Missão sagrada

Não costuma acontecer nada de muito empolgante em uma mesa de bar. Pelo menos era isso o que ele pensava antes daquele dia.

Uma noite comum, trivial, como são geralmente as noites de quinta. Aquele exato momento da semana em que o pior já passou e começam as expectativas para sexta, cujo principal é exatamente isso: a expectativa. Pois bem, estava ele ali, um cidadão comum, descompromissado e em dia com as suas contas, dando a si mesmo um raro momento de lazer ao lado de uma cerveja gelada e de frente ao telão com o jogo do Corinthians. Solitário, resolveu trocar o jantar no self-service por uma gelada e uns petiscos que aguardava ansiosamente. Fosse uma terça ou quarta, sentiria até um certo peso na consciência. Mas tudo bem, era quinta.

As vozes a sua volta destoava daquele bar semi-cheio, mas não chegava a ser um incômodo. Tirou o maço do bolso da camisa e abriu a caixa de fósforo para acender o cigarro. Riscou o palito produzindo uma breve faísca seguida da chama crispante quando foi interrompido.

_Com licença, senhor.

A chama se apagou em seu dedo, enquanto ele observava aquela figura. Um homem de camisa social e uma pasta preta, tipo executivo, levemente calvo e aparentando seus quarenta e poucos anos. Semblante sério circundado por um óculos igualmente austero, de aro preto e fino, que lhe conferia um aspecto ainda mais grave, algo entre um vendedor de seguros e um corretor de imóveis. Estaria vendendo algo? Mas que diabos, os únicos que o abordavam ali, e raras vezes, eram hippies tentando vender artesanato, andrajos mendigando cigarro ou angolanos e seus reluzentes relógios.

_Posso me sentar? – Foi logo pedindo o homem, sem qualquer hesitação. Ainda sem reação devido à situação inusitada, fez afirmativo com a cabeça. O homem, então, puxou a cadeira e se sentou à sua frente, acomodando a pasta no colo e ajeitando os óculos. Por um segundo, um turbilhão de possibilidades invadiu-lhe a cabeça. Seria um advogado? Mas para quê, já que nunca se metera em confusão? Um parente distante, tentando se reaproximar?

_Bem, imagino que esteja um pouco confuso pela minha abordagem um tanto direta, acho que devo começar pedindo desculpas pelo incômodo- disse o estranho, de forma calma porém firme_ E devo logo lhe advertir que o que vou dizer vai parecer pouco, digamos, usual.

Se aquela situação já era estranha, tornava-se cada vez mais surreal. Tentou se concentrar um pouco, o que era difícil mais pelo espanto do que pelos dois copos de cerveja que já havia bebido. Nunca fora abordado assim na mesa de um bar, ou em qualquer outro lugar.  “Queira me desculpar, senhor, mas acho que está me confundindo com alguém”, conseguiu pronunciar, não sem certo esforço.

_Não, não, tenha certeza que não. Somos bastante rigorosos nisso, não costumamos cometer falhas_ respondeu o homem com um sorriso e franzindo a sombrancelha para assegurar maior severidade à afirmação.

_Ok, então, o que o traz à minha mesa? Devo pedir ao garçom mais um copo?_ Tentava esconder nervosismo com um pouco de cavalheirismo.

_Não é necessário, vou tentar ser o mais breve e direto possível.

_Pois bem, sou todo ouvidos.

Não mais via o jogo, nem escutava o converseiro em volta. O homenzinho impertinente à sua frente já lhe monopolizara total atenção.

_Certo, bem, como disse, serei direto e franco. Sou um enviado de deus e estou aqui para lhe apresentar uma missão delegada diretamente pelo divino. Será o sentido da sua vida a partir deste momento. Seu destino será reatar os laços da humanidade com o todo-poderoso. Quer dizer, você deverá fundar uma nova religião e iniciar uma peregrinação santa para arrebanhar almas para a eternidade.

Ele foi ouvindo aquelas palavras sem esboçar qualquer reação. Nem precisou segurar o riso ou conter-se para não gargalhar. Não era seu feitio isso, aliás, não importando quão esdrúxula fosse a situação. Apenas olhou em volta tentando encontrar alguma câmera ou qualquer outra coisa que denunciasse aquilo. Mas tudo parecia muito normal. Até demais.

_Tá, beleza, chega dessa história e me diz quem te mandou aqui. Foi o pessoal do escritório, né?_ Dizia olhando para trás e os lados, mas sem ter certeza se de fato era uma armação mesmo. Talvez o homem fosse tão somente um doido varrido. Bem articulado e convicto, é verdade, mas nada daquilo parecia fazer qualquer sentido.

_Imaginamos que teria essa reação, é absolutamente normal. Mas tenha certeza, tudo o que estou falando neste momento é a realidade, por mais estranha que te possa parecer.

