Primeira nobre verdade

_Você está louca, Lúcia?

A princípio não entendeu aquele grito reprovador da amiga bem ao seu lado. A confusão, porém, durou apenas poucos segundos, até se dar conta do braço por cima do fogo alto do fogão. Pegava a água que deixara fervendo para passar o café e, distraída, não se deu conta que havia esquecido de apagar o fogo. O cheiro característico de pele e pêlos queimado se espalhava pela pequena cozinha da firma, mas Lúcia, estranhamente, não sentia dor ou qualquer sensação no braço atingido.

Largou rapidamente a leiteira que usara para ferver a água, retirou alguns cubos de gelo do congelador, enrolando-os num pano de prato, e comprimiu-os no antebraço. “Essa merda vai fazer bolha”, pensou, vendo que a região havia ficado bastante vermelha, incluindo a pequena estrela tatuada no pulso. Estranhou que, embora pudesse notar a presença do gelo ali, não sentia o frio dele, apenas sua textura lisa e escorregadia. Não disse nada à amiga para não preocupá-la. Verdade seja dita, não falou nada, pois sabia que, do jeito que era, a obrigaria a ir no médico na mesma hora, algo que não estava disposta a fazer.

O jeito era voltar aos relatórios de auditoria da firma e ver isso depois. Sua rotina era entediante e, muitos diriam, massacrante, mas que, para ela, estava longe de ser necessariamente um fardo. Entregava-se ao automatismo das tarefas mais corriqueiras a fim de desobrigar-se de prender-se a pensamentos e problemas mais complexos. Sempre havia sido assim, muito antes daqueles 19 anos recém-completados, mas que, para ela, pareciam ser pelo menos três vezes mais. Bom, pregou um bandaid no braço e tocou a vida.

Mas quem era Lúcia? Ruiva recém-convertida, pele morena de canela e olhos negros curiosos, uma garota que você esbarraria no metrô a caminho de casa, ou que conversaria distraidamente na fila do banco. Garota comum, de sonhos comuns, tristezas comuns e aspirações comuns. Mas por que então Lúcia figuraria nesta história? É que coisas surpreendentes acontecem justamente com as pessoas mais comuns e, aparentemente triviais. Ou então, o contrário, poderíamos dizer ainda que ninguém é comum, como vamos ver em seguida.

Imersa em relatórios, números e tabelas, Lúcia nem se dera conta que o horário do almoço há muito havia se passado. Percebeu tão apenas aquele ronco no estômago, que a fez se levantar e preparar um pequeno lanche antes de voltar à labuta. O braço queimado, que percebia já pequenas bolhas se formando, tampouco doía. Começava a se intrigar de verdade, mas resolveu não fazer nada a princípio.

O dia seguinte transcorreu quase normalmente, tirando a fome que deixara definitivamente de sentir. Ao dormir, porém, naquele tradicional momento de reflexão e balanço do dia, intrigou-se com mais uma coisa. Algo deveras banal, claro, mas que naquele contexto parecera-lhe estranho. Um encontro desmarcado, nada demais. Há um certo tempo estava de olho no rapaz. Contou os dias que precisou tomar coragem antes de falar com ele pela primeira vez. Um assunto qualquer que, esperava, pudesse deslanchar uma conversa. “Nossa, que calor, não? Que sotaque bonito, de onde é?”. O rapaz pareceu, enfim, notar sua existência e, após um tempo, tomava ele próprio a iniciativa de conversar. Até que marcaram um primeiro encontro, um despretensioso café que ocorreria aquela noite. Pois bem, o aviso veio pelo whatsapp. Não poderia ir já que teria surgido um problema familiar inesperado. Uma desculpa para justificar um recuo? Não sabia, fato é que, percebia agora, não ficara frustrada ou triste, como normalmente ficaria. Só percebeu  a indiferença de sua reação naquele momento, e adormeceu.

