Sem título

Era uma noite sem estrelas, como costumavam ser as noites naquela época do ano. Mais escuras e frias que o habitual. Saí para a rua sem casaco, acendi um cigarro e fiquei escorado no poste. As ruas só tem sentido quando há trânsito, movimento, divaguei. Naquela hora, quando só as poucas sombras das árvores projetadas no asfalto se mexem, tudo se reduz a uma massa compacta e disforme espalhada pelo chão. Como a minha vida, pensei.

Ligado no automático, preso à rotina, a um conjunto de movimentos pré-programados, reações pré-estabelecidas e reflexos condicionados, seria ainda um ser humano? Até mesmo a sucessão de fracassos e frustrações passou a ser absorvida de forma quase mecânica. Sentia-me como mais uma peça dentro da engrenagem. Peça descartável. Por mais estranho que possa parecer, ali sozinho escorado no poste, sentia-me mais humano. Divagando e pensando besteiras típicas da classe média. Daquele tipo de classe média que pode se dar ao luxo de pensar nesse tipo de besteira. Enfim, isso tornava tudo ainda mais medíocre. Éramos eu e aquele asfalto, duas massas disformes e compactas sem qualquer sentido ou objetivo.

_Você me parece um tanto perdido, jovem.

A voz ressoou de forma agradável. Era uma voz feminina, delicada mas firme. Não me assustei. Não me assusto mais. Às vezes penso que se descer um disco voador bem na minha frente e dele descer um extraterrestre, minha reação seria a de lhe dar bom dia e seguir meu caminho. Bom, mas aquela voz me chamou a atenção, de qualquer forma. Olhei para trás e foi quando me deparei com aquela figura. Uma mulher, diria, bonita, com longos cabelos negros que lhe caíam até a cintura, a pele estranhamente alva, resplandecente até. Vestia uma espécie de túnica branca e trazia os pés descalços. Sentou-se na calçada ao meu lado.

_Você não é um asfalto. O asfalto não tem consciência do que é. Mas você tem, não tem?

Tudo bem, agora sim eu havia ficado algo como surpreso. O que diabos era aquilo? Olhei ao redor pra ver se havia algo, alguma câmera ou coisa do tipo que pudesse denunciar alguma pegadinha. Nada. Nem mesmo as viaturas da polícia que passavam por ali aquela hora da noite davam o ar da graça. Fiz então a única coisa que poderia fazer naquela situação. Sentei-me também e puxei outro cigarro.

_Eu poderia perguntar quem diabos é você e o que faz aqui, disse, mas tenho uma certa impressão de que não gostaria de ouvir a resposta.

Ela olhava para o nada, para algum horizonte imaginário. Era como se não pertencesse àquele contexto. Como se vibrasse em outra sintonia. Por mais que odeie essas merdas místicas, era assim que me parecia aquela cena.

_Você não sabe de nada, falou, sorrindo discretamente com o canto da boca. A questão é: Prefere ficar para sempre nessa tua zona de conforto da ignorância, ou quer mesmo conhecer a verdade?

_A verdade do que? Não existe essa coisa de “verdade”. Nós definimos nossas próprias verdades, o sentido das coisas. Nada é por si só. Nós que conferimos sentido a elas e a nós mesmos, às nossas próprias vidas, repliquei, ficando um pouco exaltado a cada palavra, admito, enquanto ela ouvia atentamente, olhando-me com aqueles olhos negros e grandes.

_Se isso é assim, ela disse, você me parece que não é muito bom nisso.

_Não sou bom em muitas coisas, respondi.

Um gato cinza preguiçoso cortou aquele diálogo no escuro, atravessando lentamente a rua, com o rabo em riste e passos descuidados.

_Pois eu lhe digo que posso mostrar a verdade a você, venha comigo e lhe mostrarei coisas que nunca imaginou e que certamente não está preparado pra ver.

Ela levantou-se e me estendeu as mãos.

_E aí então você decide o que fazer com isso.

Seria um anjo me mostrando o caminho da salvação, ou um demônio provando da minha fé? Eva foi traída pela promessa de sabedoria, de conhecer e distinguir o que era o bom e o mau. Ou seria uma louca fugitiva de algum sanatório, ou uma psicopata em busca da vítima daquela noite?

Fiz então a única coisa que poderia fazer. Esmaguei o cigarro com os pés, levantei-me e aceitei o imponderável.

Não faz muito sentido, não é mesmo? Tudo bem, nada disso faz.

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