Feliz 2013  

Porcamente inspirado em Rubem Fonseca (em sua fase já decadente)

O mundo tem seis bilhões de pessoas e tinha de ser justamente ele.

Confesso que a surpresa não se deu tanto pela decisão em si, mas por me escolherem pra tarefa. Ele estava dando bandeira demais nos últimos meses. Os desfalques no caixa da organização ficavam cada vez mais escancarados e, como se isso não bastasse, vez ou outra ele sumia por semanas. Sabia que era só uma questão de tempo até darem o sinal, mas não imaginava que seria logo eu a cumprir esse contrato.

A ordem veio como todas as outras, na caixa do Correio de uma manhã de terça. Naquele dia, segui a rotina, comi meu pão na chapa junto com um pingado forte na lanchonete da esquina, voltei à portaria do prédio e abri a caixa do número de meu apartamento. Não era todas as semanas que chegava um pedido, às vezes ficava quase um mês sem receber nada. Mas naquela manhã estava lá o papel, um pequeno bilhete com apenas uma palavra, datilograda: “Sabugo”.

Sabugo era um sujeito forte, um negro entroncado e quase sem pescoço, daí o apelido que o acompanhou desde a adolescência. Mais ou menos na mesma época que nos conhecemos, lá em Vilha Guilherme, Zona Norte de São Paulo, onde morávamos na mesma rua. Foi quem me introduziu nesse negócio quando me viu na pior após cumprir pena. Artigo 121, homicídio. Percebeu que eu tinha tino pro negócio. Essas coisas se vê pelo olhar.

“Se liga nisso, Flaco, é um emprego dos bons e você pode se dar bem”, me disse. É, meu apelido era esse, dado por um colombiano que conhecíamos na época que começamos a furtar automóveis e levar pra desmanche, entre outros serviços freelancers. “Mas você tem que tomar jeito, cara, tem que ter disciplina e responsabilidade, se não dança, sacou?”. Um emprego como qualquer outro, com alto grau de exigência e concorrência. Dado o serviço, tinha que ser executado com eficiência e perfeição. Por fim, ele só me advertiu de uma coisa, que eu nunca esqueci: “Quando você tá dentro, não pode mais sair”.

Confesso que o primeiro contrato não foi fácil. Um viciado, em dívida com um de nossos clientes. Trabalho simples pra um iniciante. Havia pego cana por conta de uma briga comum, coisa à toa, amadora, mas isso era diferente. Levei uns três dias estudando os passos do alvo. Infelizmente, era o tipo de pessoa que não tinha uma rotina bastante definida, o que me impediu de traçar com bastante detalhe o momento e o local da ação, tal como Sabugo orientou. Enfim, no terceiro dia, esperei-o passar por um lugar ermo, um terreno baldio que ele tinha que passar pra chegar em casa. Fui atrás, guardando uma distância de alguns metros. Apertei o passo quando vi que estaria no local mais adequado, engatilhei minha ponto 40 e mirei na nuca. Outro toque do Sabugo. Mas na hora o sujeito se virou e o disparo o atingiu um pouco acima do septo. Com o impacto, seu corpo rodopiou para a direita e ele caiu com o tronco pra baixo e as pernas para o lado. Arfava ainda quando me aproximei e efetuei o tiro de misericórdia. Desta vez na nuca.

Sabugo, exigente que era, não deixou de ralhar com as minhas falhas. Mas pegou leve por ter sido a primeira vez. Naquele dia, saímos pra comemorar num boteco da Vilha Guilherme, aonde sempre íamos quando morávamos lá. Foi ali, já bêbado com a cerveja e os rabos de galo, que Sabugo contou seu sonho de ver os fogos no reveillon em Copacabana, como sempre via na televisão. “Porra Sabugo, isso não é nada difícil, a gente pega o carro e desce pra lá”. Ele riu e só disse que as coisas não eram tão simples. De fato, isso já faz um par de anos e até agora não havíamos ido pra lá ver os fogos.

