Day is done

When the game’s been fought
You speed the ball across the court
Lost much sooner than you would have thought

Day is done, Nick Drake

A velha xícara jaz no canto da pia, com o resto do café já endurecido impregnado em seu fundo. Lá fora, o crepúsculo se impõe e a noite de outono se anuncia com um frio de quase inverno. Mais um dia se vai, ele pensa, prostrado na mesa da cozinha com um cigarro na ponta dos dedos cuja cinza já o consome quase que inteiro. É hora de os fantasmas saírem de seus esconderijos para assombrarem o mundo dos vivos.

Caminha silenciosamente por entre os cômodos vazios até o quarto, onde um lençol velho e empoeirado cobre precariamente a cama de casal. Apenas três caixas de papelão fazem parte do cenário, postados ao lado do guarda-roupa, já vazio.  As frestas das gavetas entreabertas revelam pedaços de papeis amassados. Um ambiente morto, insalubre, como uma Chernobyl em simulacro circunscrito em 10 metros quadrados.

Teriam os objetos memória, perguntou-se. E se, como acreditam os homeopatas, os átomos pudessem guardar em si uma espécie de memória das coisas com que, de alguma forma, se relacionaram? Assim, fosse, aquele quarto escuro e abandonado conteria uma parte, por menor que fosse, daquele velho amor que, por si só, já não mais existia? Restariam então microscópicos fragmentos arqueológicos para os escafandristas do futuro encontrarem, como na música. Seria aquilo que ainda o seguraria ali?

No quarto escuro, relances de imagens e sons projetam-se como um filme em sua retina. Percebe que quase pode tocá-lá ali, em seus cabelos negros e revoltos molhados pela chuva. O rosto vermelho pelo frio. Ouve aquela risada mal contida que deixava escapar quando fazia alguma troça. “Besta”, era o que ela sempre respondia antes de atirar o travesseiro em sua cabeça. As imagens desvanecem-se para dar lugar a outras, mais recentes. Ela prostrada em frente à porta, olhos voltados para o chão, com o semblante grave. Alcança as malas, dá as costas e abre a porta. “Adeus, espero mesmo que fique bem”, ouve, antes de vê-la desaparecendo no ar como um dos incensos que gostava de acender para melhorar a vibração da casa. Feng Shui, ela tentava explicar, mesmo sabendo que ele não fazia a mínima ideia do que era aquilo.

Tenta ainda agarrar com certo desespero sua imagem esvaindo-se, mesmo sabendo ser em vão.  Instantes depois, está só novamente em Chernobyl. Ele e seus fantasmas.

Agora, tudo aquilo não passava de delírios e reminiscências em sua cabeça. Um conjunto de ligações neurais e cargas elétricas viajando entre suas sinapses. Quando morrer, terá tudo então terminado, ficando apenas, talvez, os átomos daquele quarto por testemunha.

Às vezes, os fantasmas não são dos mortos, disse a si mesmo. Ela, já havia perdido. Às vezes, pensou, é preciso descer fundo e encarar de frente o abismo. Talvez ali, bem lá no fundo, possa agora encontrar a si mesmo.

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