Foi num momento rápido de distração no trabalho que se deu conta. Entre papeis e relatórios, caiu em si de que não sentia mais nada. Não era apenas a dor ou o frio que não era capaz mais de sentir, mas as emoções mais básicas como frustração, tristeza ou alegria. Era como se o automatismo do trabalho tivesse se apossado de sua alma e, agora, respondia mecanicamente a estímulos sem maiores consequências. Sim, era isso. Ela, Lúcia, uma garota como tantas outras com suas dores, alegrias, frustrações e medos, não sentia mais. Era como se algo dentro dela, alguma chave, tivesse sido abruptamente desligada. Uma anestesia profunda que penetrava em suas vísceras e escorregava pela alma, ou o que quer tenha ali no lugar da alma.

No dia seguinte passou no posto de saúde antes de ir ao trabalho. Relatou ao clínico geral o episódio do café, do gelo, a fome que não sentia mais. O doutor tomou seu pulso, sua pressão, ouviu seu batimento cardíaco, verificou os reflexos do joelho, olhou por dentro de seu ouvido e apalpou o fundo da língua com uma paleta de madeira, mandando-a dizer “ahhhhh”, abrindo bem a boca. “Olha, aparentemente está tudo normal, mas vamos ter que fazer alguns exames”, disse, enquanto fazia anotações em sua prancheta.

_Mas doutor é que…

Lúcia deteve-se. Por algum motivo, não falou sobre sua real condição.

_Mais alguma coisa, Lúcia?

_Não, não, doutor.

_Bem, temos que fazer mais exames, mas pode ser um quadro de estresse ou ansiedade, leve essas guias e depois marcamos um retorno.

Pegou as guias de qualquer jeito, enfiou-as na bolsa e despediu-se rapidamente do médico.

Lúcia saiu de lá com a certeza que não mais voltaria. Ali, naquele consultório, havia percebido algo a mais. Sentia-se, pela primeira vez na vida, verdadeiramente livre. E aquilo não era ruim.

Devir

Quase se arrependia daquela caminhada quando enxergou o lago naquele final de tarde de primavera. A água, embora turva, refletia o ocaso do sol e compunha um cenário que talvez pudesse chamar de exuberante. Aproximou-se sorrateiro até encostar-se no tronco de uma árvore rente à borda. Deixou escapar um grunhido abafado de dor quando se abaixou, apoiando o braço direito nas costas. E pôde suspirar, enfim, aliviado quando finalmente encontrou uma posição confortável. Praguejou diante daquela situação que achava ridícula, e da sua condição deprimente, mas enfim, diabos, que vá tudo à merda, pensou.

As pernas fracas demoraram alguns minutos até pararem de tremer. Sentado na grama e apoiado no tronco, segurava as canelas finas singradas por veias saltadas. Respirou fundo tentando encontrar algum tipo de paz ou qualquer coisa que fosse parecida a isso. Ouvia o barulho das últimas crianças deixando o parque, o que lhe desviou a atenção. Teve um reflexo de praguejar mais uma vez, como era de costume, mas se deteve. Seus olhos se voltaram para as águas calmas do lago, e as lentas ondulações provocadas pelo vento, deformando o reflexo do sol em círculos concêntricos.

Imagens da infância irromperam em sua cabeça. Viu-se menino na fazenda em que fora criado, jogando pedras na lagoa lamacenta. Como se espantasse uma mosca inconveniente, repeliu tais lembranças intrometidas. Um velho pensando na vida à beira de um lago, pensou, é uma imagem um tanto ridícula. Mas como uma mosca insistente, esses pensamentos voltavam e pousavam em sua testa. Isso se tornava comum a essa altura da vida. Como um flashback, passou a ver a vida como um álbum de fotos. A formatura, o primeiro casamento, o primeiro filho. Tivera uma vida boa, poderia dizer? Certamente, não teria vergonha ou hesitação em responder. Tampouco ninguém poderia negar. Teve seus amores, arroubos de juventude, uma união até certo ponto feliz, e filhos bons, que lhe deram netos bons.

