Devir

Quase se arrependia daquela caminhada quando enxergou o lago naquele final de tarde de primavera. A água, embora turva, refletia o ocaso do sol e compunha um cenário que talvez pudesse chamar de exuberante. Aproximou-se sorrateiro até encostar-se no tronco de uma árvore rente à borda. Deixou escapar um grunhido abafado de dor quando se abaixou, apoiando o braço direito nas costas. E pôde suspirar, enfim, aliviado quando finalmente encontrou uma posição confortável. Praguejou diante daquela situação que achava ridícula, e da sua condição deprimente, mas enfim, diabos, que vá tudo à merda, pensou.

As pernas fracas demoraram alguns minutos até pararem de tremer. Sentado na grama e apoiado no tronco, segurava as canelas finas singradas por veias saltadas. Respirou fundo tentando encontrar algum tipo de paz ou qualquer coisa que fosse parecida a isso. Ouvia o barulho das últimas crianças deixando o parque, o que lhe desviou a atenção. Teve um reflexo de praguejar mais uma vez, como era de costume, mas se deteve. Seus olhos se voltaram para as águas calmas do lago, e as lentas ondulações provocadas pelo vento, deformando o reflexo do sol em círculos concêntricos.

Imagens da infância irromperam em sua cabeça. Viu-se menino na fazenda em que fora criado, jogando pedras na lagoa lamacenta. Como se espantasse uma mosca inconveniente, repeliu tais lembranças intrometidas. Um velho pensando na vida à beira de um lago, pensou, é uma imagem um tanto ridícula. Mas como uma mosca insistente, esses pensamentos voltavam e pousavam em sua testa. Isso se tornava comum a essa altura da vida. Como um flashback, passou a ver a vida como um álbum de fotos. A formatura, o primeiro casamento, o primeiro filho. Tivera uma vida boa, poderia dizer? Certamente, não teria vergonha ou hesitação em responder. Tampouco ninguém poderia negar. Teve seus amores, arroubos de juventude, uma união até certo ponto feliz, e filhos bons, que lhe deram netos bons.

A vida profissional também não ficaria atrás. Sempre fazia questão de lembrar, primeiro aos filhos e depois aos netos, sobre como cresceu na empresa, sempre por méritos próprios e sem o famoso QI, ressaltava sempre. O trabalho enaltece o homem, era seu lema, embora a essa altura talvez já não acreditasse nisso com a mesma convicção. Aposentou-se com honras e com um sentimento de dever cumprido. Tivera uma vida boa? Claro, sem dúvidas. Mas a mosca demorava em sua fronte, e ameaçava picá-lo. E… os sonhos?

Em toda a vida, seus sonhos não couberam naquele padrão. Cada contingência concreta da vida adulta fazia ruir um de seus tijolos. Quando deu por si, já não havia mais nada. Arrependimentos? Evidente. É cínico e desonesto quem diz não tê-los. Crescem na proporção em que os sonhos ruem. É a vida, pensou.

Durante um tempo, acreditou que os fardos fossem provações para o merecimento do paraíso no céu. Já em outra etapa, passou a crer no karma, e na retribuição de suas ações em vidas vindouras. Com certa maturidade, abandonou de vez o pensamento mágico e encarou de frente a completa descrença. Conformou-se com a ideia da finitude, sobretudo quando seu próprio corpo começava a dar sinais inequívocos disso. Não foi fácil ou tranquilo entender que, um dia como qualquer outro, dormiria para nunca mais despertar. Deixaria de existir como se nunca tivera existido. Sim, um belo dia, que não tardaria, iria morrer. Seu corpo apodreceria e se desintegraria e, algum tempo depois, não iria deixar mais qualquer vestígio. Remoeu a dura realidade que martelava em sua cabeça, mas, após um tempo, acabou aceitando de bom grado o destino. O que fazer? O tempo e o acaso são os senhores de tudo.

Uma outra ideia, então, passou a rondar zunindo sua cabeça. Uma ideia redentora, por certo. Morrendo, se desintegraria em moléculas, que voltariam à terra. Cada átomo que naquele momento compunha seu corpo senil voltaria à natureza e poderia, assim, ser qualquer coisa. Poderia ser aquela árvore em que se recostara. O lago que assistia a aurora. Poderia viajar e se tornar parte de um escritor que ainda não nasceu, um romancista que nunca fora, um maestro que sempre sonhou ser. Ou todos eles ao mesmo tempo. Não haveria mais consciência, claro, mas aquela simples possibilidade não deixava de ser um conforto. Talvez algo mais interessante que a imagem de um paraíso celestial habitado por anjos rechonchudos tocando harpa.

Aquela imagem o fez até mesmo esboçar um meio sorriso mal-humorado. O sol já havia se posto quando caiu em si. Sentiu a grama com a palma das mãos e arrancou um punhado do chão, misturado à terra. Apertou forte sentindo a textura dos grãos e do mato. Pela primeira vez na vida, sentia-se de fato integrado àquele lugar. Pela primeira vez, aquela sensação de estranhamento já não estava ali.

O som das cigarras dera início à sinfonia noturna. Tudo estava bem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s