O fim

Caixas vazias e livros empoeirados jazem sobre a cama. Um velho Neruda entreaberto exibe algumas páginas amassadas. No ambiente, traços de antigos incensos queimados, amores despedaçados e uma miríade de lembranças evaporando no ar.

O cenário de terra devastada de uma guerra perdida. Quando tudo termina, o que resta é como Berlim após a Segunda Guerra. Sem os russos orgulhosos hasteando a bandeira no Reichastag, claro, pois aqui não há vencedores. Apenas escombros fumegantes e destroços. A reconstrução é difícil, penso, mas inevitável. Dure o que durar, os muros, as casas e os prédios se reerguerão, mais fortes. Mas até lá, só resta destruição.

Cada centímetro do quarto evoca um conjunto de memórias, boas ou ruins. Quem viver aqui vai sentir a mesma coisa que eu? Vai perceber os frêmitos de prazer e loucura nas noites intensas que tivemos? Conseguirá sentir a paz das tardes de domingo? A raiva e exasperação dos estertores da nossa história e, por fim, a nostalgia e o lamento? Besteira, penso, racional que sou. Quantas histórias já não devem ter passado por aqui, igualmente anônimas aos outros, e se desvaneceram por completo? Os pisos guardam seus segredos.

Contenho as lágrimas, ele já vai chegar. Vem pegar o que resta das suas coisas. Ouço ao longe seu Passat chegando, tomo rapidamente as chaves e saio do apartamento pela porta lateral, escorando-me rente ao corredor.

Ele chega a passos rápidos. Parece bem, um pouco mais envelhecido que da última vez. Talvez abatido. Ou teria sido eu que o enxergava diferente? Quando nos conhecemos dei pouca atenção àquele rapaz franzino que tentava me impressionar tirando Chico Buarque no violão. Fiz vistas grossas pra como ele desafinava, o que, na verdade, chegava a me comover. Tenho dessas coisas. Ou costumava ter.

Do corredor escuto barulhos de caixas e malas, e os passos de seu sapato, inconfundível. Alguns minutos se passam até ele sair do apartamento, fechando mecanicamente a porta e a trancando com um braço enquanto se equilibra para segurar as caixas em outra.O apeita aperta e a garganta fecha, mas eu seguro, resignada.

Ouço o motor do velho Passat ligando. Engasgava sempre antes da partida, até o barulho cessar por completo.

Entro novamente no quarto, vazio. Por sobre a cama ele deixou o Neruda entreaberto. Resolvo deixá-lo lá como está. Quem sabe os futuros amantes, pelo menos, possam aproveitar parte dessa nossa história que termina aqui.

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Um comentário em “O fim

  1. Fim de caso é tristeza e alívio, um dia depois do outro.

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