A vida profissional também não ficaria atrás. Sempre fazia questão de lembrar, primeiro aos filhos e depois aos netos, sobre como cresceu na empresa, sempre por méritos próprios e sem o famoso QI, ressaltava sempre. O trabalho enaltece o homem, era seu lema, embora a essa altura talvez já não acreditasse nisso com a mesma convicção. Aposentou-se com honras e com um sentimento de dever cumprido. Tivera uma vida boa? Claro, sem dúvidas. Mas a mosca demorava em sua fronte, e ameaçava picá-lo. E… os sonhos?

Em toda a vida, seus sonhos não couberam naquele padrão. Cada contingência concreta da vida adulta fazia ruir um de seus tijolos. Quando deu por si, já não havia mais nada. Arrependimentos? Evidente. É cínico e desonesto quem diz não tê-los. Crescem na proporção em que os sonhos ruem. É a vida, pensou.

Durante um tempo, acreditou que os fardos fossem provações para o merecimento do paraíso no céu. Já em outra etapa, passou a crer no karma, e na retribuição de suas ações em vidas vindouras. Com certa maturidade, abandonou de vez o pensamento mágico e encarou de frente a completa descrença. Conformou-se com a ideia da finitude, sobretudo quando seu próprio corpo começava a dar sinais inequívocos disso. Não foi fácil ou tranquilo entender que, um dia como qualquer outro, dormiria para nunca mais despertar. Deixaria de existir como se nunca tivera existido. Sim, um belo dia, que não tardaria, iria morrer. Seu corpo apodreceria e se desintegraria e, algum tempo depois, não iria deixar mais qualquer vestígio. Remoeu a dura realidade que martelava em sua cabeça, mas, após um tempo, acabou aceitando de bom grado o destino. O que fazer? O tempo e o acaso são os senhores de tudo.

Uma outra ideia, então, passou a rondar zunindo sua cabeça. Uma ideia redentora, por certo. Morrendo, se desintegraria em moléculas, que voltariam à terra. Cada átomo que naquele momento compunha seu corpo senil voltaria à natureza e poderia, assim, ser qualquer coisa. Poderia ser aquela árvore em que se recostara. O lago que assistia a aurora. Poderia viajar e se tornar parte de um escritor que ainda não nasceu, um romancista que nunca fora, um maestro que sempre sonhou ser. Ou todos eles ao mesmo tempo. Não haveria mais consciência, claro, mas aquela simples possibilidade não deixava de ser um conforto. Talvez algo mais interessante que a imagem de um paraíso celestial habitado por anjos rechonchudos tocando harpa.

Aquela imagem o fez até mesmo esboçar um meio sorriso mal-humorado. O sol já havia se posto quando caiu em si. Sentiu a grama com a palma das mãos e arrancou um punhado do chão, misturado à terra. Apertou forte sentindo a textura dos grãos e do mato. Pela primeira vez na vida, sentia-se de fato integrado àquele lugar. Pela primeira vez, aquela sensação de estranhamento já não estava ali.

O som das cigarras dera início à sinfonia noturna. Tudo estava bem.

Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.

Um homem bom

Chegou apressado na repartição, bateu o ponto de forma atabalhoada e correu pra sua mesa. Estava 15 minutos atrasado e aquilo o perturbava. Não se lembrava da última vez que se atrasara nos vinte anos de serviço ali.  Estava pálido, mais que o normal, e o suor lhe escorria aos borbotões das têmporas, do pescoço, das axilas.

_Tá tudo bem Geraldo?_ Perguntou o chefe, demonstrando uma preocupação protocolar. _Claro, seu Almeida, tudo sob controle_ respondeu, esbaforido, enquanto ajeitava a papelada sobre a mesa_ só um pequeno contratempo no caminho, nada demais.

Colocou a mão sobre o abdome, inspirou profundamente e se concentrou na papelada. Não podia decepcionar seu Almeida. Não podia deixar que os colegas pensassem que era relapso ou omisso. Era preciso atender as expectativas, ainda que elas não fossem lá grandes coisas. Como sempre em sua vida.

