Outono de mim

E eu que me achava tão forte a ponto de debochar dos dramas alheios, enfim, tombei. E foi uma bela queda. Não sem avisos, por certo, como um carro acelerado rumo ao precipício, mas que você só consegue enxergar o azul do céu e as folhas despencando no ritual eterno do outono.

Não foi preciso nenhum aviso formal, nem ao menos um lacônico zap. Seus olhos já falavam o que viria. O outono estava em seus olhos, como as folhas secas e desbotadas, prenunciando um inverno rigoroso.

E eu, que sempre desprezei as metáforas, sobretudo as mais óbvias, vi o outono em seus olhos. E eu, que sempre recusei os clichês mais triviais, quando dei por mim estava em um, vendo o riso fazendo-se o pranto, “silencioso e branco como a bruma”. Não mais que de repente.

E eu, que sempre tentei ser tão racional, até mesmo nas instâncias que inevitavelmente escapam de qualquer racionalidade, não mais conseguia encaixar sentimentos e impulsos em fórmulas e geometrias. Sim, de repente, e não mais que de repente, estava só.

A verdade era que não estava só, porém, e isso é o pior. Eu, que sempre me omiti em encarar os problemas e dificuldades de frente, tive de admitir. Seu cheiro ainda me impregnava os poros, sua saliva ainda estava em minha boca e os fios de seus cabelos entrelaçavam-se ainda em meus dedos. Seu sorriso queimado como uma chapa na minha retina. Sua voz ecoando em meu ouvido. E eu, que sempre tentei evitar tal palavra, tão distorcida, banalizada e, no meu ponto de vista, tão subjetiva, disse que a amava.

Mas já era outono e as flores se ressequiam junto às folhas. Eu, que nunca tive dúvidas de quem era, questiono-me quem está a escrever estas linhas. Sim, meu documento está aqui ao lado, com uma série de números e uma foto antiga. Mas ele não diz quem eu sou. Se o que somos é o resultado complexo do conjunto de nossas experiências, vivências e impressões, e se nos construímos durante um tempo ao lado de alguém, transformamo-nos, não “numa só carne”, mas em duas pessoas diferentes, simbioticamente distintas. Agora, voltando a mim, percebo que não sou mais o eu de antes, e que nunca voltarei a ser.

E eu, que sempre odiei sensacionalismo sentimentalista barato, sinto-me amputado daquilo que mais amava. Amputado porque era parte de mim, e agora restam reminiscências tão somente, uma vaga lembrança e, sobretudo, a dor dilacerante do corte.

Eu, sempre tão fechado e instrospectivo, nunca pensei que escreveria isso. E eu, cujo orgulho e vaidade nunca foram meus fortes, sinto-me traído por esse “eu”, e a única possibilidade que deslumbro é a sua simples supressão. Eu, que sempre carreguei esse eu, terei que matar o eu antes que o inverno finalmente chegue.

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Um comentário em “Outono de mim

  1. Provavelmente é precoce para avisar, mas um dia, é primavera outra vez.

    E a gente reabre as janelas da vida!

    (abraços virtuais – se precisar, companhia também)

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