Juno e Juventa

 Será que era assim naquela época?

Foi o que pensou pouco depois de a primeira bomba de efeito moral explodir à sua frente. O estrondo o deixou quase surdo e desorientado. Escudos perfilados escondiam rostos tesos e olhares raivosos, que se contraíam ainda mais quando brandiam os cassetetes. Lembrou-se das velhas histórias de seu tio, de marchas e manifestações da juventude contra uma ditadura que se fechava cada vez mais. Nas fotos em preto e branco, homens que mal haviam deixado a adolescência, mas que se vestiam como adultos e enfrentavam a polícia da mesma forma que aqueles garotos à sua volta.

Soube da manifestação apenas poucas horas antes, quando um amigo o convidou pelo Facebook. O evento tinha uma imagem de uma catraca em chamas que o deixou um pouco curioso. Fechou o computador sem confirmar presença, arrumou o material do cursinho e pegou o metrô. Na verdade, nunca havia parado para pensar o peso que o transporte público representava em seu orçamento, ainda que não fosse rico, muito pelo contrário.  Mas, após um breve instante de hesitação, resolveu saltar uma estação antes, em direção à concentração.

O local marcado já estava bastante cheio. Muitos jovens de sua idade, alguns fumando, outros apenas conversando. Não pode deixar de sentir uma certa frustração ali, esperava encontrar mini-revolucionários de discursos inflamados prontos a tomar Sierra Maestra. Aquilo parecia mais a entrada do cursinho em noite de sexta. No entanto, aos poucos, o clima de happy hour foi sendo substituído por um tenso silêncio, carregado de expectativa. As pessoas em volta, dispersas, foram se aproximando e, em determinado momento, formavam uma compacta massa humana de algumas milhares de pessoas.

Palavras de ordem iam sendo entoadas, de forma confusa ainda. Uma por um grupo de garotos mais à frente, contra o aumento. Uma outra parte, na retaguarda, conclamava as pessoas nas calçadas a se juntarem ao protesto. Aquilo lhe pareceu como uma enorme panela de pressão, acumulando vapor até explodir. Aquela enorme massa humana, então, pôs-se em movimento tomando as ruas até então monopolizadas pelos carros. A adrenalina se descarregava rapidamente em seu sistema sanguíneo enquanto os batimentos cardíacos se aceleravam. Não queria perder nada daquilo, por isso foi para a frente da marcha, atrás da faixa que abria a manifestação.

Olhou para trás e pôde ver um verdadeiro mar de pessoas. Pela primeira vez na vida, sentiu-se parte de algo relevante, que rompia com a inércia e o automatismo ditados a gente nessa cidade grande. Era como se, de repente, aquelas pessoas que vivem tão próximas uma das outras e ao mesmo tempo isoladas em suas próprias ilhas de conformismo, se dessem conta de ter algo em comum. Ali, naquele momento, não era um mero conjunto de indivíduos tomando as ruas, mas um único organismo, vivo e consciente, que despertava. E estava furioso.

Destacamentos pichavam muros com frases contra o aumento das passagens, enquanto outro grupo distribuía panfletos à população. Ordem em meio à aparente anarquia. Helicópteros começam a aparecer no céu, dando rasantes por sobre a multidão. Conseguiu identificar uns dois da imprensa e pelo menos um da polícia. “Fora imprensa vendida”, gritavam, enquanto levantavam o dedo médio para cima. Do alto dos prédios, chuvas de papeis picados eram recebidas com aplausos e urros de satisfação juvenil.

Notou, porém, que algo estava errado quando ouviu a sirene de uma viatura se aproximando. E outra, e mais outra. Observou um conjunto de viaturas à frente, formando uma espécie de paredão que bloqueava o caminho da avenida. Os passos foram se desacelerando, mas continuavam firmes. De trás dos carros, então, os homens de preto apareceram, com capacetes e escudos, formando uma espécie de linha de contenção. Era a primeira vez que ficava frente a frente com a tropa de choque, mas não sentia medo.

“Abaixo a repressão”, foi a palavra de ordem que ia tomando conta da marcha, abafando todas as outras. A bateria improvisada ditava o ritmo dos passos. A poucos metros de chegarem à linha formada pelos soldados, um clarão breve seguido de uma explosão de luz intensa surge bem a sua frente, seguido pelo gás lacrimogêneo que rapidamente se expande e toma conta do ambiente. As lágrimas escorrem abundantes dos olhos, encharcando o rosto. “ Não corre, não corre! Calma! Calma!”, consegue ouvir. Pedras voam de trás da multidão batendo nos escudos. Ele então sente que, entre as lágrimas mecânicas do gás, escorrem também lágrimas de ódio. Apanha uma pedra no chão e arremessa com todas as forças para a frente, mesmo com a visão turva.

Consegue ouvir disparos, vários deles, no que acredita ser bala de borracha. Percebe também sangue espalhado no chão de asfalto, o que faz sua raiva aumentar ainda mais. Até que sente uma dor aguda no abdôme, uma picada dolorosa que o faz cair de joelhos. Nesse momento, está completamente desorientado, não sabendo bem em qual direção está a polícia ou para onde correram as pessoas. Consegue apenas ouvir o estampido dos tiros e o estouro de mais bombas. Sentiu-se quase que imerso num filme de guerra, como aqueles do Vietnã em que os americanos sempre vencem no final.

 Assustou-se quando percebeu uma mão em seu ombro. Levantou os braços na cabeça para se proteger achando que era a polícia, mas era alguém tentando o reerguer. “Apoie-se em mim, companheiro, vamos sair daqui”. Aquilo o surpreendeu mais que os tiros, as bombas e toda aquela sucessão de eventos tão estranhos à sua realidade. Por que aquela pessoa, não conseguia sequer distinguir se era jovem ou não, o ajudava? Sequer o conhecia. Por que se arriscava ali, no meio da fumaça de gás lacrimogêneo, diante da tropa de choque? No meio do caos e da insanidade, aquele mistério fincou-lhe na cabeça. Precisaria perguntar ao seu tio.

Será que era assim naquela época?

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