‘Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio?’

_Não posso dizer que tenha realmente entendido o teu problema, rapaz_ Disse, enquanto encostava o estetoscópio frio em suas costas, provocando arrepios.

_É bem simples, doutor. Quer dizer, é estranho, muito estranho, mas ao mesmo tempo é simples_ respondeu, arqueando as costas a cada pontada de frio que recebia.

_Tente então me explicar novamente, mas seja mais claro, por favor… Quer dizer que você acordou hoje pela manhã e não era mais quem era? _ Percebeu que não seria necessário verificar sua respiração ou pulso e voltou o estetoscópio de volta ao pescoço.

_Isso, doutor, exatamente. Logo que abri os olhos percebi que havia algo errado. Não reconhecia minha cama, meu quarto… Levantei-me, procurei um espelho e, quando observei meu próprio reflexo nele, não me reconheci… Respirei fundo, achei que estava num pesadelo, mas quando vi que era real, que tudo aquilo estava acontecendo, entrei em pânico.

_Olha, filho, é normal que um dia ou outro acordemos nos sentindo um tanto estranhos… Isso é absolutamente normal, não quer dizer que esteja doente ou algo assim.

_Não doutor, o senhor não entendeu… Não estou falando em metáfora, estou sendo literal! Eu era outra pessoa!

Um momento de silêncio se fez então, como se os dois se analisassem mutuamente, tentando perscrutar a mente um do outro.

_Veja bem, rapaz_ Disse, apontando para uma caixa no canto da sala, que logo se podia ver se tratar de algum instrumento musical, com os cantos arredondados_ Sabe o que é aquilo? É uma guitarra elétrica dos meus tempos de adolescência. Tocava numa banda, acredita? Fazíamos cover de Ramones, Clash… Sabe qual era o meu sonho? Muitos sonham em se tonar médico, mas eu queria mesmo era tocar, ouvir os gritos das multidões, encenar aquela catarse coletiva todas as noites… _Dizia, enquanto a empolgação o fazia cerrar os punhos e brilhar os olhos_ Bom, e aqui estou eu. Em algum momento da vida, as responsabilidades falam mais alto, sabe? Quando me olho no espelho, com esse avental asseado, esses cabelos brancos, que já me faltam inclusive, esses óculos, mal me reconheço. Quase posso dizer a mim mesmo: ‘Quem diabos é você?’

_ Doutor, com todo o respeito, o senhor ainda não me entendeu. Não tenho nada contra a minha vida. Quer dizer, não posso dizer que seja uma vida de aventuras, emocionante e tudo mais. Mas também não posso me queixar. Trabalho numa corretora da Bolsa, ou trabalhava, já não sei mais… Mas enfim, tenho esposa, uma vida estável e até certo ponto feliz. Não tenho do que reclamar.

_ E quando acordou, hoje, quem você era?

_Alguém completamente diferente! Em cima do criado mudo havia uma carteirinha da OAB, então penso que seja advogado. A foto da identidade era a mesma que via no reflexo do espelho! Peguei o celular o disquei o número da minha esposa, quando tentei contar a ela o que estava acontecendo, que precisava de ajuda, ela desligou na minha cara. Liguei de novo e ela disse que iria chamar o marido e acionar a polícia. Não sei o que está acontecendo.

_É como aqueles filmes em que o homem troca de corpo com a mulher, e vice-versa?

_É pior, porque no caso eu não sei quem eu era, ou quem era o homem que agora sou! E mais, quem deve estar no meu lugar. Estou desesperado, não sei o que fazer! E, doutor, por favor, eu não estou louco. Sempre fui uma pessoa extremamente sensata e racional. Se estivesse desequilibrado, certamente eu saberia.

_Bom, filho, eu sinceramente não sei se posso te ajudar…_ Disse coçando a cabeça e ajeitando os óculos_ Nunca vi um caso parecido. A única coisa que poderia fazer é, talvez, encaminhá-lo a um neurologista pra fazer uma ressonância.

_Já lhe disse, doutor, não há nada de errado com a minha cabeça! Olha, eu sei que é difícil acreditar, na sua posição eu pensaria a mesma coisa. ‘Esse cara tá maluco’. Mas, por favor, acredite, eu estou no perfeito domínio das minhas faculdades mentais e o que lhe digo é a pura verdade.

_Difícil, difícil… Eu poderia te reter aqui por insanidade. Seria, inclusive, a coisa mais sensata a se fazer. Mas vou te propor uma coisa. Volte pra sua casa, a que você acordou hoje. Tome um banho quente, relaxe, e vá dormir. Se você acordar a mesma pessoa, me ligue e vemos o que fazer.

_Tudo bem doutor, obrigado. Sabe de uma coisa? Só de saber que há alguém me ajudando já me alivia…

_Cuide-se rapaz_ Disse, batendo nas costas do sujeito enquanto o levava à porta.

Ao fechar a porta, retornou à cadeira e apertou uma tecla do telefone. ‘Marlene? Está vendo esse rapaz que acabou de sair do meu consultório? Por favor, mande sedar e levar à psiquiatria’.

Levantou-se e abriu a caixa esquecida no canto, revelando uma Mosrite vermelha empoeirada. Apoiou-a no colo e tirou os acordes de Blitzkrieg Bop. Quem sabe amanhã não seria um astro do rock?

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