Após uma hora, mais ou menos, conseguiu minimamente se secar, aparentando uma certa normalidade. Contudo, ofegava ainda e permanecia pálido. A hora do almoço se aproximava e os funcionários, como de hábito, postavam-se em frente ao relógio fazendo uma contagem regressiva mental.

_Não vai almoçar não, Geraldo?

_Estou sem fome, depois eu como um lanche, tenho algumas coisas atrasadas aqui.

Os colegas, ao se afastarem, comentavam. “Que diabos ele tem?” “Pelo jeito, é crise em casa.” ‘Nessa idade aí, não deve estar mais dando no couro e a patroa já partiu pra assistência.” “Cala a boca, não fala merda, conheço a mulher de Geraldo, vai à igreja todos os domingos.” “E isso lá significa alguma coisa?”. A polêmica durou exatos três minutos, inconclusa, já que ninguém tinha intimidade suficiente para questionar diretamente Geraldo.

Isolado em sua mesa, Geraldo cabisbaixo aguardava os minutos e as horas passarem. No interior daquela repartição, o tempo se arrastava como se os ponteiros do relógio estivessem congelados. Embora estivesse estranho aquele dia, não deixava de sorrir, complacente, e tentar parecer solícito. Precisava agradar a todos. Tinha essa necessidade. A simples ideia de contrariar quem quer que fosse lhe causava pânico, taquicardia, independente da hierarquia, do chefe à faxineira. Se lhe perguntassem alguma opinião sobre política ou futebol, tratava de analisar o inquiridor e respondia exatamente aquilo que achava que se esperava ouvir. Era capaz de dar uma resposta diametralmente oposto minutos depois a outra pessoa.

Prestes a bater seis da tarde, novamente o relógio era assistido pelos funcionários de bolsas e pastas em punho, prontos a arrancarem. Geraldo levantou-se vagarosamente, com a mão sob o abdome, e caminhou rumo à porta. Agora, mancava, mas apertou o passo preocupado em se atrasar para o jantar e iniciar uma discussão com a mulher. Algo que, evidentemente, o apavorava. Pegou o coletivo e saltou no ponto a duas quadras de casa, com passos desajeitados tentando compensar a dessincronização das pernas.

_Tudo bem, querido, como foi seu dia? Está mancando… Está tudo bem Geraldo?

_Sim, não foi nada não, logo passa, respondeu, não sendo mais questionado.

Sentou-se e comeu mecanicamente a janta, tentando transparecer o máximo de normalidade possível. Trocaram meia dúzia de palavras sobre o clima, o preço do supermercado e a filha da vizinha pega fumando maconha, de novo. Geraldo só suspirou, levantou-se e lavou a louça.

_Bom, vou deitar, hoje foi um dia duro e não posso me atrasar amanhã_ disse à esposa, que assistia a novela deitada no sofá.

(…)

A mulher acordou ao som do despertador. Virou-se para o lado e chamou o marido, encostando a mão em seu ombro. “Geraldo, você vai perder a hora, acorda”, disse sonolenta. Nada. Chacoalhou o companheiro, que permanecia inerte. Acendeu a luz do abajour e virou Geraldo de barriga pra cima, colocando a mão na boca pra conter um grito de terror. Geraldo, de olhos semiabertos, não mais respirava. Ergueu a mão que desde o dia anterior o marido recobria o abdome e encontrou uma mancha de sangue. Levantou a camisa e viu um corte profundo.

Em meio à perplexidade daquela cena, percebeu que Geraldo havia sido esfaqueado. Nunca se soube por quem ou em quais circunstâncias, num segredo que Geraldo levou junto a sua bondosa solicitude.

Enquanto eles dormem

Vamos fazer um jogo, ela disse, sentando-se do meu lado e cruzando as pernas, como costumava fazer quando se sentava no chão. O vestido amarelo coberto por pequenas flores – ou seriam cerejas? – vermelhas, deixando transparecer as canelas finas. Mas não escondia as curvas cada vez mais sinuosas que anunciavam seu tempo de mulher. O cheiro de alfazema – seria mesmo alfazema? – escapava de seu cabelo molhado e inundava o quarto escuro. Lá fora, todos dormiam.

