Epopeia

“Ele então vislumbrou que… que…”, as teclas da velha Remington se desaceleravam. O que ele teria vislumbrado? O que seria tão extraordinário assim, a ponto dele não apenas ver, mas “vislumbrar”? Matutou longos minutos por aquelas linhas até o sinal alertar o fim do expediente. Arrancou a folha do rolo num só gesto, juntado-a a centenas de outras, acomodadas cuidadosamente numa dessas pastas catálogo, de capa preta já gasta com o tempo. Ajeitou a pasta na bolsa, dessas de uma só alça estilo carteiro, bateu o ponto e tomou o caminho de casa, como fazia todos os dias.

E, como todos os dias, caminhava pensando no desenlace da cena que acabara de escrever. Como era relativamente ágil nas tarefas cotidianas, ninguém no escritório se incomodava com as suas pretensões literárias. Pelo contrário, divertiam-se tentando roubar a folha que ora datilografava  quase às escondidas. Mas o nosso escritor burocrata, precavido que era, não permitia por nenhuma hipótese que alguém lesse uma linha que fosse de seu trabalho. “Só depois de publicado”, repetia como um mantra ante o mais renitente pedido. Superstição ou medo que alguém lhe roubasse alguma ideia tão valiosa? Algo que valeria, talvez, um Nobel, quem sabe? Não, não era tão pretensioso assim. O que sim, não escondia de ninguém, era que aquelas folhas, cotidiana e sistematicamente datilografadas com afinco e paixão, era a obra da sua vida. Ateu, aquele seria seu único legado às futuras gerações, seu único pedacinho que sobreviveria aos séculos, se não ás traças.

Trabalho de décadas, escrito e reescrito noites adentro, tal qual uma Penélope tecendo à espera de Ulisses. Mas o nosso escritor não esperava nenhuma heroi, mas tão somente algo que transcendesse aquela existência medíocre. “Você é um acomodado”, costumava ouvir. O que poucos sabiam era que ele decidira criar com as próprias mãos o seu personagem, um grande e destemido desbravador. Quem o visse naquela repartição modorrenta, óculos em riste, nunca imaginaria que por aquelas linhas um ser magnifíco criava vida e se lançava em aventuras e perigos que ninguém ali sonharia. Mais que isso, nosso heroi mítico lançava-se em busca do significado do ser, perscrutava a existência e as dilacerantes dúvidas que rondam as cabeças mais inquietas da nossa sociedade. Pelo menos, eram essas as poucas informações que deixava escapar aos mais insistentes, a fim de que lhe dessem um pouco de sossego para prosseguir em seu épico literato. Esquivou-se de amizades duradouras ou até mesmo relacionamentos que pudessem derivar uma família, um empecilho deveras indesejável a seu grande projeto de vida.

Pois bem, chegou o momento em que seu personagem, tal como ele próprio, deparou-se com um impasse. Após inúmeros percalços e desventuras, ele se depara… com algo. Algo que ele, o nosso escritor burocrata, não podia descrever. Deu branco, como se diz. Empacou. Ele próprio não era capaz de enxergar aquilo que estava bem à frente de seu personagem e, de alguma forma, o maravilhava. E não foi por falta de tento. Dias e dias foram gastos na velha Remington na tentativa de um desenlace para aquele paradoxo. Dias, meses e anos que, para o nosso personagem preso ao papel, continuavam sendo instantes de segundos numa expectativa infernal para expressar seu vislumbre. Chegou a uma situação tal que praticamente todo o expediente era gasto na tentativa, cada vez mais vã, de dar vazão àquele parágrafo. Como estava perto de se aposentar, e como, convenhamos, seu serviço burocrático não era o que poderíamos chamar de extremamente essencial ao funcionamento da máquina pública, ninguém ousava-lhe chamar atenção. Talvez, um pouco de pena tivesse pesado para as vistas grossas à produtividade de nosso escritor burocrata. Alguns ainda acreditavam numa suposta genialidade naquele homenzinho estranho que dedicava sua vida àquelas páginas e, interesseiros, pensavam na fama por tabela que aquilo poderia lhes trazer.

Final de tarde de sexta, funcionários ávidos e apressados se preparando para deixar o escritório. Um deles percebeu na mesa ao canto nosso escritor prostrado, com a cabeça pendida sobre a velha Remington. Estava morto. Coração, talvez, ou um derrame. Não chegaram a fazer autópsia e no atestado de óbito viria a constar apenas “causas naturais”.

Os colegas se reuniram então para decidirem o que fazer com os escritos. Seria por demais desrespeitoso ignorar o trabalho de uma vida, afirmaram logo os interesseiros. Algo que todos, porém, mesmo os honestos, concordaram. Formaram então uma pequena comissão de notáveis para ler e analisar a obra. Um deles já havia lido Dom Casmurro na adolescência. Outro, conhecia a bibliografia completa de Paulo Coelho, para admiração dos colegas. Já um terceiro lia os jornais de domingo e tinha no currículo um prêmio de poesia. Na infância, é verdade, mas nem por isso menos digno.

Fecharam-se no escritório e se puseram a ler aquele compêndio sobre as mazelas, desventuras e qualidades humanas, personificados numa espécie de Leopold Bloom do almoxarifado. Para surpresa de todos, ao invés de cenários míticos, a trivialidade do escritório e das ruas adjacentes. Já o heroi, não era ninguém menos que o recém-falecido funcionário. Sem qualquer exagero ou licença poética. E, para terminar a decepção, o último parágrafo permanecia incompleto. “Ele então vislumbrou…”. Não podemos sair daqui com isso desse jeito, argumentou um deles, ao que um outro puxou uma caneta esferográfica e tascou um ponto final ali mesmo, pondo fim àquele épico: “Ele então vislumbrou”.

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