Quando florescem os gerânios

Cheguei com um vaso de flores. Simples, pequenos gerânios vermelhos num vaso de barro, como as que ela costumava plantar em nosso jardim. De todas as lembranças da infância, a que me marca mais é de seu pequeno jardim florido. Eu, criança ainda, sujo de barro da cabeça aos pés a ajudando a cultivar os gerânios e margaridas do pequeno canteiro no quintal. Ela, tão grande, plantava com mãos cuidadosas as pequenas mudas que, algum tempo depois, começavam a florescer. “É mágica mãe?”. “Não, filho, é deus que faz crescer… A gente planta e deus lá em cima faz a flor crescer e desabrochar”. Quando chovia, o cheiro de terra molhada se misturava ao perfume e eu ficava na janela, inebriado com aquele aroma.

Mesmo adolescente, continuava a ajudá-la a plantar seus gerânios e margaridas. E a cheirar a terra quando chovia. Claro, nessa idade somos pegos por outras preocupações, mas mesmo no turbilhão de hormônios e ansiedade que nos atinge nessa fase da vida, nunca me esqueci de seu jardim. Era o nosso elo. Nosso pacto filial. E me comovia perceber o quanto aquele pequeno pedaço de terra era tão importante para ela. Mesmo quando o pai ficou desempregado, ou nossa vó morreu, ainda assim, abatida, muitas vezes aos prantos, ela continuava a regar seu jardim.

Quando saí de casa para a faculdade ela se jogou sobre mim aos prantos. Disse para ser forte, valente na vida. E que o nosso jardim estaria sempre ali pra quando voltasse. Depois, consegui emprego em outra cidade e fiz minha própria família. Mas morávamos num apartamento. O máximo que consegui cultivar foram algumas ervas num canto da cozinha. Ela, contudo, sempre mandava, por carta, uma foto de seu jardim, orgulhosa. Mesmo em tempos de email, Facebook e wathsapp, chegava aquela carta pelo Correio, com um bilhetinho e uma foto.

Até que as cartas cessaram.

Abri o portão, com o vaso nas mãos, e olhei o canteiro. O capim e os arbustos haviam tomado conta de tudo. Meu pai, com um aspecto cansado, alcançou-me no quintal. “Olha, filho, você precisa ser forte, não se deixe abater”, disse, com os olhos marejados e a mão no meu ombro. Abracei-o.

Quando entrei, a enfermeira sorriu pra mim e saiu, deixando-nos a sós. Aproximei-me e beijei sua testa. Vestia uma camisola azul e estava coberta por um lençol. Havia envelhecido muito desde a última a vez que a vira. Seus cabelos, já completamente encanecidos, pareciam mais secos e quebradiços, e sua pele já não tinha cor de antes. Tinha o olhar perdido no horizonte, o qual manteve mesmo com a minha presença. Sentei-me ao seu lado e peguei sua mão. “Olha mãe, que bonito, iguais aos que a senhora plantava, lembra?”. Ela virou a cabeça e olhou para o vaso, sem falar nada.

“Vitinho?”, ela disse, chamando-me pelo nome de meu tio, irmão dela. “Não mãe, sou seu filho”. Era a primeira vez, desde que diagnosticado o alzheimer, que ela não me reconhecia. Já vim preparado para aquela situação, ou pelo menos achava isso. Mas a pessoa que você mais ama e confia nessa vida não mais te reconhecer e te olhar como um estranho… Meus olhos se encheram de lágrimas, que tratei de conter rapidamente. O que nos define? Nossa personalidade, identidade e lembranças? Quem era então aquela pessoa deitada ali, que me olhava com desconfiança? Ainda seria minha mãe? Ou ela, na prática, já morrera com o avanço da doença?

“Você tá triste, Vitinho?”, ela perguntou com um fio de voz. “Não mãe, não tô não”. Ela então olhou para os gerânios que eu ainda segurava, fitou-os por um longo momento e exclamou: “São lindas! Lindas!”. “Sim, mãe, vou deixá-las aqui com a senhora”. Nada mais disse, ficando estática com o olhar perdido para além dos gerânios.

Enxuguei as lágrimas e deixei o vaso em cima do criado mudo. Havia um pouco dela ali ainda. Amanhã carpo o canteiro e chamo meu filho pra me ajudar a refazer o jardim. Ela vai ficar feliz.

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