Que jogo, respondi desconfiado, hesitando, esperando mais algumas de suas brincadeiras em que, invariavelmente, eu caía. Ela se aproximou mais ainda, a ponto de alguns fios de seus cabelos, longos cabelos negros, tocarem meu rosto. A ponto de poder sentir seu hálito quente e a sua respiração, a temperatura de seu rosto aumentando. Ficou parada na minha frente, olhando, perscrutando meu rosto como se o visse pela primeira vez. Notando com curiosidade e percorrendo cada traço dos meus olhos, nariz e boca.

Você vai ter que fechar os olhos, e não vai poder abrir aconteça o que acontecer – falou com decisão, de forma dura, fingindo uma severidade caricata. Continuava desconfiado, claro, tentando imaginar qual era a peça desta feita. Fiquei sentado no chão, apoiado na cama pensando em várias hipóteses do que ela poderia fazer. Me trancaria aqui de novo, como aquela vez, alguns anos atrás, em que nossos pais conversavam e fumavam no jardim, e que passei quase meia hora – ou teriam sido poucos minutos? –  aos berros, desesperado, tentando sair? Não tínhamos mais idade, pensei, e aquilo lhe valeu um mês de castigo, deve ter aprendido a lição. – Vamos lá, seu medroso – insistiu, apelando desta vez ao meu brio, tentando me desestabilizar, e conseguindo, como sempre conseguia.

Não respondi, apenas fechei os olhos e tentei me manter alerta, preparado para qualquer troça que pudesse ser vítima. A expectativa fez acelerar meu coração e minhas mão ficaram frias, como quando das provas de final de semestre. No escuro do quarto, apenas se ouvia, ao fundo, o ruído dos poucos carros que ainda passavam na rua de trás. Senti o hálito quente se aproximando e os fios molhados de seu cabelo tocando cada vez mais meu rosto, e, naqueles poucos segundos, todas as hipóteses aventadas na minha cabeça se esvaíram, junto ao medo – seria aquilo medo? – de alguma traquinagem infantil. Os batimentos cardíacos, porém, não arrefeceram e se aceleram, produzindo um fino fio de suor que escorregava pela minha têmpora direita.

Senti sua boca tocando a minha, o lábio levemente roçando e contornando o meu, antes de finalmente se encaixar num só movimento, o que fez que o entreabrisse, numa posição estática de consternação – ou seria simplesmente espanto? – antes dela pressioná-lo mais fortemente e colocar sua mão na minha nuca – mão macia como nunca havia reparado – alisando-o e fazendo com que todos meus pelos do corpo se arrepiassem como se uma corrente elétrica me atravessasse. Não tive tempo de concatenar qualquer tipo de pensamento enquanto sua boca abria a minha, e senti a ponta de sua língua, úmida e áspera, tocar meu lábio e a própria língua, num movimento lento e suave, conquistando cada vez mais espaço e desbravando aqueles cantos e lugares recônditos.

Afastou-se então e percebi que havia algum tempo que não respirava, quando dei um suspiro profundo. Notei meu lábio molhado e imaginei, no escuro, que ela me fitava, sentia sua respiração calma e a temperatura da sua pele. Lá fora – haveria ainda um mundo lá fora, e os carros, as pessoas, a escola? – todos dormiam. E algo, dentro de mim, despertava.

Vício

Tirou cuidadosamente o esparadrapo do dedo da mão direita. Alinhou o alfinete com a esquerda e introduziu, lentamente, sua ponta por debaixo da unha. A dor fina, aguda, veio acompanhada de um filete de sangue. Um estremecimento profundo emanou da mão para o braço, percorrendo todo o corpo. Chupou o sangue e recolocou o esparadrapo.

Já estava convencido. Havia se viciado na dor. Todos os dias, procurava alguma forma de provocar um novo impulso diferente dos nervos ao córtex e ao hipotálamo. A blusa cobria os cortes alinhados nos braços. As mesmas marcas que ostentava na parte superior das coxas. Como todo viciado, porém, precisava de mais.

