Lost

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo 

(Traduzir-se)

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

(Poema Sujo)

Ferreira Gullar

O sol do final da tarde salpica pontos cintilantes no alto dos prédios.

Caminho pela Avenida São Luís no calor abrasador do final da primavera e, por um momento, quase posso esquecer da miséria e decadência do centro da cidade. Edifícios que tentam preservar a velha elegância aristocrática de outrora em meio ao caos, em vão. A polifonia do rush não deixa de ser a trilha perfeita para o vai-e-vem dos funcionários das lojas do calçadão, os meninos de rua que andam à deriva, os travestis que descem dos prédios para mais uma noite de trabalho.

Irônico, penso, que todo esse caos aparente não deixa de ter uma certa sintonia, e por que não dizer, harmonia com as nosso estado de espírito. A urbe como uma espécie de projeção dialética de nossa psique. Divago distraído, como sempre, perdido na metrópole e dentro de mim mesmo, enquanto levo a mão ao bolso à procura do isqueiro. Acendo um cigarro e trago fundo, para soltar a fumaça vagarosa que vai se misturar à fumaça dos escapamentos e à poeira do ar seco suspenso sobre a cidade.

“Ei filho, me dá um cigarro?”, ele disse. Uma sombra escondia o rosto e metade do corpo sob o toldo de uma loja de esquina que já fechava as portas. Parei e esperei meu interlocutor se revelar. Era velho, de uma idade indeterminada. O rosto vincado e maltratado pelo tempo emolduravam os lábios rachados e os dentes amarelados e pútridos. Não chegava a ser repugnante, era apenas um senhor de meia idade perdido entre outros tantos ali. Vestia uma camisa e uma velha calça de linho preto, já desbotada. Calçava um tênis encardido. Não sei explicar bem a razão, mas me pareceu bastante familiar. Fiquei um tempo fitando-o, perscrutando suas intenções, até desistir de lembrar se conhecia seu rosto de algum lugar e estendi o cigarro, no qual agradeceu com um aceno de cabeça.

Uma cena tão trivial não deveria chamar tanta atenção, mas a verdade é que a imagem daquele homem não me saiu da cabeça. Assim como seu rosto tão familiar. Estivera sempre ali? Ou talvez tenha vindo da região da Luz e da Cracolândia ganhar alguns trocados na rua e, vez ou outra, fumar um cigarro. Fato é que, a partir daquele dia, aquele velho se tornou parte da minha rotina, como os pontos salpicados do sol nos edifícios.

Certa feita o convidei a tomar um café na lanchonete da quadra seguinte, não sem a reprovação do atendente, que ignorei. Contou-me que viera do Norte, de uma cidadezinha perdida ao sul do Pará. Chegou em São Paulo, conseguiu fazer um curso técnico e arrumou um bom emprego. Casou-se, teve filhos. Não consegue se lembrar direito quando as coisas começaram a degringolar. A memória já lhe faltava e pregava peças. Só se lembra que começara a beber, a mulher o abandonando e levando os filhos. E os filhos? Se estiverem vivos, disse, já estão homens feitos, beirandos os 40. Tem vontade de encontrá-los? Não, respondeu envergonhado com a cabeça, melhor não o verem naquela situação e carregarem ao túmulo alguma vaga lembrança da infância.

O mistério de o porquê achá-lo tão familiar, assim, permaneceu. Chamava-me ‘doutor’, embora eu o repreendesse. ‘Não sou médico, nem advogado, e muito menos tenho um doutorado’, tentei explicar-lhe, mas tendo a leve suspeita de ter sido mal-sucedido. Seu nome? ‘Zé’, ‘Seu Zé’, o que, verdade seja dita, quase nunca ouvia. Certa vez perguntei-lhe onde dormia, mas ele simplesmente deu de ombros, baixou os olhos e disse ‘por aí’. Não tinha medo de acontecer algo? Olha filho, me disse, apertando os olhos, já perdi tanto nessa vida, que não tenho mais nada, o que alguém pode fazer?

Não culpa a cidade ou o governo, mas tão somente seu tortuoso destino. O que tem que ser, vai ser, não tem jeito, dizia, agradecendo outro cigarro. Nunca vi um ‘caráter lírico’ nos mendigos e despossuídos como aquele ministro de FHC nos anos 1990, mas devo confessar que seu Zé, para mim, se mesclou àquela paisagem urbana, como se tivesse feito para estar ali. Ao mesmo tempo que sua situação me incomodasse profundamente. Por que? Não sei, talvez uma desagradável identificação ao vislumbrar alguém tão incorporado à dinâmica urbana, sem qualquer sentido ou objetivo, simplesmente se movendo ao sabor da polifonia caótica do centro.

Chegava o verão novamente e, com ele, o sol escaldante. Desci o elevador, cumprimentei o porteiro com algum som incompreensível e me preparava para acender o primeiro cigarro do dia, quando me deparei com um aglomerado de pessoas na calçada. No meio, um corpo estendido coberto com um jornal. O que aconteceu? Não sei, disse alguém, amanheceu aí, morto. Meu estômago se contorceu quando pude identificar o tênis carcomido de seu Zé despontando para fora do jornal. As outras pessoas, indiferentes, me olharam com espanto com minha estupefação, e saí dali correndo, aos prantos.

Foi quando finalmente entendi de onde o conhecia, e o porque me parecia tão familiar.

Aquele homem, deitado na sarjeta sem vida

na verdade

era eu.

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