How soon is now?

Os sinais do final de festa já surgiam, melancólicos como são todos os finais de festa. Os copos esquecidos em cima da mesa com o restinho de cerveja morna e as bitucas cintilando na meia luz da sala eram testemunhas de uma euforia já desvanecida. Na velha vitrola retrô, os versos de Smiths invadiam o ambiente. “Oh, take anywhere, I don’t care, I don’t care, I don’t care”, cantava desesperado o então jovem Morrissey.

Alguém que visse essa cena poderia pensar que estamos em plena década de 1980, não acha?”_Disse à garota distraída ao seu lado. A frase, que poderia soar casual, havia sido, na verdade, exaustivamente ensaiada em sua cabeça. Algo que ela, por certo, percebeu. Mas não se importou, pelo contrário. “Diz a verdade, por quanto tempo você pensou nessa frase aí?”, respondeu, com um sorrisinho irônico de canto de boca. “Bem, desculpe, não queria parecer tão previsível…”, gaguejou.

Ela achou graça na timidez do rapaz que tentava cortejá-la e quase se arrependeu da brincadeira que acabara de constrangê-lo. “Qual o teu nome guri?”, perguntou, mais para quebrar o gelo do que por curiosidade. “César, e o teu?”, respondeu com tanta desenvoltura que até se surpreendeu. “Telma”, disse, estendendo a mão num gesto de cumprimento caricato, mas amigável. “Telma, Telma, prazer em conhecê-la Telma”, disse apertando sua mão e a chacoalhando também de forma caricata. “Sabe o que o seu nome significa, Telma?”, perguntou franzindo a sombrancelha . “Bom, desde que pararam de me perguntar onde estava a Louise, não me preocupei muito com ele…

A resposta que poderia parecer pouco interessada não abalou nosso jovem imperador, que continuou divagando sobre a etimologia do nome da garota.  “Pois bem, Telma vem, na verdade, de ‘Elmo’, mais especificamente de ‘Santo Elmo’, mas no feminino, que por sua vez, significa ‘proteção’, daí o ‘elmo’, né?”, disparou, comendo as vírgulas num nervosismo incontido. “Muito bem, guri, agora sim você surpreendeu”, sorriu Telma, agora bem mais à vontade. “Santo Google e santo tempo vago pra pesquisar esse tipo de coisa”. Gargalharam. A silhueta dos dois contrastava com as outras pessoas, já adormecidas, bêbadas e chapadas pelo chão. “Quando as pessoas tentam extravasar todas as suas frustrações diárias de uma só vez, sempre dá merda”, comentou César olhando um de seus amigos deitado sobre o próprio vômito.

É, meu imperador, mas o problema não são as pessoas e esse extravasamento que você diz, é o cotidiano massacrante e desumanizador”, disse em um tom quase professoral Telma, ajeitando teatralmente os óculos com a ponta dos dedos. “I am human and I need to be loved/ Just like everybody else does”, cantava Morrissey, fazendo-os rir, encabulados pela coincidência. “As pessoas em geral vivem por um momento fugaz de esquecimento e ilusão”, continuou. “Uau, agora, foi você quem me surpreendeu”, riu César, “mas percebo que você não precisa disso, me parece tão sóbria…”, devolveu. “Bem, depende do que você considera sóbrio, meu caro”, riu, “para os meu parâmetros já estou bem pra lá do que pra cá, I was happy in the haze of a drunken hour, cantou imitando a voz de Moz.

É, bem, e… o que você faz?”, perguntou meio sem jeito César, numa clara tentativa desesperada de dar sequência àquele diálogo, aquela interação, seja lá que diabos fosse aquilo. “Shhhh, guri, não fale mais nada”, ela disse, colocando o dedo sobre os lábios. “Chegamos num momento crucial dessa narrativa, eu diria, paradoxal”, falou, sob o olhar atônito do garoto. “Explico-lhe: estamos no momento da história que definimos o rumo de nossos destinos, quiçá de nossas vidas”, falava baixinho, como um segredo muito sério. “E o que temos que fazer agora?”, perguntou César, também quase sussurrando para entrar na onda de Telma. “Bem, temos duas opções, basicamente”, explicou, “duas opções que nos levam a caminhos distintos ,opostos”.

Neste momento, Telma foi bruscamente interrompida por uma garota meio bêbada que tentava passar para o corredor do banheiro, mas prosseguiu em seguida. “Podemos seguir cada um nossos próprios rumos, voltamos para casa sozinhos, talvez nunca mais nos vejamos, ou talvez nos encontremos daqui uns 20 anos, você um advogado, eu uma corretora de imóveis, sei lá, tentando te vender um apartamento encalhado…”, divagava, enquanto César franzia a testa, no que ela já havia identificado como um tique do rapaz. “Ou podemos nos beijar agora e desviar o rumo desse destino, traçando um outro, imprevisível”.

César corou e sorriu. “Vamos desviar a rota desse destino então? Me parece ousado”. Aproximou-se do rosto de Telma, afastando o cabelo dela com as mãos, ajeitando-os por detrás de sua orelha. “Take me out tonight…”, alguém havia voltado a agulha ao início do disco. “E essa história, vai ter um final feliz?”, perguntou, de maneira um tanto provocativa. “Por hoje sim, guri, por hoje sim”.

Anúncios

2 comentários em “How soon is now?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s