A descoberta veio por acaso. O tênis apertado lhe machucava o pé direito a ponto de formar uma bolha. A princípio um pequeno incômodo, mas que poucos dias depois já se transformava numa ferida que manchava as meias de sangue. Percebeu, no entanto, que não tomara nenhuma providência não por desleixo, como pensava. Estranhou quando se deu conta que, na verdade, gostava daquela sensação.

Não era adepto de práticas sadomasoquistas, como alguns poderiam pensar. Tinha aversão a tudo aquilo. Seu prazer não era de forma alguma sexual. Era uma espécie de alívio físico, como coçar uma picada de mosquito. Mas dez, cem, vezes mais intenso. Sentia-se bem, vivo, aliviado com a dor. E não queria que parasse.

As feridas crescentes, porém, o preocupavam. Era obrigado agora a usar manga comprida no sol e calor do verão. E arrumar desculpas para os curativos nas mãos. Decidiu, enfim, procurar ajuda. Descobriu na Internet um grupo de pessoas que, como ele, eram viciadas em dor. Uma espécie de sofredores anônimos. Reuniam-se nas noites de quarta numa pequena sala nos fundos de uma igreja do centro da cidade.

Chegou ao local bem no horário da reunião, cálculo para evitar maiores constrangimentos. Todos já estavam acomodados, sentados em círculo nas modestas cadeiras de madeira. Teve pouco tempo para estudar as 15 pessoas que o cercavam, mas percebeu que alguns usavam terno. Outros vestiam apenas uma camisa social genérica, enquanto dois ou três trajavam camisetas surradas. Notou também algumas mulheres, talvez quatro, e um adolescente. As mulheres também diferiam entre si, uma idosa, outra na casa dos quarenta e as outras duas um pouco mais moças, bem parecidas entre si, talvez irmãs.

A primeira impressão é que estava diante de um grupo eclético, tanto em relação à faixa etária quanto a classe social. Compartilhavam, porém, uma estranha característica: pequenos curativos nos dedos e braços. Pelo menos um deles tinha hematomas bem visíveis no rosto.

Explicaram-lhe que, como de praxe, ele iniciaria a reunião com um depoimento pessoal. Tudo bem, respondeu.

_Boa noite a todos, meu nome é…

_Seja bem-vindo… Responderam num coro copioso.

Relatou de forma breve a sua angústia. Como estava naquele grupo, achou por bem carregar no drama e nas dificuldades que o vício lhe trouxera. Disse ainda ser aquilo uma aberração, que tinha vergonha de procurar um médico e o tacharem de louco. E, por fim, que esperava se livrar disso o quanto antes. Tentando parecer simpático, agradeceu a acolhida.

O homem que o recebera, um sujeito dos seus cinquenta anos, calvo, de camisa pólo azul e óculos de aro fino, levantou-se então e o tocou de forma gentil nos ombros.

_Meu filho, se você quiser parar com isso, lamento dizer que aqui não é o lugar – Pronunciava as palavras de forma calma e tranquila, enquanto falava de pé, ao seu lado.

_Como assim? Vocês não vão me ajudar? Por quê?

Transparecia certo transtorno e nervosismo, a tal ponto que gaguejava ou comia as sílabas, como costumava fazer quando nervoso.

_Vou te explicar, tenha calma. Quando os primeiros de nós começaram a se reunir, tínhamos esse objetivo de superar o nosso vício. Fizemos de tudo e, acredite meu rapaz, quando eu digo de tudo, quero dizer de tudo mesmo.

Ouvia aquilo em silêncio, mas com a expressão de contrariedade ainda marcada no rosto.

_Chegamos então à conclusão que a única coisa que podíamos fazer era aprender a nos aceitar como somos e viver da melhor forma com isso. Tentarmos não nos matar, por exemplo, enfim, administrar esse nosso vício.

_Mas isso é loucura! – explodiu, consternado – Isso não é normal, não podemos viver assim!

