a uma turma de universitários, qual o problema? Seria um modo digno de ganhar dinheiro, ou não? Não seria uma forma de prostituição, por exemplo, ainda que seu objeto de trabalho fosse o próprio corpo. Não, estaria ali em nome da arte. Foda-se a arte, precisava comer e pagar o aluguel. O estômago primeiro, depois a moral, já dizia Brecht.

O primeiro dia foi o mais estranho. Nunca havia feito aquilo. Mas estava resignado. Despiu-se e ficou lá em frente a turma de 15 alunos. A maioria homens. Ato quase contínuo, quando livrou-se do roupão contraiu as pernas a fim de esconder o pau entre as coxas. Mas o professor, avisado da inexperiência do modelo, fez-lhe um sinal de reprovação com a cabeça e ele simplesmente relaxou. A sessão durou quase duas horas. Tirando o constrangimento inicial, porém, até que não havia sido tão difícil.

Aos poucos, foi se habituando à nova rotina e àquela estranha ocupação. Porém, embora pudesse dizer que estava acostumado aos olhares quase que clínicos dos estranhos que, diariamente, perscrutavam cada reentrância de seu corpo, não se sentia plenamente confortável. Um certo sentimento de culpa foi lhe tomando as ideias, para seu desgosto e, principalmente, surpresa. Verdade seja dita, nunca fora um poço de moralidade ou virtude. De onde vinha então aquela repentina consciência? Reflexo de sua educação católica? Uma fagulha fossilizada da moral judaico-cristã incrustada em sua alma? Enfim, decidiu tratar a questão como, em geral, tratava todos os seus problemas de sua vida. Foda-se.

Foi se soltando a ponto de, em determinado momento, já fazer troça de sua própria anatomia para os estudantes mais inexperientes alivarem a tensão. Foi nessas brincadeiras que reparou em Augusto. Primeiro-anista apesar da idade já avançada em relação aos colegas, do tipo que já passou dos 30, Augusto tinha cabelos loiros num corte rente, quase militar. Os olhos azuis, de gringo. Percebeu que o olhar do rapaz se detinha mais que os outros. Ou nos momentos em que ele simplesmente se esquecia do lápis e se punha a contemplá-lo, simplesmente, por minutos a fio. De forma que não se surpreendeu quando Augusto o convidou a tomar uma cerveja após uma aula. E aceitou, por que não?

Um boteco simples, porém charmoso. Uma cerveja. Depois mais uma. Outra mais. Conversas triviais e agradáveis. Decidiram pagar a conta quando já passava da meia-noite. Na saída do bar, Augusto puxou Silas pelo cinto e deu-lhe um beijo caloroso nos lábios. Silas respondeu, encostando a mão em sua nuca enquanto o acariciava nas costas com a outra. Chamaram um táxi para o apartamento de Augusto.

O duplex não chegava a ser suntuoso, mas era de um nível que indicava o estrato social do rapaz. A luz indireta banhava a sala e o pequeno bar no canto do cômodo, cintilando luzes coloridas das dezenas de garrafas expostas. Augusto pegou um champagne, o verdadeiro fez questão de dizer e serviu uma taça a Silas. De cristal, também fez questão de ressaltar. Pediu um minuto e foi ao aparelho de som colocar uma música. Coltrane. Apropriado, pensou Silas. Quando Augusto voltou, Silas se entretia com o rótulo. ‘Brut rosé’, tentou pronunciar, sob os risos do parceiro.

Quando Augusto se virou para pegar sua taça que repousava sobre a mesa, Silas não hesitou. Golpeou com toda a força a cabeça do rapaz com a garrafa do champagne, que trincou mas não chegou a quebrar. Augusto tombou desajeitado no chão, ficando imóvel sobre o braço esquerdo, enquanto o direito dobrava-se como um hieróglifo egípcio. Uma pequena poça de sangue se formou embaixo de sua cabeça. Silas deixou a garrafa em cima da mesa, arrancou a carteira do rapaz e a colocou no bolso. Agora, precisava ser rápido, vamos ver o que temos de bom, pensou, antes de vasculhar as gavetas e armários do apartamento.

Onde já se viu ganhar a vida mostrando o corpo a estranhos?