Um homem bom

Chegou apressado na repartição, bateu o ponto de forma atabalhoada e correu pra sua mesa. Estava 15 minutos atrasado e aquilo o perturbava. Não se lembrava da última vez que se atrasara nos vinte anos de serviço ali.  Estava pálido, mais que o normal, e o suor lhe escorria aos borbotões das têmporas, do pescoço, das axilas.

_Tá tudo bem Geraldo?_ Perguntou o chefe, demonstrando uma preocupação protocolar. _Claro, seu Almeida, tudo sob controle_ respondeu, esbaforido, enquanto ajeitava a papelada sobre a mesa_ só um pequeno contratempo no caminho, nada demais.

Colocou a mão sobre o abdome, inspirou profundamente e se concentrou na papelada. Não podia decepcionar seu Almeida. Não podia deixar que os colegas pensassem que era relapso ou omisso. Era preciso atender as expectativas, ainda que elas não fossem lá grandes coisas. Como sempre em sua vida.

Após uma hora, mais ou menos, conseguiu minimamente se secar, aparentando uma certa normalidade. Contudo, ofegava ainda e permanecia pálido. A hora do almoço se aproximava e os funcionários, como de hábito, postavam-se em frente ao relógio fazendo uma contagem regressiva mental.

_Não vai almoçar não, Geraldo?

_Estou sem fome, depois eu como um lanche, tenho algumas coisas atrasadas aqui.

Os colegas, ao se afastarem, comentavam. “Que diabos ele tem?” “Pelo jeito, é crise em casa.” ‘Nessa idade aí, não deve estar mais dando no couro e a patroa já partiu pra assistência.” “Cala a boca, não fala merda, conheço a mulher de Geraldo, vai à igreja todos os domingos.” “E isso lá significa alguma coisa?”. A polêmica durou exatos três minutos, inconclusa, já que ninguém tinha intimidade suficiente para questionar diretamente Geraldo.

Isolado em sua mesa, Geraldo cabisbaixo aguardava os minutos e as horas passarem. No interior daquela repartição, o tempo se arrastava como se os ponteiros do relógio estivessem congelados. Embora estivesse estranho aquele dia, não deixava de sorrir, complacente, e tentar parecer solícito. Precisava agradar a todos. Tinha essa necessidade. A simples ideia de contrariar quem quer que fosse lhe causava pânico, taquicardia, independente da hierarquia, do chefe à faxineira. Se lhe perguntassem alguma opinião sobre política ou futebol, tratava de analisar o inquiridor e respondia exatamente aquilo que achava que se esperava ouvir. Era capaz de dar uma resposta diametralmente oposto minutos depois a outra pessoa.

Prestes a bater seis da tarde, novamente o relógio era assistido pelos funcionários de bolsas e pastas em punho, prontos a arrancarem. Geraldo levantou-se vagarosamente, com a mão sob o abdome, e caminhou rumo à porta. Agora, mancava, mas apertou o passo preocupado em se atrasar para o jantar e iniciar uma discussão com a mulher. Algo que, evidentemente, o apavorava. Pegou o coletivo e saltou no ponto a duas quadras de casa, com passos desajeitados tentando compensar a dessincronização das pernas.

_Tudo bem, querido, como foi seu dia? Está mancando… Está tudo bem Geraldo?

_Sim, não foi nada não, logo passa, respondeu, não sendo mais questionado.

Sentou-se e comeu mecanicamente a janta, tentando transparecer o máximo de normalidade possível. Trocaram meia dúzia de palavras sobre o clima, o preço do supermercado e a filha da vizinha pega fumando maconha, de novo. Geraldo só suspirou, levantou-se e lavou a louça.

_Bom, vou deitar, hoje foi um dia duro e não posso me atrasar amanhã_ disse à esposa, que assistia a novela deitada no sofá.

(…)

A mulher acordou ao som do despertador. Virou-se para o lado e chamou o marido, encostando a mão em seu ombro. “Geraldo, você vai perder a hora, acorda”, disse sonolenta. Nada. Chacoalhou o companheiro, que permanecia inerte. Acendeu a luz do abajour e virou Geraldo de barriga pra cima, colocando a mão na boca pra conter um grito de terror. Geraldo, de olhos semiabertos, não mais respirava. Ergueu a mão que desde o dia anterior o marido recobria o abdome e encontrou uma mancha de sangue. Levantou a camisa e viu um corte profundo.

Em meio à perplexidade daquela cena, percebeu que Geraldo havia sido esfaqueado. Nunca se soube por quem ou em quais circunstâncias, num segredo que Geraldo levou junto a sua bondosa solicitude.

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