Enquanto eles dormem

Vamos fazer um jogo, ela disse, sentando-se do meu lado e cruzando as pernas, como costumava fazer quando se sentava no chão. O vestido amarelo coberto por pequenas flores – ou seriam cerejas? – vermelhas, deixando transparecer as canelas finas. Mas não escondia as curvas cada vez mais sinuosas que anunciavam seu tempo de mulher. O cheiro de alfazema – seria mesmo alfazema? – escapava de seu cabelo molhado e inundava o quarto escuro. Lá fora, todos dormiam.

Que jogo, respondi desconfiado, hesitando, esperando mais algumas de suas brincadeiras em que, invariavelmente, eu caía. Ela se aproximou mais ainda, a ponto de alguns fios de seus cabelos, longos cabelos negros, tocarem meu rosto. A ponto de poder sentir seu hálito quente e a sua respiração, a temperatura de seu rosto aumentando. Ficou parada na minha frente, olhando, perscrutando meu rosto como se o visse pela primeira vez. Notando com curiosidade e percorrendo cada traço dos meus olhos, nariz e boca.

Você vai ter que fechar os olhos, e não vai poder abrir aconteça o que acontecer – falou com decisão, de forma dura, fingindo uma severidade caricata. Continuava desconfiado, claro, tentando imaginar qual era a peça desta feita. Fiquei sentado no chão, apoiado na cama pensando em várias hipóteses do que ela poderia fazer. Me trancaria aqui de novo, como aquela vez, alguns anos atrás, em que nossos pais conversavam e fumavam no jardim, e que passei quase meia hora – ou teriam sido poucos minutos? –  aos berros, desesperado, tentando sair? Não tínhamos mais idade, pensei, e aquilo lhe valeu um mês de castigo, deve ter aprendido a lição. – Vamos lá, seu medroso – insistiu, apelando desta vez ao meu brio, tentando me desestabilizar, e conseguindo, como sempre conseguia.

Não respondi, apenas fechei os olhos e tentei me manter alerta, preparado para qualquer troça que pudesse ser vítima. A expectativa fez acelerar meu coração e minhas mão ficaram frias, como quando das provas de final de semestre. No escuro do quarto, apenas se ouvia, ao fundo, o ruído dos poucos carros que ainda passavam na rua de trás. Senti o hálito quente se aproximando e os fios molhados de seu cabelo tocando cada vez mais meu rosto, e, naqueles poucos segundos, todas as hipóteses aventadas na minha cabeça se esvaíram, junto ao medo – seria aquilo medo? – de alguma traquinagem infantil. Os batimentos cardíacos, porém, não arrefeceram e se aceleram, produzindo um fino fio de suor que escorregava pela minha têmpora direita.

Senti sua boca tocando a minha, o lábio levemente roçando e contornando o meu, antes de finalmente se encaixar num só movimento, o que fez que o entreabrisse, numa posição estática de consternação – ou seria simplesmente espanto? – antes dela pressioná-lo mais fortemente e colocar sua mão na minha nuca – mão macia como nunca havia reparado – alisando-o e fazendo com que todos meus pelos do corpo se arrepiassem como se uma corrente elétrica me atravessasse. Não tive tempo de concatenar qualquer tipo de pensamento enquanto sua boca abria a minha, e senti a ponta de sua língua, úmida e áspera, tocar meu lábio e a própria língua, num movimento lento e suave, conquistando cada vez mais espaço e desbravando aqueles cantos e lugares recônditos.

Afastou-se então e percebi que havia algum tempo que não respirava, quando dei um suspiro profundo. Notei meu lábio molhado e imaginei, no escuro, que ela me fitava, sentia sua respiração calma e a temperatura da sua pele. Lá fora – haveria ainda um mundo lá fora, e os carros, as pessoas, a escola? – todos dormiam. E algo, dentro de mim, despertava.

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