Desnorteio

Uma enorme bolha tomava conta de seu peito, sufocando-a. Vinha sempre à noite, enchia-se como um balão de ar transplantado em sua caixa torácica, a comprimir suas vísceras dificultando a respiração. Arfava, sentia vontade de gritar, expelir todo aquele ar com um grito primal, cru, alto. Mas continha-se. Era isso o que sempre fazia. Era isso o que lhe ensinaram. Conter-se, reprimir tudo aquilo que guardava no peito. Aquilo que ficava maior e mais cheio a cada vez que andava na rua e ouvia impropérios, dos mais sórdidos. Aquilo que pesava um pouco a cada dia ao notar os olhares acusadores dos colegas e dos professores. Aquilo que ardia cada vez que seus pais faziam aquela cara de desaprovação, aquele ar de decepção que só os filhos podem identificar e sentir. Aquilo que doi, e que doía cada vez mais ao ligar a televisão e se ver refletida na tela como um pedaço de carne, e se perguntar, eu deveria ser assim? E perceber que não era, e que nunca seria. Seria sempre uma estranha. Em casa, na rua e na escola. E dentro de si mesma. E enquanto isso aquela bolha se inflava e sufocava. E não podia gritar, correr ou pedir ajuda. Ódio, tristeza e desprezo que se amalgamam num único desespero. Desnorteio. Estranhamento num mundo em que não se encaixava. E se encaixar para que? Para viver uma vida vazia, sem sentido, asséptico, guardada e exposta como numa prateleira de uma loja de departamento? Ou na sessão de frios, junto às outras carnes enfiadas no gelo e anunciadas como promoção. Só tinha certeza de uma coisa. Queria correr. Para onde? Qualquer lugar, simplesmente correr de tudo aquilo ali, escapar por um alçapão mágico que a faria sumir para sempre. Mas não tinha para onde. Não tinha como. E, para falar a verdade, não tinha forças para qualquer coisa assim. Estava extenuada, exaurida. Tinha claustrofobia do mundo e chorava no pequeno canto escuro do quarto, sozinha. Chorava no ônibus a caminho da escola, no banheiro do colégio. E ouvia os comentários e os buchichos. E o que poderia fazer? Fugir pra onde?

Tudo o que podia fazer era puxar a saia rente ao joelho, escondendo as marcas dos cortes da noite anterior e engolindo seco para não deixar aquela bolha escapar pela boca.

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