Pesadilla

 

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os fios de cabelo que se pregavam como algas em meu rosto. Inclinei a cabeça para frente e tentei relaxar o corpo teso. Mexi levemente as pontas dos meus dedos num movimento contínuo, sentindo em suas pontas a textura áspera do cobertor. Pela janela do meu quarto, uma fresta da persiana deixava escapar dois fios luminosos de claridade. Já era dia.

Empreendi um esforço considerável para levantar. Encostei os pés no chão frio do taco envelhecido do quarto, firmei a planta do calcanhar neles e pendi para frente. Um corpo suspenso no ar, ancorado por pés frágeis e cambaleantes. Forcei os olhos no quarto escuro, tentando identificar aquele lugar. Observei o criado mudo empoeirado, por sobre o qual repousava um velho retrato. Seria eu ali, embaixo daquela camada de poeira? Passei a mão e descobri metade da fotografia, revelando um homem de sorriso aberto, de uma alegria um tanto triste ou forçada talvez. Era eu, mas não era eu. Virei para baixo.

Caminhei em direção à sala e tropecei sobre a garrafa vazia jogada no chão. Escorei-me na parede para não perder o equilíbrio, em vão. Escorreguei lentamente. O pó cinza entrava em minhas narinas e decidi que seria uma boa ideia permanecer por ali por um tempo. Minhas mãos apalparam um pedaço de papel amassado, peguei-o postando à minha frente, tentando focá-lo numa das frestas que entravam pela janela. Meu boletim da sétima série, logo reconheci as notas. Quanto potencial, sorri sarcasticamente em pensamento.

Ouvi um ruído na sala, um rangido de sofá. Decidi levantar, o que fiz lentamente. A passos lentos, entro na sala franzindo a testa e cerrando os olhos por conta da luz que transbordava da janela. Ainda assim, a penumbra tomava conta de boa parte do cômodo. A poeira suspensa parecia uma densa neblina. Sentado sobre a poltrona, um velho senhor olhava para baixo, indiferente, como se matutasse algo. De chapeu cinza, camisa branca, calça social e sapatos carcomidos. Minha presença não pareceu incomodá-lo.

Quando percebeu que estava ali, levantou-se apoiado na bengala, apalpou a poeira da calça e me estendeu a mão direita. Apertei, sentindo sua pele fria e rugosa. Ele se virou e, sem dizer qualquer coisa, abriu a porta, postando-se ao lado para me dar passagem. A claridade de fora iluminou seu rosto, explicitando profundos sulcos morenos e finos fios brancos  despontando do queixo. Reconheci meu avô.

Caminhei em direção à porta e, antes de atravessá-la, olhei ao meu redor como se me despedisse. A velha TV recoberta por um véu alvo de teias empoeiradas. Os livros amarelados jaziam sobre o chão. No canto, três frascos abertos quase passavam desapercebidos, com alguns comprimidos vermelhos quase se integrando os tacos de madeira.

Dou um passo à frente e, sob os olhos do velho, atravesso a porta. Estava voltando para casa.

Abri os olhos após um longo pesadelo. Gotas de suor escorriam pelas minhas têmporas, grudando os cabelos à minha fronte.

Abri os olhos após um longo pesadelo.

Abri os olhos.

Longo pesadelo.

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