Ora pro nobis

(rogai por nós)

Espalhou o pó sobre a mesa, pegou o cartão do banco e fez uma larga carreira que parecia uma grossa lagarta branca. Tampou uma das narinas e aspirou com força. Levantou a cabeça e ainda inspirou para certificar-se que não desperdiçaria nada. Após alguns segundos estático, tomou um gole generoso do whisky para dar aquela rebatida e bateu com força o copo na mesa. Um fio de suor escorria do rosto, descendo pelo pescoço até afluir nos vastos pêlos do peito.   Arfava.

_Você não se cansa dessa vida? Vai acabar morrendo com tanta merda que toma, disse ela, enquanto se espreguiçava na cama. Uma fina camisola semitransparente recobria seu corpo, não dando conta da fartura de suas formas. Uma serpente com a boca aberta e dentes ameaçadores tomava sua coxa esquerda, indo do joelho até a pélvis. A tatuagem de um verde já desgastado em sua pele morena dava voltas na perna.

_Era o que só o que me faltava, uma puta querendo me dar lição de moral, respondeu, com a cabeça baixa e não conseguindo esconder sua irritação, contida ainda que as palavras fossem fortes. Podia-se perceber, contudo, que se arrependera tão logo disse aquilo, pois balançou a cabeça em sinal de desaprovação de si mesmo. Ergueu os olhos procurando os dela.

_Vai tomar no seu cú, ela explodiu, levantando-se com raiva. Como se você fizesse algo melhor, ainda disse. Ele, porém, correu em sua direção e a abraçou forte, lutando contra seus socos e tapas. Era mais forte que ela, mas os golpes doíam. _Desculpe, meu amor, falei sem pensar, tentava repetir enquanto a segurava. Aos poucos ela cedia e o que antes era uma luta foi se transformando em um outro tipo de batalha, de beijos famintos e arranhões. Ela percorreu seu torso e puxou a braguilha com as duas mãos, fazendo estourar o zíper, enquanto ele rasgava a fina camisola, atirando suas partes pelo chão.

Jogaram-se já completamente nus sobre a cama, onde se possuíram com violência e desespero. Ele ainda teve que segurar com força sua boca para abafar os gritos, ao mesmo tempo em que continha os seus próprios. Terminaram já exaustos, machucados e banhados em suor. O lençol, encharcado, ganhou manchas salpicadas de vermelho.  Em cima do criado mudo, uma pequena imagem de Maria já desgastada pelo tempo testemunhava tudo com um ar de indiferença.

Sem dizer nada, ela se levantou, vestiu-se mecanicamente, tirou o espelhinho da bolsa e começou a se maquiar. Já ele foi ao banheiro e, também sem nada falar, tomou uma ducha rápida. Fechou a torneira quando ouviu a porta batendo. Desdobrou a camisa preta do guarda-roupa e vestiu, ajustando o colarinho bem rente ao pescoço. Já estava atrasado. Saiu do quarto, andou por um corredor estreito até abrir uma porta que o levou a um ambiente amplo, silencioso e de uma reconfortante meia-luz.

Desenrolou o rosário do bolso e entrou na parte de trás do confessionário. Tomou um suspiro antes de autorizar o fiel a começar a falar. Esse mundo está cheio de pecado, pensou.

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