Redenção

Não soube explicar exatamente o que sentiu quando ouviu o diagnóstico. Tinha uma intuição de que não era algo corriqueiro, mão não esperava por aquilo. Câncer. Terminal. No máximo, três meses de vida, se tivesse sorte. Ouvia as palavras do médico com atenção, franzindo os olhos atrás de seus óculos, como sempre fazia quando se concentrava em algo. “O senhor está ouvindo?”, perguntou o doutor, surpreso pela falta de reação do paciente diante da notícia. “Sim, claro, por favor, continue”, disse. “Bom, veja, eu sei que é difícil, nós temos psicólogos que podem lhe ajudar…”. “Não, obrigado doutor, creio não ser preciso”, disse com naturalidade.

Se era verdade que não esperava tal notícia, também era verdade que não estava bem surpreso. Racional que era, encarou aquilo com naturalidade. Sedentário, sessenta anos, fumante inveterado, não tinha motivos para se surpreender. E começou a pensar na morte. Deveria se preparar, ou melhor, preparar sua partida, uma festa para íntimos ou algo do tipo? Não, achava isso meio ridículo, pretensioso, como se fosse alguém tão importante cujo desaparecimento causaria uma comoção. Sabia que não seria assim, muito pelo contrário. Tampouco sentia medo. Quando jovem chegou a ter medo da morte. Nunca fora religioso e, em certos momentos, chegava a ter inveja do conforto que esses misticismo traziam ao crente, tanto na vida quanto, principalmente, na morte. Mas, enfim, o que é, é. Sabia que, quando morresse, desapareceria e seria como se nunca tivesse existido. Logo se conformou. Leonardo Da Vinci morreu, Beethoven morreu, seu tio Virgílio, grande ponta esquerda do Guarani, morreu. Por que haveria de ser tão especial? Morreria também e o mundo, que tem treze bilhões de anos, continuaria muito bem sem ele, como sempre esteve.

No dia seguinte, chegou na repartição, colocou o casaco sobre a cadeira, o copo de café do lado esquerdo da mesa e se sentou, cumprimentando a todos com um leve aceno de cabeça, como sempre fazia. Não disse nada a ninguém. Achou conveniente, contudo, diante das circunstâncias, traçar um balanço de sua existência. Sim, por que não? Todos faziam isso. Ainda que não fizesse sentido estabelecer perspectivas, pelo menos a médio e longo prazo, uma avaliação, ainda que tão somente para si mesmo, seria interessante. Interessante? De bom grado, digamos.

De sua infância, não havia muito que relatar. Sua mãe contava-lhe sempre que, quando nasceu, demorou quase cinco minutos para chorar. A parteira chegou a achar que estivesse morto ou agonizante, até que abriu o berreiro. Depois disso, acharam só que fosse meio retardado.

Filho do meio de três irmãos, teve uma juventude pobre, embora não miserável. Começou a trabalhar cedo, como auxiliar de escritório de um tio, parente da parte bem resolvida da família. Nunca fora um bom aluno, mas também não era o pior. Gostava de matemática e pensou em ser arquiteto. Depois, administrador. Depois, engenheiro. Acabou sendo funcionário público e, numa repartição, escondido no canto de sua baia, viu passar a vida inteira. De lá testemunhou golpes de estado, revoluções, eleições históricas e presidentes caindo. A sua mesa, porém, permanecia praticamente a mesma nas últimas quatro décadas, com a caneca de café do lado esquerdo, cuja borda já estava impressa na madeira, a única diferença era o computador no lugar da máquina de escrever. E os retratos dos presidentes na parede.

Em quatro longas décadas, os anos se passaram como uma sucessão interminável e arrastada dos dias. De seu canto, viu colegas morrerem, outros chegarem, os cabelos caírem e as costas encurvarem-se. Da linha limítrofe entre o trajeto de casa até o trabalho, e vice-versa, teve poucas oportunidades de conhecer muitas pessoas e, deste modo, não constituiu família. Seus laços de amizade, da mesma forma, circunscreviam-se aos colegas de repartição. Nada muito profundo ou verdadeiro, como não poderia deixar de ser naquele tipo de ambiente.

Parou um momento sua rápida digressão e voltou a olhar para a tela do computador. O documento do Word permanecia lá, branco. Aconteceu então algo que nunca havia se passado. Questionou-se o que fizera da vida. Engraçado como que, em seis décadas, nunca tinha se preocupado com isso. Não se incomodava em como seria lembrado, porque não estaria aqui para receber os louros ou a glória de feitos realizados em vida. Tampouco seu legado o tirava o sono, pelo mesmo motivo, e porque, além de tudo, não se considerava bem um altruísta preocupado com as futuras gerações.

O que o pegou foi um sentimento mais pragmático. Tivera a sorte de, por um acaso muito improvável nesse universo, existir. E existir como um ser consciente. Quais as chances disso acontecer? Poucas, evidentemente, quase nenhuma. No que pese a improbabilidade de tudo isso, constatava que não aproveitara seu reles quinhão da vida de forma produtiva. Verdade, não era altruísta nem nada parecido, mas, poderia ter feito algo importante com sua efêmera existência. Isso o atormentou de uma forma que nunca pensou que aconteceria.

Na saída, despediu-se dos colegas de forma lacônica. Taciturno, caminhou de volta pra casa pensando naquilo. Precisava encontrar alguma forma de resolver a sua situação. Compensar seis décadas de uma vida medíocre em apenas poucos dias. Encontrar uma redenção que o absolvesse nos momentos finais por sua própria consciência. Não era tarefa fácil, mas estava disposto a fazê-lo. Pela primeira vez em sua vida, iria até o final.

Na manhã seguinte, como em todas as manhãs, folheou o jornal do dia enquanto tomava café. Um estalo ecoou na cabeça. Parou por um momento, estático. Será? Era capaz daquilo? Seria certamente uma grande contribuição ao mundo. Seria lembrado, ainda que, é importante reforçar, não ligasse pra isso. Fariam muitos juízos de valor sobre aquilo, claro, mas não estaria aqui pra ver. Largou o café em cima da mesa, pela primeira em sua vida, afivelou os cintos, puxou um cigarro da carteira e partiu. Mas hoje não iria trabalhar, não tinha mais tempo pra isso.

Estava decidido. Iria matar o presidente.

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