(Mais uma) Teoria de amor  

_Por que você está me olhando desse jeito? – Ela perguntou, desconfiada, levantando a sobrancelha direita como costumava fazer quando desejava provocar. Seu aspecto aparentemente frágil contrastava com uma personalidade forte e um instinto desafiador. Terminou a pergunta e bebeu o resto de cerveja que já esquentava no copo americano repousado na mesa de madeira.

O típico boteco exalava um forte cheiro de fritura que se misturava ao som da jukebox e das vozes dos demais clientes. Na mesa de madeira, inúmeras histórias impregnadas junto ao verniz carcomido, algumas literalmente entalhadas a faca. “Joelson e Juliana”, revelou-se embaixo do copo.

_Lembra daquele dia que conversávamos sobre as definições de amor? _ respondeu ele, também terminando a pergunta com um longo gole de cerveja, repondo, prontamente, seu copo e o dela. Transpirava naquele começo de verão, embora já fosse noite. Mas não conseguia deixar de mostrar sua ansiedade em falar, mesmo que não falasse muito normalmente. Antípoda, considerava-se frágil e de personalidade não tão forte. Mas ali, ele gesticulava, como um bom italianão do Bixiga, com gestos amplos e hiperbólicos, quase histriônicos.

_Sim, você resumiu tudo numa mera convenção social, historicamente construída, não é? – Riu, irônica, intencionalmente tentando irritá-lo. Ele, porém, permanecia impassível e sua ansiedade só aumentava.

_O fato de ser uma construção social não quer dizer que não existe, muito pelo contrário… Quero dizer, não existe o amor em si, essa coisa abstrata e idealizada que todos falam, com “a” maiúsculo. _ Animava-se cada vez mais com a sua fala, gesticulando tanto que acabou derrubando a garrafa, derramando cerveja por sobre a mesa de madeira e suas histórias, encharcando Joelson e Juliana.

_Calma lá, garoto_ Ela riu, nervosamente, enquanto o ajudava a conter aquela bagunça com alguns guardanapos _ Mas me fala, de qual amor você se refere? Ao “eros”, “philos”…

_Não!_ interrompeu bruscamente_ Não quero traçar essas subdivisões arbitrárias ou cronológicas, ou que quer que seja… Estou falando do “amor” como dizemos habitualmente, cotidianamente, até, diria eu, de forma leviana, principalmente em tempos de Facebook…

_Ah, não me venha criticar as redes sociais, ‘senhor cult’, ou ‘pseudo-cult’, respondeu, já abusando de seu arsenal de ironias que, sabia, iriam irritá-lo. Mas ele, estranhamente, não se importou com o ataque e permaneceu impassível. Mais ainda, continuava a falar com ainda mais ímpeto.

_Não estou criticando, estou apenas dizendo que hoje há uma espécie de banalização dessa palavra, um certo esvaziamento de seu sentido, seja lá o que cada um interpretar dele_ disse, terminando de enxugar a mesa e jogando o papel molhado na lixeira ao lado.

Acenava ao garçom para trazer mais uma, quando ela perguntou qual então seria a sua mais nova teoria. Dizia que ele era uma verdadeira ‘fábrica de teorias’. ‘Uma fábrica de teorias inúteis’, costumava troçar ele.

_Bom, é o seguinte. Eu acho que amar é você deslocar teu centro de gravidade de você mesmo para fora, para outra pessoa ou outras pessoas, que seja _ Falava quase sem respirar, até que chegou uma nova garrafa, com a qual serviu rapidamente os dois copos_ É o seguinte, nós vivemos pelos outros, nos enxergamos através do olhar dos outros, certo? Mas, contraditoriamente, ficamos centrados em nós mesmos, até mesmo quando dizemos que estamos apaixonados, na verdade, ficamos apaixonados pela ideia de alguém se apaixonar pela gente, como narcisos num espelho…

_Caralho, você congelou a porra da cerveja, seu don Juan de botequim atrapalhado _ praguejou ela, rindo de forma displicente. Ele se desculpou rapidamente e continuou disparando sua teoria como uma metralhadora.

_Bom, então, pra mim o amor é quando a gente supera, digamos assim, esse narcisismo exacerbado, esse individualismo capitalista, e passamos não só a nos refletirmos no outro, mas a nos satisfazer no outro_ Bebeu outro copo, mesmo quase congelado, para prosseguir_ Os pais, por exemplo, se projetam quase que de forma absoluta nos filhos, suas felicidades passam a ser a dos filhos, a tal ponto que se supera até mesmo o receio da morte.

_Ou seja, amar é se anular? Diluir tua individualidade no outro? _ Provocou ela, conscientemente exagerando o que ele dissera.

_Pelo contrário, não acho que haja uma anulação, mas o inverso. Tirando o foco exacerbado de nós mesmos, podemos nos enxergar com uma boa perspectiva, não é? _ Retrucou confiante, brindando com o copo_ Quando Che Guevara disse que um revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor, estava se referindo a isso, o cara largou uma vida de conforto para lutar e arriscar a própria vida em Cuba, um país que nem era o seu, e depois abandonou o que poderia ser uma vida de privilégios para morrer na selva da Bolívia… Pode-se dizer que ele se anulou?

_Bem, sei lá, acho que você está confundindo amor romântico, ou ‘eros’, com uma noção de altruísmo… Acho que são coisas diferentes, don Juan…

_Estou citando o que ele teria dito… Ele não disse que um revolucionário é movido por um altruísmo, ou fé, ou o que seja, mas por “grandes sentimentos de amor”. Mas entendi teu ponto de vista, e quase posso concordar com ele… Mas o que quero dizer é que o amor, pra mim, é você se descentrar do “eu”, superar o medo da morte… Parece um lance meio budista falando assim, mas vejo de forma bem concreta.

_E quanto à noção de posse, ciúme? Como isso se encaixa na tua teoria?

_Pra mim, isso já é outra coisa. Reflexo de uma sociedade de viés patriarcal, sei lá, qualquer coisa menos amor. Diria até que diametralmente oposto _ gostava de usar essa palavra ‘diametralmente’_ Porque, pensa comigo, quando amamos, se nos projetamos no outro e passamos a nos satisfazer através dele, isso deveria ser o contrário de possuir, controlar…

_Tudo isso é muito bonito, Don Juan, acho até que você foi do mais puro ceticismo a uma ideia romântica e idealizada… _ riu, sarcástica.

_Não sei, quando a gente, por exemplo… _ Deteve-se a tempo, deixando a frase na metade e as palavras perderem-se no ar.

O riso no rosto dela se desfez de pronto, e os olhos voltaram-se para baixo. Fitou o copo enquanto desenhava com ele círculos imaginários na mesa, contornando Joelson e Juliana.  Sem nada dizer, ele acendeu um cigarro, jogando a fumaça para cima como que tentando desfazer aquela sensação, carburando-a para aspergir ao universo. Percebeu que atravessara uma fronteira delicada, dolorosa.

Um silêncio ensurdecedor desconfortante tomou conta da mesa, quase que abafando o som da jukebox e das conversas ao redor.

_Bom, é melhor pedir a conta_ disse ela, pegando a bolsa pendurada na cadeira.

Ele apenas assentiu com a cabeça. E a sua teoria, como hipótese não verificável ou experimentada, iria para a gaveta das velhas teorias inúteis e inacabadas.

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