Fim de noite

‘Pegue a minha mão e me faça voar’. Os primeiros raios de sol despontavam no céu vencendo as muitas nuvens daquele início de manhã nublado, enquanto andávamos trôpegos pelas ruas decadentes do centro. Os velhos postes conferiam um aspecto amarelado ao ambiente, como uma antiga fotografia em sépia. Desviávamos como podíamos dos andrajos ébrios que jaziam inertes pelas calçadas e falávamos de forma desconexa sobre coisas tão triviais como a viabilidade do big bang ou a existência de deus. E ela, tropeçando em seus próprios cadarços, ria de forma doída e, com fala arrastada e hálito alcoólico, tomava minha mão e, com força, entrelaça seus dedos frios pelo sereno. E me pedia, sôfrega, ‘me faça voar’. E errávamos sem rumo por vilas e becos, em busca de algo que não sabíamos quê. Um certo sentido, talvez, uma razão que nos fizesse despertar dessa letargia, solidão e estado de coisas. Aquilo que buscamos quando abrimos os olhos pela manhã e enquanto amarramos nossos sapatos pensando no ônibus lotado que nos espera. E enquanto mais procurávamos, contudo, mais nos embrenhávamos na selva de concreto e aço, caos e desesperança. ‘Pegue a minha mão e me faça voar’, insistia com a voz já rouca de cigarro e risadas nervosas e, assim, flanamos naquele fim de noite rumo ao que acreditávamos ser o ponto de partida, ou o seu final. “Pegue a minha a mão e me faça voar”, sussurrava com seu fio de voz já fraquejando e os olhos marejados.

Mas eu não sabia voar.­­

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