Primeira nobre verdade

_Você está louca, Lúcia?

A princípio não entendeu aquele grito reprovador da amiga bem ao seu lado. A confusão, porém, durou apenas poucos segundos, até se dar conta do braço por cima do fogo alto do fogão. Pegava a água que deixara fervendo para passar o café e, distraída, não se deu conta que havia esquecido de apagar o fogo. O cheiro característico de pele e pêlos queimado se espalhava pela pequena cozinha da firma, mas Lúcia, estranhamente, não sentia dor ou qualquer sensação no braço atingido.

Largou rapidamente a leiteira que usara para ferver a água, retirou alguns cubos de gelo do congelador, enrolando-os num pano de prato, e comprimiu-os no antebraço. “Essa merda vai fazer bolha”, pensou, vendo que a região havia ficado bastante vermelha, incluindo a pequena estrela tatuada no pulso. Estranhou que, embora pudesse notar a presença do gelo ali, não sentia o frio dele, apenas sua textura lisa e escorregadia. Não disse nada à amiga para não preocupá-la. Verdade seja dita, não falou nada, pois sabia que, do jeito que era, a obrigaria a ir no médico na mesma hora, algo que não estava disposta a fazer.

O jeito era voltar aos relatórios de auditoria da firma e ver isso depois. Sua rotina era entediante e, muitos diriam, massacrante, mas que, para ela, estava longe de ser necessariamente um fardo. Entregava-se ao automatismo das tarefas mais corriqueiras a fim de desobrigar-se de prender-se a pensamentos e problemas mais complexos. Sempre havia sido assim, muito antes daqueles 19 anos recém-completados, mas que, para ela, pareciam ser pelo menos três vezes mais. Bom, pregou um bandaid no braço e tocou a vida.

Mas quem era Lúcia? Ruiva recém-convertida, pele morena de canela e olhos negros curiosos, uma garota que você esbarraria no metrô a caminho de casa, ou que conversaria distraidamente na fila do banco. Garota comum, de sonhos comuns, tristezas comuns e aspirações comuns. Mas por que então Lúcia figuraria nesta história? É que coisas surpreendentes acontecem justamente com as pessoas mais comuns e, aparentemente triviais. Ou então, o contrário, poderíamos dizer ainda que ninguém é comum, como vamos ver em seguida.

Imersa em relatórios, números e tabelas, Lúcia nem se dera conta que o horário do almoço há muito havia se passado. Percebeu tão apenas aquele ronco no estômago, que a fez se levantar e preparar um pequeno lanche antes de voltar à labuta. O braço queimado, que percebia já pequenas bolhas se formando, tampouco doía. Começava a se intrigar de verdade, mas resolveu não fazer nada a princípio.

O dia seguinte transcorreu quase normalmente, tirando a fome que deixara definitivamente de sentir. Ao dormir, porém, naquele tradicional momento de reflexão e balanço do dia, intrigou-se com mais uma coisa. Algo deveras banal, claro, mas que naquele contexto parecera-lhe estranho. Um encontro desmarcado, nada demais. Há um certo tempo estava de olho no rapaz. Contou os dias que precisou tomar coragem antes de falar com ele pela primeira vez. Um assunto qualquer que, esperava, pudesse deslanchar uma conversa. “Nossa, que calor, não? Que sotaque bonito, de onde é?”. O rapaz pareceu, enfim, notar sua existência e, após um tempo, tomava ele próprio a iniciativa de conversar. Até que marcaram um primeiro encontro, um despretensioso café que ocorreria aquela noite. Pois bem, o aviso veio pelo whatsapp. Não poderia ir já que teria surgido um problema familiar inesperado. Uma desculpa para justificar um recuo? Não sabia, fato é que, percebia agora, não ficara frustrada ou triste, como normalmente ficaria. Só percebeu  a indiferença de sua reação naquele momento, e adormeceu.

Foi num momento rápido de distração no trabalho que se deu conta. Entre papeis e relatórios, caiu em si de que não sentia mais nada. Não era apenas a dor ou o frio que não era capaz mais de sentir, mas as emoções mais básicas como frustração, tristeza ou alegria. Era como se o automatismo do trabalho tivesse se apossado de sua alma e, agora, respondia mecanicamente a estímulos sem maiores consequências. Sim, era isso. Ela, Lúcia, uma garota como tantas outras com suas dores, alegrias, frustrações e medos, não sentia mais. Era como se algo dentro dela, alguma chave, tivesse sido abruptamente desligada. Uma anestesia profunda que penetrava em suas vísceras e escorregava pela alma, ou o que quer tenha ali no lugar da alma.

No dia seguinte passou no posto de saúde antes de ir ao trabalho. Relatou ao clínico geral o episódio do café, do gelo, a fome que não sentia mais. O doutor tomou seu pulso, sua pressão, ouviu seu batimento cardíaco, verificou os reflexos do joelho, olhou por dentro de seu ouvido e apalpou o fundo da língua com uma paleta de madeira, mandando-a dizer “ahhhhh”, abrindo bem a boca. “Olha, aparentemente está tudo normal, mas vamos ter que fazer alguns exames”, disse, enquanto fazia anotações em sua prancheta.

_Mas doutor é que…

Lúcia deteve-se. Por algum motivo, não falou sobre sua real condição.

_Mais alguma coisa, Lúcia?

_Não, não, doutor.

_Bem, temos que fazer mais exames, mas pode ser um quadro de estresse ou ansiedade, leve essas guias e depois marcamos um retorno.

Pegou as guias de qualquer jeito, enfiou-as na bolsa e despediu-se rapidamente do médico.

Lúcia saiu de lá com a certeza que não mais voltaria. Ali, naquele consultório, havia percebido algo a mais. Sentia-se, pela primeira vez na vida, verdadeiramente livre. E aquilo não era ruim.

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