Fogos de artifício

_Acorda! Acorda, Tião!

As imagens de sua mãe rodeada pelos irmãos pequenos na frente do barraco se desvaneceram. Tentou ainda lutar para fixar aquele sonho na memória, mas em vão. Quando abriu os olhos, já havia percebido que sua mãe não estava ali, nem em nenhum outro lugar.

_Que foi mulher, oxe! – respondeu irritado, abanando a mão.

_Não tá vendo essa fumaça? Levanta daí, vamos morrer!

Permaneceu ainda, por uns tantos segundos, alheio ao que ocorria. Apertou os olhos, esfregou, ameaçando um meio bocejo. Lentamente, tomava consciência do pandemônio à sua volta. Uma nuvem negra espessa tomava conta do teto e se expandia, em meio a gritos e falas desencontradas pelo corredor. O calor ardia na cara como nos dias quentes em que empurrava o carrinho pelas ruas do centro. Percebeu, enfim, o que acontecia.

_Pega o menino, mulher, pega lá, vamos descer.

A mulher tomou a criança do berço improvisado de papelão, apertando-a forte contra o peito. Não chorava embora acordada, apenas espreitava com os olhos arregalados aquele estranho mundo que ainda descobria e tentava entender.

_Pega os documentos Tião, não dá mais tempo de nada.

A nuvem espessa já tomara conta daquele pequeno espaço, tentando invadir furiosamente os olhos, o nariz e a garganta. Apenas de shorts, Tião abre o gaveteiro de plástico postado ao lado do colchão e apanha um pequeno embrulho de sacola plástica com propaganda de supermercado. Olha para a TV de 20 polegadas de tubo e tem um momento de hesitação. Menos pelo que teve que fazer para conseguir comprá-la na feira do rolo do que pelas lembranças que ela lhe trazia. A última do Corinthians campeão, quando chegou a rezar e colocar um copo de água em cima do aparelho, prometendo não beber por um mês caso o timão ganhasse aquela. Cumpriu, ou quase. Mas, como o sonho do sono interrompido, foi obrigado a encarar a realidade.

_Vamo bora, bora, bora – gritou.

A mulher enrolava a cabeça da criança com um pano úmido, branco, enquanto lutava para calçar as sandálias. Tião pega o embrulho, desiste de colocar alguma das camisetas jogadas pelo chão e, do mesmo jeito que levantou, envolve os braços nos ombros da mulher.

_Tião, o Chano!

_Não dá tempo, bora, bora!

Ela não se moveu, apenas o olhou com os olhos de água e vermelhos pela fumaça, sem dizer nada. Ele entendeu.

_Vai indo, desce lá, vou pegar ele.

_Não…

Entregou a mulher e o bebê a uma senhora que descia correndo a escada, e voltou ao cômodo tampando o rosto com uma das mãos.

Não gostava desse nome: “Chano”, de “bichano”, mas já se acostumara a ele. Encontraram-no ali mesmo no prédio no dia em que chegaram. De uma ninhada abandonada, magro com os ossinhos quase rompendo os parcos pêlos, parecia já conformado com o triste destino quando eles chegaram. Logo se recuperou, engordando com a vida boa de bicho. Até o bebê nascer, era o único a dividir o cômodo com o casal. Testemunhara tantos momentos naquele espaço que já era parte daquele mundo.

Quando chegou a criança, costumava dormir enrolado ao seu lado, velando seu sono dividindo o berço.

_Onde cê tá Chano! Caralho Chano!

Nada. Vasculhava os papelões, as roupas, as panelas em cima dos tijolos. Ouviu então os primeiros estrondos ensurdecedores que fizeram as estruturas estremecerem. Até que conseguiu ver, no cantinho do cubículo, uma diminuta sombra encolhida. Correu para lá, tirou algumas sacolas e jornais e achou seu amigo peludo. Tremia. Tentou pegá-lo, mas foi arranhado com força. Não consegui ver, mas sentiu o braço rasgar. Com as duas mãos, segurou forte o bicho e o abraçou para que não escapasse mais.

A fumaça negra naquele momento dava lugar às labaredas que invadiam, pelo teto, o cubículo. O corpo todo ardia. Os estrondos se sucediam como bombas num filme de guerra. Como quando o Corinthians ganhou o campeonato. Como quando fora despejado da última vez pela polícia. À sua frente só havia uma parede flamejante engolindo tudo à sua volta. Chano não tremia mais. Apertou-o contra o rosto e sentiu sua pelugem macia e quente.

_Tá tudo bem Chano, tá tudo bem.

Lá fora as chamas saltavam como grandes fogos de artifícios em meio aos arranha-céus da cidade.

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