A incredulidade foi dando lugar então ao espanto puro e simples. As palavras daquele homem eram proferidas com tamanha firmeza que, ou seria um ator profissional, ou… Não, é ridículo isso, nunca fora religioso. Tudo bem que na infância chegou a frequentar a igreja e quase foi coroinha, mas há pelo menos trinta anos não tinha qualquer tipo de relação com religião, fé ou qualquer outra coisa desse universo. Muito pelo contrário, nutria até certa aversão por tudo aquilo, ainda que não se considerasse plenamente ateu.

_Mas por que eu? Isso não faz o menor sentido. Não sou religioso, não sou virtuoso, não sou exatamente um parâmetro de idoneidade moral nem nada que me torne um santo ou algo próximo disso.

_Exato, sabemos de tudo isso. Mas temos nossas razões pelas escolhas que fazemos. Ou você acha que os profetas e messias foram tudo aquilo que dizem por aí? A ética profissional não me permite entrar em detalhes sobre o assunto, mas acredite, perto dos santos, você é um poço de virtude celestial_Puxou um sorriso com o canto da boca, num movimento aparentemente descontraído mas que era evidente tratar-se de um gesto previamente calculado e executado para quebrar um pouco do gelo da situação.

_Bem, se é verdade então, me dá uma prova de que é quem realmente diz ser, me deixa ver tuas asas, faz cair fogo do céu, sei lá, me mostra algo_Já não transparecia mais incredulidade ou ironia em sua fala, mas uma sincera ansiedade.

_Desculpe, mas isso tudo está absolutamente fora do protocolo. Aliás, devo-lhe dizer que todas as grandes revelações divinas aos profetas e coisas do tipo foram tão triviais e formais quanto este nosso diálogo. Como eu disse, a história acertamos depois. Fogo do céu, uma carruagem dourada trazida por cavalos prateados, não há problema, você tem liberdade para construir a narrativa que mais lhe agrade.

_E o que eu teria que fazer? Como eu disse, não sou entendido de religião, não sou místico, não entendo nada dessas coisas.

_Não há problema_disse, puxando e abrindo a pasta preta sobre a mesa_Aqui está a nova doutrina que deverá propagar sobre a Terra_ disse destacando um calhamaço de papel_Está tudo aqui, é só ler e anunciar as boas-novas imediatamente a todos os seres. Teu nome será santificado e lembrado através dos séculos.

Pegou o calhamaço parecido com um relatório do departamento comercial de seu escritório. Tinha uma capa laranja, com seu nome datilografado na primeira página, o que o assustou mais ainda. Abaixo, grafado com Comics Sans, “Missão Sagrada”.

_Bem, devo ir agora, a responsabilidade já está com você. Lembre-se, o futuro da salvação da humanidade está nas suas mãos, não nos decepcione_ Levantou-se fechando a pasta, ajeitou o aro fino dos óculos no rosto e foi-se, tão repentino quanto chegou.

Ficou ali, olhando para a pasta e tentando entender direito o que acabara de acontecer. Aos poucos, foi voltando o som das conversas e a narração do jogo do Corinthians. Lembrou-se da cerveja e encheu o copo para beber antes que esquentasse ainda mais. Pegou um novo fósforo e acendeu finalmente o cigarro.

O que fazer? A humanidade dependia dele. Olhou todas aquelas pessoas e imaginou-as ardendo num mar de fogo por toda a eternidade. Ele deveria salvá-las. Pensou na imensidão do universo e nos quatro bilhões de seres humanos que habitavam esse planeta, tentando imaginar a responsabilidade de sua missão. Filosofou sobre a sua própria existência, aparentemente tão reles e inútil, mas que de repente ganhara uma significação histórica.

_Desculpe senhor.

A voz o fizera sair de suas profundas elucubrações. Levantou os olhos imaginando outro emissário celestial, mas era apenas o garçom. Trazia sua porção de aipim com carne seca. Secou o copo de cerveja, pediu mais uma e o molho de pimenta.

Que a humanidade, deus e a posteridade esperassem. Tinha verdadeira adoração por bolinho de aipim com carne seca.

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Um comentário em “Missão sagrada

  1. Inauê Taiguara disse:

    Olá Diego,

    meu nome é Inauê, você citou meu nome num comentário da PM, em 12 de novembro. Queria agradecer pela atenção e lhe pedir um favor.
    (https://twitter.com/PMESP).

    Bem, fiquei sabendo que esta mensagem no twitter da PM foi divulgado às 08:42 da manhã. No entanto, agora, consta que ele saiu as 02 da manhã, e que seu comentário saiu as 07:00.

    Enfim, só gostaria de confirmar com você. Seu comentário foi feito já mais tarde né? Inclusive porque você cita que o João e eu estamos no 91º. Procede né? Mande-me um email se possível.

    Valeu cara

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