Todos assistiam àquela cena em silêncio, alguns até mexiam no celular, como se nada demais estivesse acontecendo. Como se já tivessem assistido muitas vezes e aquele tipo de reação fosse absolutamente previsível.

_Meu caro, e o que é normal? Nós gostamos da dor? Sim, gostamos. A buscamos todos os dias da nossa vida, pra aliviar algo que existe e pulsa dentro do peito? Sim, claro. Mas isso é diferente do que as outras pessoas fazem? Olhe as pessoas ao seu redor, no seu emprego ou na sua família. Você mesmo vai me dizer que nunca se envolveu com alguém sabendo que daria errado, que seria uma catástrofe, enfim, sabendo que iria, de alguma forma, sofrer?

Não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Mas também não conseguia articular palavras para responder ou argumentar do contrário. Apenas balançava a cabeça tentando demonstrar uma indignação inverossímil. Mais para si próprio, talvez, que para a plateia.

_Por que o drama, no cinema ou no teatro, faz sucesso? Por que as pessoas pagam pra sentir aquilo que seria, por definição, desagradável? Por que ouvimos música pra chorar? As pessoas ditas normais sentem a mesma coisa que nós aqui sentimos dentro do peito e todos buscam alguma catarse. A humanidade, meu rapaz, é viciada na dor.

Num rompante, levantou-se de forma brusca da cadeira e, sem dizer nada, caminhou em direção à porta. Ao sair notou a expressão irritante de normalidade do grupo. Pensou ter visto até uma das mulheres bocejando discretamente. Bando de malucos, pensou, antes de ganhar as ruas.

Na quarta-feira seguinte, foi um dos primeiros a chegar.

Gênero

“Você é gay?”, ela me pergunta de supetão, virando-se pra mim da cadeira do computador, com um certo ar inquisidor. Confesso que não esperava esse tipo de pergunta. Sei que talvez não me encaixe exatamente no estereótipo de masculinidade, mas tampouco já dei mostras do contrário. Não que seja homofóbico, muito pelo contrário, mas aquela pergunta, sem mais nem menos, me intrigou.

“Por que diabos está me perguntando isso?”, devolvi à namorada, tomando o cuidado de não parecer muito ofensivo. Olho para a tela do notebook e percebo então um de meus textos abertos num arquivo de Word. Era uma espécie de carta de amor a um garoto, uma declaração na verdade, em que a personagem abre seus sentimentos e divaga sobre a definição dessa palavra tão banalizada e ao mesmo tempo tão incompreendida nos dias de hoje. Um gancho para uma reflexão sobre o amor, um texto tão clichê quanto isso. O conto, assim como inúmeros outros, jazia perdido e esquecido em alguma pasta aleatória do computador. Inacabado, como a maioria dos que o acompanhavam.

“Não, meu amor, estava escrevendo uma estória, um tipo de conto, em que a personagem, o eu-lírico digamos assim, é uma garota, e ela escreve uma carta a um menino pelo qual está apaixonada”. Ela olha o texto, franze a testa e aperta os olhinhos como sempre fazia quando se sentia contrariada. “Mas você é homem!”, dispara então, aparentemente não aceitando tão prosaica explicação. “Sim, mas é um exercício de imaginação, entende? A gente imagina ser uma garota, cria uma personagem na cabeça e, a partir dela, escreve o que seria uma carta a um pretende, e vai desenvolvendo o tema”.

Percebendo seus olhinhos ainda confusos me fitando, tento achar algum exemplo mais próximo de sua realidade. “Tipo chico Buarque, sabe? Você adora ele não? Lembra de ‘Olhos nos Olhos’ ou ‘Com açúcar e com afeto’? É como se ele fosse uma mulher cantando sobre um homem, é um personagem que ele inventou na cabeça”.

Percebo que a explicação agora surtira efeito, pois seu rosto se descontrai um pouco. Porém, é evidente que ela ainda não se deu por satisfeita. Após alguns instantes de reflexão, com a mão no queixo, sentencia: “Mas você não é o Chico Buarque!”.

“Eu sei, meu bem, eu sei”.