Vício

Tirou cuidadosamente o esparadrapo do dedo da mão direita. Alinhou o alfinete com a esquerda e introduziu, lentamente, sua ponta por debaixo da unha. A dor fina, aguda, veio acompanhada de um filete de sangue. Um estremecimento profundo emanou da mão para o braço, percorrendo todo o corpo. Chupou o sangue e recolocou o esparadrapo.

Já estava convencido. Havia se viciado na dor. Todos os dias, procurava alguma forma de provocar um novo impulso diferente dos nervos ao córtex e ao hipotálamo. A blusa cobria os cortes alinhados nos braços. As mesmas marcas que ostentava na parte superior das coxas. Como todo viciado, porém, precisava de mais.

A descoberta veio por acaso. O tênis apertado lhe machucava o pé direito a ponto de formar uma bolha. A princípio um pequeno incômodo, mas que poucos dias depois já se transformava numa ferida que manchava as meias de sangue. Percebeu, no entanto, que não tomara nenhuma providência não por desleixo, como pensava. Estranhou quando se deu conta que, na verdade, gostava daquela sensação.

Não era adepto de práticas sadomasoquistas, como alguns poderiam pensar. Tinha aversão a tudo aquilo. Seu prazer não era de forma alguma sexual. Era uma espécie de alívio físico, como coçar uma picada de mosquito. Mas dez, cem, vezes mais intenso. Sentia-se bem, vivo, aliviado com a dor. E não queria que parasse.

As feridas crescentes, porém, o preocupavam. Era obrigado agora a usar manga comprida no sol e calor do verão. E arrumar desculpas para os curativos nas mãos. Decidiu, enfim, procurar ajuda. Descobriu na Internet um grupo de pessoas que, como ele, eram viciadas em dor. Uma espécie de sofredores anônimos. Reuniam-se nas noites de quarta numa pequena sala nos fundos de uma igreja do centro da cidade.

Chegou ao local bem no horário da reunião, cálculo para evitar maiores constrangimentos. Todos já estavam acomodados, sentados em círculo nas modestas cadeiras de madeira. Teve pouco tempo para estudar as 15 pessoas que o cercavam, mas percebeu que alguns usavam terno. Outros vestiam apenas uma camisa social genérica, enquanto dois ou três trajavam camisetas surradas. Notou também algumas mulheres, talvez quatro, e um adolescente. As mulheres também diferiam entre si, uma idosa, outra na casa dos quarenta e as outras duas um pouco mais moças, bem parecidas entre si, talvez irmãs.

A primeira impressão é que estava diante de um grupo eclético, tanto em relação à faixa etária quanto a classe social. Compartilhavam, porém, uma estranha característica: pequenos curativos nos dedos e braços. Pelo menos um deles tinha hematomas bem visíveis no rosto.

Explicaram-lhe que, como de praxe, ele iniciaria a reunião com um depoimento pessoal. Tudo bem, respondeu.

_Boa noite a todos, meu nome é…

_Seja bem-vindo… Responderam num coro copioso.

Relatou de forma breve a sua angústia. Como estava naquele grupo, achou por bem carregar no drama e nas dificuldades que o vício lhe trouxera. Disse ainda ser aquilo uma aberração, que tinha vergonha de procurar um médico e o tacharem de louco. E, por fim, que esperava se livrar disso o quanto antes. Tentando parecer simpático, agradeceu a acolhida.

O homem que o recebera, um sujeito dos seus cinquenta anos, calvo, de camisa pólo azul e óculos de aro fino, levantou-se então e o tocou de forma gentil nos ombros.

_Meu filho, se você quiser parar com isso, lamento dizer que aqui não é o lugar – Pronunciava as palavras de forma calma e tranquila, enquanto falava de pé, ao seu lado.

_Como assim? Vocês não vão me ajudar? Por quê?

Transparecia certo transtorno e nervosismo, a tal ponto que gaguejava ou comia as sílabas, como costumava fazer quando nervoso.

_Vou te explicar, tenha calma. Quando os primeiros de nós começaram a se reunir, tínhamos esse objetivo de superar o nosso vício. Fizemos de tudo e, acredite meu rapaz, quando eu digo de tudo, quero dizer de tudo mesmo.

Ouvia aquilo em silêncio, mas com a expressão de contrariedade ainda marcada no rosto.

_Chegamos então à conclusão que a única coisa que podíamos fazer era aprender a nos aceitar como somos e viver da melhor forma com isso. Tentarmos não nos matar, por exemplo, enfim, administrar esse nosso vício.

_Mas isso é loucura! – explodiu, consternado – Isso não é normal, não podemos viver assim!

Todos assistiam àquela cena em silêncio, alguns até mexiam no celular, como se nada demais estivesse acontecendo. Como se já tivessem assistido muitas vezes e aquele tipo de reação fosse absolutamente previsível.

_Meu caro, e o que é normal? Nós gostamos da dor? Sim, gostamos. A buscamos todos os dias da nossa vida, pra aliviar algo que existe e pulsa dentro do peito? Sim, claro. Mas isso é diferente do que as outras pessoas fazem? Olhe as pessoas ao seu redor, no seu emprego ou na sua família. Você mesmo vai me dizer que nunca se envolveu com alguém sabendo que daria errado, que seria uma catástrofe, enfim, sabendo que iria, de alguma forma, sofrer?

Não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Mas também não conseguia articular palavras para responder ou argumentar do contrário. Apenas balançava a cabeça tentando demonstrar uma indignação inverossímil. Mais para si próprio, talvez, que para a plateia.

_Por que o drama, no cinema ou no teatro, faz sucesso? Por que as pessoas pagam pra sentir aquilo que seria, por definição, desagradável? Por que ouvimos música pra chorar? As pessoas ditas normais sentem a mesma coisa que nós aqui sentimos dentro do peito e todos buscam alguma catarse. A humanidade, meu rapaz, é viciada na dor.

Num rompante, levantou-se de forma brusca da cadeira e, sem dizer nada, caminhou em direção à porta. Ao sair notou a expressão irritante de normalidade do grupo. Pensou ter visto até uma das mulheres bocejando discretamente. Bando de malucos, pensou, antes de ganhar as ruas.

Na quarta-feira seguinte, foi um dos primeiros a chegar.

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