O jogo

“Por que você insiste em jogar se já sabe que vai perder?”

Claudionor já estava acostumado com o chiste sempre que saía da lotérica pra fazer sua fezinha. Às vezes respondia seu Manuel, às vezes se limitava a bufar irritado. Dependia de seu humor. “Quem não arrisca não petisca, portuga”. Seu Manuel não se chamava assim, mas era a figura tão perfeita do estereótipo do padeiro português que o apelido foi lhe imposto no primeiro dia que assumiu o ponto, há coisa de uns trinta anos. Podia até ser que se chamasse assim, quem sabe? Fato é que seu Manuel já compunha aquela paisagem cotidiana. Fazia parte do cenário, assim como o poste, a lata do lixo e a sarjeta. Com a diferença de que esses, em geral, são trocados ou reparados de tempos em tempos, quando seu Manuel, ao contrário, só envelhecia. Com exceção de seu portentoso bigode de português, tratado semanalmente com uma tinta a fim de lhe deixar mais negra que a asa da graúna. E era de seu Manuel que vinha a pergunta fastidiosa.

“Pro inferno portuga maldito”, vociferou um dia em que acordara com os ovos virados. Atravessou a rua, tomou seu religioso rabo de galo pra limpar a garganta e clarear as ideias, e se pôs a pensar nessa questão, pela primeira vez em sabe-se lá quantos anos. Como havia começado a jogar? Não se lembrava, decerto fazia isso mecanicamente por décadas. Antes mesmo de se aposentar da repartição que passou a maior parte da vida enfurnado em meio a toneladas de papeis mofados e gaveteiros enferrujados. Saía na hora do almoço, andava três quadras e jogava antes de comer seu almoço a quilo no restaurante do outro quarteirão.

Lembrou-se de dona Regina, senhora simpática que sempre lhe recebia com um sorriso e o chamava pelo nome. “Bom dia, seu Claudionor, como vai o senhor?”, repetiu baixinho, causando estranhamento nos bêbados ao lado. Mas agora a filha de dona Regina ocupa seu lugar no caixa e ele tem que lidar com a má educação e a arrogância dos jovens. Às vezes, pergunta à garota, que tampouco sabe o nome, como vai a mãe. Pergunta sincera, mais que mera formalidade. “Tá bem, tá lá em casa reclamando das pernas”, responde sem nem olhá-lo. Viu a cidade mudar, se modernizar, o computador de tela led substituir a barulhenta caixa registradora, mas sua rotina permaneceu intocável. O mesmo percurso, dia após dia, em todos esses anos. Pegava o papelzinho, marcava uma sequência de números aleatórios já que nunca acreditou nessa coisa de sempre anotar os mesmos, tampouco era supersticioso, dirigia ao caixa e pagava. Por quê?

Saiu do bar pensativo e maldizendo seu Manuel por ter lhe feito pensar sobre isso. Por que jogar se já sabe que vai perder? Afinal, é praticamente impossível ganhar. Como disse aquele matemático uma vez no Jornal Nacional, sobre probabilidades e coisas do tipo. É mais fácil ser atingido na cabeça por um meteoros do que ganhar. E não saía de casa todos os dias com um capacete. Deveria sair? Ora bolas, que saco! Se tinha algo que odiava eram essas perguntas que apareciam do nada para lhe infernizar a vida. Felizmente, isso não acontecia muito. Mas, enfim, já que essa surgiu, deveria resolvê-la antes que tivesse um derrame. Ouviu dizer que seu Antônio teve um AVC porque esqueceu a senha do banco.

Sentou-se numa sombra da praça e pousou a cabeça sobre as palmas da mão. Estava tão entretido em suas próprias matutações, que não reparou no homem ao seu lado. Um idoso de roupas maltrapilhas, os poucos cabelos encanecidos e ensebados adornavam seu crânio. Um mendigo, certamente. “Algum problema com o senhor?”, perguntou com voz amigável o andrajo. Claudionor, achando a situação já um tanto absurda, pôs-se a contar ao novo amigo a pergunta que lhe afligia. O velho o ouvia atentamente, cerrando seus olhinhos e enrugando ainda mais a face. Ao final, fez silêncio, pôs a mão ao queixo e só murmurou um “hmmmm” longo e baixinho.

“O senhor é o mendigo, mas deve estar achando que o louco sou eu, não é mesmo?”, perguntou Claudionor, já quase se arrependendo daquela inconveniência. “Não, claro que não”, respondeu o ancião. “Meu senhor, essa tua pergunta é a pergunta que todos se fazem, um dia ou outro na vida”, falou o velho, sob espanto de nosso funcionário público aposentado. “Todos jogamos sabendo que vamos perder, e acredite, eu posso dizer isso com propriedade”, riu discretamente. À medida em que falava, se animava e punha-se a gesticular. “A vida é isso, amigo, é um grande jogo, por que você se levanta todos os dias, o que te manteve nesse teu emprego de merda décadas e décadas a fio? Por que se casou com a sua mulher e não com outra? E se as suas escolhas fosse diferentes? Seria melhor, ou não? Não dá pra saber e provavelmente a resposta seria não”.

Coçava a cabeça  Claudionor, já quase se desesperando. “E por que diabos continuamos a jogar se sabemos que já vamos perder?”, perguntou já não podendo esconder mais o nervoso. O velho se acalmou, olhou para a frente na direção dos pombos que se aproximavam de sua perna, e suspirou: “Porque se não, colega, não haveria jogo… não haveria jogo…” E ficou  lá, repetindo aquilo baixinho, já alheio à sua presença e a tudo mais.

Claudionor se levantou, subiu as calças na altura da barriga, arrochou o cinto e tomou o caminho de casa. “Portuga filho da puta”, suspirou.

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