Samsara

Tomou aquele café amargo num só gole. O líquido preto, fervente, desceu queimando a faringe. Uma corrente elétrica percorreu-lhe o corpo. Levantou então a cabeça e inspirou, inflando os pulmões com o ar fresco daquela manhã fria de inverno. Sob a mesa à sua frente jaziam as contas vencidas, o velho celular inquieto e todas as suas preocupações.

Uma estranha calma pairava sobre a cidade. Um silêncio sepulcral que podia se ouvir por debaixo das conversas da lanchonete, do ruído dos carros e do incessante alarme que tantas vezes amaldiçoara. Tudo lhe era alheio e ao mesmo tempo mais próximo que nunca.

_O senhor está bem?

A atendente perguntava com um ar sincero de preocupação, inclinando-se para averiguar de perto sua fisionomia. Por certo, estranhando a demora em terminar aquela xícara de café. Por certo ainda, temerosa em liberar lugar para novos clientes.

_Estou sim, claro, obrigado.

Levantou-se calmamente da cadeira, deixando uma nota sobre a mesa. Guardou o celular trêmulo no bolso junto às contas amassadas num só bolo de papel.

_ Na verdade, dona, acabei de morrer logo ali, disse, apontando seu lugar na cadeira. Mas estou ótimo.

Afastou-se a passos ligeiros deixando a atendente com um olhar atônito balançando a cabeça em sinal de desaprovação. De fato, havia morrido algo nele ali naquele momento.

E de fato, sentia-se ótimo.

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