Breve anedota sentimental sem muita graça

Foi mais ou menos assim que ele me contou.

Juntou todas as economias pr’aquele jantar, minuciosamente planejado durante meses. Vestia terno, recém-comprado, talvez fosse a primeira vez que vestia aquilo. Esperou-a ansioso na mesa reservada no restaurante do alto padrão. Com dois meses de antecedência.

Seu coração palpitou forte quando ela apareceu. Estava mais linda do que nunca naquele vestido informal, o mesmo que usava quando a conheceu quase que por acaso na saída do cinema havia três meses. Parecia assustada, percebeu. Principalmente quando o viu enfiado naquele terno caro. Certo que causara boa impressão e surpresa, levou o plano adiante.

Acenou ao garçom, que trouxe prontamente o champgne num balde de gelo que, sozinho, custava a metade de seu salário no mês. Era a deixa para que ele sacasse o primeiro presente. Uma gargantilha dourada, banhada a ouro, 24 quilates. Ela, por sua vez, recebeu o mimo com um sorriso forçado. É, talvez tenha exagerado, desconfiou. Mas, uma vez colocado o plano em ação, não havia mais volta e teria de ir até o fim.

Respirou fundo e tentou engatar uma conversa descontraída, trivial, mas tinha monossílabos como resposta. Sentiu-a balançar os joelhos nervosamente sob a mesa. É agora ou nunca, pensou, qual um time que estivesse sendo goleado e que precisasse partir para o ataque desesperadamente para reverter o resultado. Sacou a caixinha preta aveludada do bolso do terno e a estendeu. Ela, já atônita, empalideceu enquanto abria vagarosamente a caixa, como se desarmasse uma bomba relógio.

Quando abriu uma fresta e pôde observar seu interior, levou a mão à boca num soluço curto.

Preciso fumar um cigarro, ela disse antes de pegar a bolsa e sair. Ele, de tão ansioso, só foi se lembrar que ela não fumava alguns minutos depois. Ainda assim, a esperou até ser quase expulso do restaurante.

Acontece, conformou-se enfim. Precisava levar a vida de forma mais leve e não se levar tão a sério. Tudo são fases, não é mesmo?

Pelo menos foi isso que seu médico lhe disse após os dois surtos e os quatro meses de internação forçada num hospital psiquiátrico. ­

Sim, talvez a gargantilha tenha sido meio exagerado mesmo, repete até hoje.

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