Segunda chance

Uma corrente elétrica percorreu seu corpo, fazendo o coração disparar. Por alguns instantes, paralisada, tentou entender como aquilo seria possível.

Como fazia todas as tardes, havia sentado no café a caminho de casa. Hábito de anos, era o momento raro de tranquilidade que aproveitava para ler o jornal que não conseguira ler de manhã e, principalmente, pensar na vida e se entregar a devaneios. Acomodou-se em seu lugar cativo e pediu um espresso, apesar do sufocante calor daquele verão. Pendurou a bolsa na cadeira, acomodou a pasta de trabalho na mesa e abriu a revista que pegara ali mesmo, mais para se distrair passando as páginas do que para ler mesmo. Com o café já na mesa, despejou uma pequena colher de açúcar e mexeu displicente, quando olhou para o lado, o que a fez imediatamente largar a colherinha.

Bem ao seu lado, paralela à mesa, uma jovem de cabelos negros e compridos também tomava um espresso. Havia espalhado seus livros por sobre a mesa e apoiava a cabeça na mão esquerda, enquanto levava a xícara à boca com a direita. Distraída, carregava um meio sorriso, tímido, como se sonhasse de olhos abertos, de modo que não percebeu a mulher que a espiava bem ao seu lado.

Como isso seria possível? Aquela menina era exatamente a sua imagem de anos atrás. Era como se olhasse um espelho e pudesse se ver refletida tal como era há 15 anos. Seu espanto foi maior quando, com o canto dos olhos, pôde reconhecer os livros do cursinho na mesa, o anel no dedo médio da mão direita, o esmalte branco. Não era simplesmente uma sósia de seus tempos de colégio. Era ela mesma, ali, ao seu lado, jovem. Lúcida e cética que era, desconfiou de alguma alucinação, talvez causada pelo calor. Tomou um gole de café, apertou os olhos com força e voltou a olhar para o lado. Ela continuava ali, mexendo seu espresso e sorrindo para o nada.

Alguma explicação racional haveria de ter. Uma fenda, um descompasso no tempo, ou coisa parecida? Certo é que, bem ao seu lado, estava ela mesma, jovem, e as pessoas ao redor nem desconfiavam da estranha situação que ali se passava. Pelas roupas, livros, e  o corte de cabelo, calculou que deveria estar com 18 anos ali. O sorriso incontido expressava o entusiasmo da época, os amores da juventude e os sonhos sonhados acordados nessa época da vida.

Já que não podia encontrar uma explicação, haveria ali uma oportunidade única. Algo que ninguém mais poderia ter e que, tantas vezes imaginara nos momentos de frustração. Pensou em chamar sua vizinha e dizer-lhe que o curso de Direito para o qual tanto estudava não daria certo. ‘Essa área não é pra você, mas se esforce para não acabar como uma corretora de imóveis frustrada’, diria. ‘Acredite em você mesma, não vá na conversa dos outros. Não se acomode para descobrir, mais tarde, que todos seus sonhos escorreram pelos dedos’.

Olhava-a enquanto recordações brotavam em sua mente e os olhos se enchiam de água. Dor e frustração sufocadas emergiam. ‘Daqui a pouco, seu coração vai se destroçar por causa de um idiota. Não se deixe abater. Você é maior que isso, você tem que saber quem é, aonde quer chegar. Não se leve tanto a sério, ninguém morre de amor. Não sofra o que não merece ser sofrido. Preste mais atenção nas pessoas que estão ao seu redor, e que você vai deixar ir embora’.

Surpreendeu-se ao repetir, em sua cabeça, frases como que saídas de um livro barato de auto-ajuda, algo que sempre teve repugnância, mesmo nos tempos de adolescência. Mas este seria, literalmente, uma auto-ajuda. Um manual de instruções para que não repetisse os mesmos erros.

Lembrou-se da mãe, que morreria quando tinha 20 anos e cuja culpa a perseguiu por anos a fio. ‘Daqui a pouco, sua mãe vai ficar muito doente. Ela vai morrer. E você, só depois de muitos anos, vai entender e perceber que não teve culpa de nada. É normal essas relações difíceis com os pais nessa idade, não carregue isso nas costas’.

Poderia, com a sabedoria forjada pelos próprios erros no decorrer desses anos, ditar a ela mesmo o caminho das pedras. Diria que ela não é o centro do mundo, que a vida não é tão complicada quanto queremos fazer parecer e que, na verdade, por mais que pudesse achar estranho ou inverossímil, a vida é leve, ou assim deveria ser.

Enxugou os olhos com o guardanapo, discretamente. Tocou de leve no ombro de sua vizinha, ‘desculpe, menina’. Ela levantou a cabeça, e fitou-a. Um momento de silêncio se estabeleceu, até que a mulher conseguiu finalmente esboçar algumas palavras. ‘Você pode me passar o açúcar, por favor?’. A garota sorriu e passou o potinho, voltando logo em seguida ao seu mundo de devaneios.

Ela voltou a olhar para a garota e percebeu que tudo o que diria seria egoísta. Estragar aquele belo momento de sonhos e expectativas, ainda que fadados ao fracasso, seria um crime imperdoável.

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