O homem ordinário

 
Desde que se entendia por gente, não aceitava as imposições da vida cotidiana.

Considerava-se, por algum motivo, especial. Alguém que se sobreporia de alguma forma aos demais. De que forma? Não lhe importava. Recusava simplesmente a ideia de ser mais um na multidão. Um mero coadjuvante da vida ordinária. Pensar nessa ideia causava mais que desgosto, era tomado por um pânico incontrolável.

Quando criança sonhava em ser astronauta ou jogador de futebol, como a maioria das crianças. Já adolescente, o peso da realidade começou a se fazer presente de forma cada vez mais opressora. Voltar do colégio todo o dia no ônibus, espremido entre tanta gente, um pontinho insignificante na massa, era algo que o atormentava.

Tentou a religião.

_”José, Deus tem um grande plano para a sua vida”. Sim, e além de tudo chamava-se José. As palavras do pastor embalaram seus pensamentos durante algum tempo, mas não foram suficientes. Sobretudo quando se deu conta que ele falava aquilo para todo mundo.

Tentou o budismo e animou-se quando lhe falaram que todo ser humano é um universo. Mas a ideia de suprimir seu próprio ego e fundir-se à natureza o repeliu. Como ele, alguém tão especial, poderia anular-se e renunciar a seu próprio “eu”? Tentou até o espiritismo, quando se dedicou com verdadeiro afinco às ações de caridade. Seria um espírito evoluído contando inúmeros pontos no score do carma. Mas o reconhecimento, para José, deveria vir nessa vida, não em futuras reencarnações. Não podia esperar.

Evidentemente, não teve melhor sorte com as garotas. Nenhuma parecia estar à sua altura. E elas, por sua vez, não se esforçavam muito para parecer o contrário.

A chegada da vida adulta, ao contrário do que poderia parecer, não lhe trouxe perspectivas mais realistas. Aprofundou sua ilusão ainda mais. José seria grande. Seria reconhecido. Deixaria um importante legado ao mundo, quer qual fosse ele. Era isso o que dava forças para que se levantasse todos os dias de manhã.

Se a trivialidade da realidade cotidiana não resolvia suas contradições, porém, sua cabeça o fazia. A vida no escritório, em sua mente, tornara-se apenas uma fachada. Convencera-se de que era um agente especial, uma espécie de espião do serviço secreto à espera de alguma missão, a missão de sua vida. Sim, isso he fazia sentido, muito mais que acordar todos os dias às 5h da manhã para aquela baia claustrofóbica ao lado de estranhos que sequer sabiam seu nome.

Como chegou ao psiquiatra? Traído pelo orgulho, claro. Numa conversa besta durante o café aproximou-se de um grupo de colegas, que o cumprimentaram olhando seu crachá. Um deles gabava-se da promoção que acabara de receber. Promoção importante. José notou o olhar de admiração dos outros em relação ao funcionário premiado. Ainda tentou resistir, segurou-se, um ponto de suor brotou-se na têmpora. Mas não deu.

_Parabéns pela sua promoção! Eu, por minha vez, nunca vou receber uma promoção, e vocês nem podem imaginar o porquê.

Em seu rompante, não notou os olhares de espanto que o fitavam. José, sempre tão quieto e indiferente, falava quase gritando. Quando terminou, seus colegas se entreolhavam tentando entender o que acontecia.

_Na verdade, e que isso não saia daqui, eu não sou um funcionário como vocês. Sou um agente secreto e tenho me preparado a vida inteira pra minha missão – cochichou aos colegas, encostando as mãos em seus ombros e falando quase colado aos seus ouvidos.

No dia seguinte, foi chamado à sala do chefe-diretor. Ouviu que se não conversasse com o psicólogo da empresa, seria demitido. A fim de evitar qualquer tipo de constrangimento, seu superior nem ao menos explicou o motivo e nem disse o que lhe confidenciaram seus colegas. Apenas informou sua determinação e lhe desejou um bom dia.

E agora, José? Repreendeu-se por ter colocado seu disfarce em perigo por mera vaidade. Mas não havia como escapar, marcou o horário com o psicólogo e no dia seguinte lá estava.

A conversa foi cordial. O psicólogo era gentil e atencioso. Perguntou-lhe como estava, se se sentia frustrado na empresa ou em sua vida pessoal, se sua saúde estava bem. José sabia o que aquele homem queria ouvir e o que ele deveria falar. E assim o fez. Se estava tudo bem? Sim, claro que às vezes não se sentia tão bem, ficava entediado, mas que isso era normal, sobretudo em meio a uma rotina tão repetitiva, mas que em geral sentia-se satisfeito com seu trabalho e a sua vida pessoal, que não tinha, mas isso não precisava contar.

Ao se despedir, uma frase enigmática do doutor:

_José, você sabem quem você é.

Saiu da consulta com um sentimento de dever cumprido. Preservara sua verdadeira identidade e mantinha a missão segura.

Mas algo ali aconteceu. Não sabia explicar o que, mas sentia que as coisas não estavam como antes. “Sim, eu sei quem eu sou”, repetia como um mantra todos os dias ao acordar. Mas, pela primeira vez em muitos anos, sentiu um certo vazio que não podia entender. Sentiu-se abandonado, não pelas pessoas que nunca o tiveram por perto, mas pela vida, ou o destino, ou que merda fosse aquilo.

Enfim, os dias pesaram-lhe na existência. Colocou em dúvida seu caráter e pensou se não seria só mais um José dentre tantos outros. Não aceitaria isso, simplesmente não aceitaria.

E agora, José?

José acordou naquela véspera de Natal, colocou sua camisa social alinhada e bem passada, seus sapatos e a maleta preta e, com passos confiantes, caminhou rumo ao prédio do escritório. Trabalhou como todos os dias, trocou meia dúzia de palavras com o pessoal, coisas sobre o tempo e a crise econômica. Pouco antes do final do expediente, tomou o elevador que ficava do lado da mesa do café, e subiu à cobertura do prédio.

Olhou para baixo e pode ver as luzes dos carros piscando. Todos haveriam de saber o seu nome. Fechou os olhos e pulou de braços abertos. Estatelou-se em cima de um Monza azul.

Aquilo causou um certo rebuliço na avenida e entre o pessoal do prédio cuja maioria não sabia quem era José. Mas foi resolvido rapidamente e pouco tempo depois o trânsito já era liberado e o pessoal do escritório passava a noite de Natal com suas respectivas famílias.

No dia seguinte, a notícia ocupava uma discreta notinha na parte de cotidiano. “Funcionário morre na véspera de Natal”. Sem o nome de José ou maiores detalhes do ocorrido. Dizem que por ordens superiores.

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