Nesse tempo eu cresci junto com a firma. Ficamos cada vez mais profissionais e ampliamos nossa carteira de clientes. Alguns casos ficaram até famosos. Evidentemente eu não posso dar mais detalhes aqui. Mas o fato é que aquilo se tornou uma rotina, quase um emprego comum. E eu tomei gosto pela coisa, me disciplinei e me tornei querido pela direção. Limpava a arma regularmente, verificava todos os protocolos de segurança e estudava minuciosamente cada contrato a fim de apresentar os melhores resultados.

Sabugo, por outro lado, parecia desgostoso. A direção começava a criticá-lo e passou a enviar os contratos mais baixos. Foi mais ou menos o tempo em que começaram a aparecer os desfalques. Instabilidade na gestão financeira da firma era inconcebível. Dia desses, me confidenciou que já não sentia ânimo p’raquilo. “Tô ficando velho, Flaco, os reflexos já não são os mesmos”. Mas a mim pelo menos, ele parecia mais forte que nunca. “Tomá no seu cú, Sabugo, deixa de frescura, isso daí é preguiça”, incentivei-o. “Flaco, tu não tá entendendo, a Tina me deixou, disse que não poderia ficar comigo enquanto não deixasse essa vida”, balbuciou. “Tá louco Sabugo, lembra da regra de ouro que tu me disse?”. Sabugo nada respondeu, apenas virou o copo de cerveja batendo forte na mesa.

Havia visto Tina só umas duas vezes na vida. Ela me levou um pequeno bolo na cadeia nos meus dois aniversários que passei por lá. Na verdade, aqueles bolinhos de supermercado com uma vela espetada no meio. A pedido de Sabugo, que não poderia ficar visado num lugar daqueles. Achei engraçado quando a vi, imaginei a desproporção entre seu corpo franzino com a estrutura de Sabugo. Mas era uma boa moça, caixa de um supermercado na Zona Norte. Conheceram-se logo depois de eu ser preso e casaram-se, por assim dizer. Sabugo nunca disse a ela o que saía pra fazer todos os dias, mas ela desconfiava, claro. E o que era uma preocupação, passou a ser uma reclamação, depois uma exigência, e, por fim, um ultimato.

Mas Sabugo tinha consciência que, se deixasse o negócio, não só ele ia pagar como ela também. A separação o destruiu. O profissional meticuloso virou um displicente e, por fim, um perigo pros negócios. A situação caminhava pra um desfecho óbvio, e eu já imaginava. Tal fardo a organização não suportaria por tanto tempo.

Quando li o nome dele escrito no papel, segurei as lágrimas. Apertei-o bem forte, e joguei no chão com raiva. Caralho de vida. Bom, faltavam duas semanas pro ano novo e, contrariando o modus operandi da firma, resolvi esperar. Peguei o telefone, caixa. “Sabugo, meu filho, reserve teu revellion que vamos pra Copacabana”, deixei gravado.

A viagem foi tranquila. Fui dirigindo enquanto Sabugo observava o caminho com um olhar perdido. “Se liga, Sabugo, hoje tu vai realizar teu sonho de moleque”. Chegamos na Zona Sul e deixamos o carro afastado por conta do trânsito caótico dessa época do ano. Percorremos o restante do caminho andando, era o tempo de chegar na hora. Compramos um champagne barato e brindamos com dois copos plásticos.

Começou a contagem regressiva e Sabugo olhou para o alto. O zero irrompeu uma explosão de gritos e aplausos. De repente o céu ficou claro com os fogos tomando a orla. Virei para o lado e puder ver uma lágrima descendo do olho de Sabugo, enquanto continuava olhando pra cima, em silêncio. Era a primeira vez que o via chorar.

“Vai lá, Flaco, hora de fazer o que tu veio fazer, irmão”, disse, com uma voz grave, sem olhar pra mim.

Surpreso? Não, na verdade. Sabugo era bom demais pra não sacar as coisas. Me afastei, tirei minha ponto 40 da calça e, por trás, o baleei na nuca. Disparo certeiro. Apesar da altura, Sabugo tombou levemente. Evidente que isso contraria todos os protocolos da firma, mas abri essa exceção por minha própria conta e risco. Naquela situação, as pessoas em volta só perceberam o que acabara de ocorrer quando eu já estava distante.

No outro dia, tomei uma pensando nele.

Merecia mais que uma notícia perdida entre as enchentes da Baixada e a agonia de Chávez em Cuba.

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