Cadeia alimentar

Suas mãos tremeram da primeira vez. Mal conseguia segurar a faca enferrujada enquanto apertava o pescoço com a outra mão.

“Não tenha dó, minha filha, se não a carne endurece”, aconselhou de forma serena, porém firme a cozinheira do sítio, já habituada àquela cena nos muitos anos que trabalhava ali. Ela, ao contrário, havia chegado há apenas alguns meses. De início atuava apenas na limpeza da casa principal e na alimentação das crias. Mas agora, quando um dos caseiros convalescia de uma queda no cavalo, suas atribuições aumentavam. Dizem que ele andava pelo campo à noite quando o cavalo viu uma assombração, relinchou e levantou abruptamente as patas dianteiras, jogando-o violentamente ao chão. Acordou só no outro dia sem poder andar. Preguiça, maldizem outros.

Mas enfim, agora era ela que tinha que matar a galinha paro almoço de domingo. Dali a pouco o patrão chegaria com a sua esposa esnobe e os filhos mimados, famintos. Quando lhe pediram que matasse a galinha pensou em desistir, arrumar uma desculpa e fugir dali, mas lembrou-se da mãe quase inválida no pequeno barraco que vivia. Sobretudo, do triste destino que via ter suas amigas de infância, jogadas na vida da cidade grande.

A galinha se debatia em suas mãos, tentando escapar já como que prevendo o que estava prestes a acontecer. Foi obrigada a segurar com mais força ainda, enquanto prensava as patas no chão com o joelho. Com a mão esquerda, pendeu a cabeça da ave para trás, expondo o pescoço protuberante. Com a direita, aproximou a faca, encostando-a na galinha, que soltou um cacareco quanto sentiu a lâmina fria. “Vamos filha, daqui a pouco o sinhô chega!”, repreendeu a cozinheira, com uma bacia nas mãos.

Suspirou, tomou fôlego e torceu o pescoço do galináceo trespassando a faca em sua garganta. O sangue brotava abundante, sendo colhido pela bacia da cozinheira. A galinha se debatia, inutilmente, batendo as asas de forma desesperada. Foi tomada por uma vertigem que quase lhe fez perder os sentidos. Aos poucos, sentia a galinha parar de se mover, sua vida se esvaindo, até parar por completo. “Me dá isso”, disse impaciente a cozinheira, tomando a faca de suas mãos para acabar de cortar o pescoço, separando a cabeça da ave de seu corpo.

Já ela, atônita, ficou suspensa por alguns segundos, imóvel. Saiu correndo para o banheiro, onde sentiu um forte espasmo nas entranhas enquanto vomitava e chorava.

Da segunda vez, se surpreendeu ao perceber como havia ficado tão mais fácil. Quase não sentiu nada ao cortar o pescoço do frango e vê-lo morrer lentamente em suas mãos. Pensava coisas para escapar da culpa. “Ele já vai morrer mesmo, se eu não matar, outra pessoa vai, ou se não, algum bicho vai comer no mato”. Naturalizava. Aos poucos, a vida e, sobretudo, a morte, já não lhe pareciam tão diferentes, mas variações de um mesmo estado, questão de momento, destino inexorável. Vontade de deus.

Pouco tempo se passou até as coisas mudarem. O pânico, receio e hesitação haviam desaparecido completamente. Em seu lugar, após a indiferença, sentia algo que não conseguia distinguir, mas que lhe fazia acelerar os batimentos cardíacos e a respiração. Principalmente quando começou a abater os animais maiores. Era ela quem estocava o coração do porco com um facão e abria a sua jugular, experiência que a fascinou desde o início. Quanto mais o animal grunhia e se debatia, mais satisfeita ficava. Aos poucos, deu-se conta que o que sentia era prazer.

Embora não fosse o que mais lhe agradasse, aprendeu a limpar a carne e a separar cuidadosamente os cortes. Viu a semelhança entre os animais e os homens. Um conjunto articulado e harmônico de músculos, ossos, sangue, tendões e vísceras. Vislumbrou e teve consciência da grande cadeia alimentar que ali, justamente nela, tinha seu ápice e o seu fim. Sentia como se um primal instinto predador corresse por suas veias em seu corpo franzino, aguçando seus sentidos à procura da presa.

O caso teve repercussão nacional e até fora do país. Tanto que ela teve que ser internada numa ala isolada do hospital penal psiquiátrico. A própria cozinheira chamou a polícia. Deparou-se com algo estranho após ter aberto o freezer logo pela manhã, quando acordou para os preparativos do almoço em família. Vários sacos plásticos embalavam uma carne que não estava ali no dia anterior. Quando saiu da casa procurando a serviçal, deixou escapar um grito de horror ao encontrar o patrão, ou que restara de sua carcaça, pendurado nos ganchos de abate. Só conseguiu identificar pelas roupas deixadas ao lado do corpo estraçalhado.

Cortes de uma precisão cirúrgica e tecnicamente perfeitos, teria percebido se não tivesse entrado em choque.

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