Um emprego digno

Era a terceira ou a quarta vez que passava por aquele anúncio estampado no mural. Desta, porém, resolveu parar e puxar um dos filetes com o número de telefone. Era um daqueles anúncios muito comuns nas faculdades, de papel sulfite recortado para o interessado destacar o número de contato. Acima, apenas um enunciado: “Precisando de trabalho? Entre em contato”.

Sabia que a vaga era para a faculdade de artes, mas não tinha ideia de que se tratava. Mas àquela altura não fazia tanta diferença. Já passava do segundo mês de aluguel atrasado e uma pilha de contas se acumulava sobre a escrivaninha do quarto. Sua dieta se resumia a dois ou três pingados na padaria, cobertos por um pão e manteiga na chapa. Precisava fazer algo rapidamente. Colocou créditos no celular e tentou a sorte.

Bem que se esforçou, mas não conseguiu que seu interlocutor lhe revelasse a natureza da vaga em questão. Foi apenas orientado para estar às 9h do dia seguinte em frente à faculdade. Munido de um roupão, de preferência. As instruções lhe soaram estranhas, claro, mas o anúncio de despejo que o esperava embaixo da porta de casa falou mais alto. Às 8h45 já estava posicionado em frente à faculdade. Dez minutos depois chegou uma mulher de uns 30 anos, de calça jeans e camiseta branca manchada de tinta. Dois minutos mais tarde se aproximou um senhor de longas barbas brancas e aparência circunspecta. Cumprimentaram-se com um tímido aceno de cabeça e permaneceram mudos, com os olhos voltados ao chão. Às 9h em ponto a porta se abriu e os três foram abrigados numa pequena sala. Um por um, foram sendo chamados para a entrevista.

Ele foi o terceiro. Viu a mulher e o velho entrarem na outra sala, permanecendo lá por uns 10 minutos e saírem tão mudos quanto entraram. Finalmente chegou a sua vez. Entrou na sala de entrevistas, uma pequena sala que mal comportava a mesa e as duas cadeiras além de uma estante com livros desdenhosamente empilhados. Um homem de óculos já sentado fez um sinal para que se acomodasse na cadeira em frente à sua. Pegou uma folha de papel e leu, apertando os olhos com as mãos na lente: “Silas, hmmm… bom…”. Alguns segundos de silêncio constrangedores se estabeleceram, sendo quebrados apenas com a ordem inesperada do empregador. “Queira tirar suas roupas, por favor”.

Hesitou por alguns instantes, como seria impossível não hesitar. Mas obedeceu, não se sabe por quê. Na verdade, não pensou muito, simplesmente se levantou e começou a se despir. Alguns dizem que a melhor maneira de fazer outra pessoa tomar uma atitude extrema é a pegando desprevenida, de forma com que não consiga, em poucos segundos, concatenar algum tipo de raciocínio e estabelecer uma ligação lógica com o que está sendo pedido ou ordenado. A resposta é automática. Mas Silas só foi pensar nisso mais tarde. Naquele momento, estava ocupado em desafivelar o velho cinto que travava nos momentos mais impróprios. Ficou, enfim, completamente nu à frente do entrevistador, que olhava meticulosamente para cada parte de seu corpo.

“Bom, você já deve ter percebido para o que está sendo chamado, não?”, afirmou em tom de interrogação o homem. Sils mentiu e assentiu com a cabeça, mesmo não fazendo ideia do que se passava ali. “Começa na segunda, chegue pontualmente no horário marcado que os alunos não podem esperar”. Foi só então que percebeu o real sentido da oferta que lhe fora feita. Modelo vivo. Nunca achou que daria para isso. Seu corpo tinha alguma simetria, verdade, mas estava longe de ser um deus apolíneo. Bem, pensou, talvez seja isso mesmo que queiram. A pontada no estômago não permitiu que se detivesse demasiadamente nesses pensamentos. Iria ganhar relativamente bem para ficar nu em frente a uma turma de universitários, qual o problema? Seria um modo digno de ganhar dinheiro, ou não? Não seria uma forma de prostituição, por exemplo, ainda que seu objeto de trabalho fosse o próprio corpo. Não, estaria ali em nome da arte. Foda-se a arte, precisava comer e pagar o aluguel. O estômago primeiro, depois a moral, já dizia Brecht.

