Gênero

“Você é gay?”, ela me pergunta de supetão, virando-se pra mim da cadeira do computador, com um certo ar inquisidor. Confesso que não esperava esse tipo de pergunta. Sei que talvez não me encaixe exatamente no estereótipo de masculinidade, mas tampouco já dei mostras do contrário. Não que seja homofóbico, muito pelo contrário, mas aquela pergunta, sem mais nem menos, me intrigou.

“Por que diabos está me perguntando isso?”, devolvi à namorada, tomando o cuidado de não parecer muito ofensivo. Olho para a tela do notebook e percebo então um de meus textos abertos num arquivo de Word. Era uma espécie de carta de amor a um garoto, uma declaração na verdade, em que a personagem abre seus sentimentos e divaga sobre a definição dessa palavra tão banalizada e ao mesmo tempo tão incompreendida nos dias de hoje. Um gancho para uma reflexão sobre o amor, um texto tão clichê quanto isso. O conto, assim como inúmeros outros, jazia perdido e esquecido em alguma pasta aleatória do computador. Inacabado, como a maioria dos que o acompanhavam.

“Não, meu amor, estava escrevendo uma estória, um tipo de conto, em que a personagem, o eu-lírico digamos assim, é uma garota, e ela escreve uma carta a um menino pelo qual está apaixonada”. Ela olha o texto, franze a testa e aperta os olhinhos como sempre fazia quando se sentia contrariada. “Mas você é homem!”, dispara então, aparentemente não aceitando tão prosaica explicação. “Sim, mas é um exercício de imaginação, entende? A gente imagina ser uma garota, cria uma personagem na cabeça e, a partir dela, escreve o que seria uma carta a um pretende, e vai desenvolvendo o tema”.

Percebendo seus olhinhos ainda confusos me fitando, tento achar algum exemplo mais próximo de sua realidade. “Tipo chico Buarque, sabe? Você adora ele não? Lembra de ‘Olhos nos Olhos’ ou ‘Com açúcar e com afeto’? É como se ele fosse uma mulher cantando sobre um homem, é um personagem que ele inventou na cabeça”.

Percebo que a explicação agora surtira efeito, pois seu rosto se descontrai um pouco. Porém, é evidente que ela ainda não se deu por satisfeita. Após alguns instantes de reflexão, com a mão no queixo, sentencia: “Mas você não é o Chico Buarque!”.

“Eu sei, meu bem, eu sei”.

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3 comentários em “Gênero

  1. “Mas você não é o Chico Buarque”. Velho, não teve como não gargalhar nessa hora! 😀

  2. Lembrei exatamente do Chico no segundo parágrafo.

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