Culpado

Não conseguiu esboçar qualquer reação quando foi bruscamente capturado em plena luz do dia. Uma viatura chegou cantando pneus, freou violentamente e pariu três policiais de pistolas em punho que declararam sua prisão. Atônito, ele só pôde levantar os braços antes de ser algemado e jogado no banco de trás. Com a sirene ligada, os policiais pisaram no acelerador e atravessaram todos os sinais fechados. Três quadras depois conseguiu ver outras duas viaturas, à frente e atrás, fazendo a escolta.

Jogado numa cela, isolado, tentou entender o que acontecia ali. Estivéssemos na ditadura ainda, estaria tudo explicado. Se bem que ele nunca fora ligado à política, embora isso nunca tenha sido salvo-conduto contra as arbitrariedades. Sabia disso. Bom, com certeza se tratava de algum engano que logo estaria resolvido. Nunca se metera com qualquer coisa ilegal e ficava constrangido até de jogar a guimba do cigarro no chão. Certamente, o confundiram com algum assaltante perigoso, ou um sequestrador bastante procurado, o que justificaria todo o aparato utilizado nessa operação. Aliás, não fosse por isso, desconfiaria de alguma troça dos colegas da repartição.

As horas se passavam, porém, e ninguém aparecia para resolver o mal-entendido. A tranquilidade foi dando lugar a uma apreensão cada vez maior. Gritou perguntando se havia alguém ali, que tudo não passava de um engano, que ele tinha que retornar à sua vida. “Tem algum problema aí?”, perguntou de forma ríspida um dos carcereiros. “Problema? O senhor não está vendo aqui que isso tudo é um engano? Eu não sei o que vocês estão pensando, mas tenho certeza que é um engano”.

O carcereiro fitou-o calmamente por alguns segundos e desapareceu numa sala ao lado. Pouco depois, retornou com uma pasta-arquivo recheada por um calhamaço. “O senhor, por acaso, mora na rua Francisco Silva, 490?”. “Moro, sim senhor”. Com um ar desconfiado, prosseguiu. “O senhor, por acaso, é o senhor Antônio Cerqueira Matos?”. O policial fez a pergunta levantando um olho e pronunciando o nome vogal por vogal, imprimindo uma certa carga dramática na frase. “Sou sim, por quê?”. O policial só respondeu com um riso irônico de satisfação incontida e sumiu outra vez.

A apreensão foi dando lugar ao desespero. Estaria em alguma lista de terroristas, desses que andam arrancando cabeças por aí? De certeza ele só sabia que o maior ato terrorista que fora capaz de cometer, cuspir no café do chefe da repartição, havia passado incólume numa espécie de crime perfeito que não chegou a contar nem para os colegas mais íntimos.

“Advogado!”, ouviu o policial anunciando aos berros, o que interrompeu seu raciocínio. Um sujeito baixinho, careca, gordo, de bigode grosso e terno cinza adentrou a cela com um jeito apressado. Sentou-se ao lado da cama e o convidou a se sentar também, abrindo sua pasta preta de advogado. “Olha, vou direto ao assunto, o seu caso é grave, viu?”. Pegou alguns papeis da pasta e os analisou rapidamente com os olhos. “Grave… Muito grave…”. Repetia baixo. “Bom, vamos ver, aqui diz que o senhor é Antônio Cerqueira Matos?”. “Isso mesmo, doutor”. “Olha, respeito o fato de você estar sendo sincero comigo, isso na minha profissão é algo muito raro e é exatamente isso o que eu defendo, total sinceridade com o cliente”. Falava mais baixo, olhando de soslaio para fora para ter certeza que ninguém mais ouvia aquele diálogo.

“Eu não estou entendendo, doutor”. Aquela situação já escapava de qualquer limite, e era tomado por uma vertigem que quase lhe tirou os sentidos. “Você foi sincero comigo, e eu serei com você, vou jogar limpo, se você se entregar desse jeito ao juiz, vai ser difícil, viu”. “Como é, doutor?”. “Olha, precisamos aqui definir uma estratégia de defesa, vamos pensar juntos”. “Mas que estratégia?”. “Irmãos gêmeos! Já tirei um preso com um argumento desses, acredita?”. “Mas eu nem tenho família, doutor”. “Bom, nesse caso, vejamos, uma variante também muito comum, podemos alegar se tratar de um homônimo! Talvez funcione… O caso é, precisamos provar que você não é você mesmo e está tudo certo!”. “Mas doutor, eu sou eu!”.

O advogado bufou, fez um sinal de negativo com cabeça, fechou a pasta e saiu resmungando. “Assim não há defesa que resolva…”.

Os dias se passaram e aquela situação kafkaniana parecia não ter fim. Por fim, foi levado a julgamento. Júri popular, já que o crime parecia de gravidade. Chegou ao tribunal algemado, onde encontrou novamente o sujeito gordo, careca e de bigode grosso, que lhe acenou desanimado. Quando o juiz entrou, todos se levantaram. Iniciada a sessão, o juiz tomou a palavra e se dirigiu ao réu. “O senhor confirma que é Antônio Cerqueira Matos?”. “Sim, meritíssimo, esse sou eu”. Os jurados se entreolham antes de o tribunal ser tomado por buchichos. “Atenção, silêncio!”, pediu energicamente o juiz, batendo com gosto seu martelinho de juiz. Com a paz restabelecida, chama um intervalo.

Quando voltam, o veredicto já estava pronto. Culpado, como não poderia deixar de ser. O advogado ainda tentou alegar insanidade, argumentando em vão que o réu dizia coisas desconexas e inverossímeis, como o fato de que não fazia sentido algum assumir uma coisa daquelas de pronto. “Mas eu estou bem, estou em meu perfeito juízo apesar dessa situação esdrúxula!”. O sujeito coçou a careca desconsolado, enquanto o juiz e os jurados os olhavam, balançando a cabeça em desaprovação e um olhar meio incrédulo.

Bom, ao menos não teve o destino da história de Kafka. Ao final, soube do que era acusado. Mas não tinha o que fazer, era realmente culpado e só lhe restava se resignar. Ele era realmente ele.

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