O primeiro dia foi o mais estranho. Nunca havia feito aquilo. Mas estava resignado. Despiu-se e ficou lá em frente a turma de 15 alunos. A maioria homens. Ato quase contínuo, quando livrou-se do roupão contraiu as pernas a fim de esconder o pau entre as coxas. Mas o professor, avisado da inexperiência do modelo, fez-lhe um sinal de reprovação com a cabeça e ele simplesmente relaxou. A sessão durou quase duas horas. Tirando o constrangimento inicial, porém, até que não havia sido tão difícil.

Aos poucos, foi se habituando à nova rotina e àquela estranha ocupação. Porém, embora pudesse dizer que estava acostumado aos olhares quase que clínicos dos estranhos que, diariamente, perscrutavam cada reentrância de seu corpo, não se sentia plenamente confortável. Um certo sentimento de culpa foi lhe tomando as ideias, para seu desgosto e, principalmente, surpresa. Verdade seja dita, nunca fora um poço de moralidade ou virtude. De onde vinha então aquela repentina consciência? Reflexo de sua educação católica? Uma fagulha fossilizada da moral judaico-cristã incrustada em sua alma? Enfim, decidiu tratar a questão como, em geral, tratava todos os seus problemas de sua vida. Foda-se.

Foi se soltando a ponto de, em determinado momento, já fazer troça de sua própria anatomia para os estudantes mais inexperientes alivarem a tensão. Foi nessas brincadeiras que reparou em Augusto. Primeiro-anista apesar da idade já avançada em relação aos colegas, do tipo que já passou dos 30, Augusto tinha cabelos loiros num corte rente, quase militar. Os olhos azuis, de gringo. Percebeu que o olhar do rapaz se detinha mais que os outros. Ou nos momentos em que ele simplesmente se esquecia do lápis e se punha a contemplá-lo, simplesmente, por minutos a fio. De forma que não se surpreendeu quando Augusto o convidou a tomar uma cerveja após uma aula. E aceitou, por que não?

Um boteco simples, porém charmoso. Uma cerveja. Depois mais uma. Outra mais. Conversas triviais e agradáveis. Decidiram pagar a conta quando já passava da meia-noite. Na saída do bar, Augusto puxou Silas pelo cinto e deu-lhe um beijo caloroso nos lábios. Silas respondeu, encostando a mão em sua nuca enquanto o acariciava nas costas com a outra. Chamaram um táxi para o apartamento de Augusto.

O duplex não chegava a ser suntuoso, mas era de um nível que indicava o estrato social do rapaz. A luz indireta banhava a sala e o pequeno bar no canto do cômodo, cintilando luzes coloridas das dezenas de garrafas expostas. Augusto pegou um champagne, o verdadeiro fez questão de dizer e serviu uma taça a Silas. De cristal, também fez questão de ressaltar. Pediu um minuto e foi ao aparelho de som colocar uma música. Coltrane. Apropriado, pensou Silas. Quando Augusto voltou, Silas se entretia com o rótulo. ‘Brut rosé’, tentou pronunciar, sob os risos do parceiro.

Quando Augusto se virou para pegar sua taça que repousava sobre a mesa, Silas não hesitou. Golpeou com toda a força a cabeça do rapaz com a garrafa do champagne, que trincou mas não chegou a quebrar. Augusto tombou desajeitado no chão, ficando imóvel sobre o braço esquerdo, enquanto o direito dobrava-se como um hieróglifo egípcio. Uma pequena poça de sangue se formou embaixo de sua cabeça. Silas deixou a garrafa em cima da mesa, arrancou a carteira do rapaz e a colocou no bolso. Agora, precisava ser rápido, vamos ver o que temos de bom, pensou, antes de vasculhar as gavetas e armários do apartamento.

Onde já se viu ganhar a vida mostrando o corpo a estranhos?

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2 comentários em “Um emprego digno

  1. Tinha deixado essa página aberta no canto, dias atrás, esperando pra terminar de ler, como faço com várias – que acabo esquecendo. Houve um dia em que o navegador deu tilt e não reabriu as abas anteriores (“puf!”) e não retomei o passo. Hoje voltei pelo último post e acabei descendo até esse. Final surpreendente. 🙂

  2. Diego Cruz disse:

    Valeu Tadeu! Então é vc quem lê isso aqui? Hahaha Abraço!

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