Sujeito a chuvas e trovoadas

“Uma frente fria da Argentina vem se aproximando, derrubando as temperaturas…”. A aguardente desceu queimando a garganta e aquecendo o estômago naquela manhã. A TV permanecia sempre ligada, mesmo que ninguém tivesse assistindo. Era costume. Seu Claudionor abria a porta do boteco e a primeira coisa que fazia era ligar a velha televisão que mais soava como uma caixa de abelha. Sempre aparece algum vagabundo que senta no balcão só para ver o que quer que seja naquele aparelho e fica ali sentado sem tomar nada. Novela mexicana, telecurso ou culto de libertação, não importa, qualquer coisa é motivo de atenção. Há, porém, certa fixação pela previsão do tempo, mas sinceramente nunca soube direito a razão. Eu mesmo paro o que estiver fazendo só para prestar atenção em algum deslocamento de massa de ar polar ou uma variação de pressão. Chega a ser cômico, pois, para grande parte daqui, pouco importa se vai chover ou não amanhã ou a umidade relativa do ar. Talvez seja uma tentativa tosca de sentir que podemos controlar o tempo, num mundo em que muitos daqui já perderam o controle. Como os mendigos que perguntam a hora de cinco em cinco minutos para as pessoas que passam pela calçada. Ou, talvez, seja simplesmente o medo do silêncio. As pessoas, não digo todas, só as perdidas que vejo por aqui, tem verdadeiro pavor da ausência de som. Deve ser porque, nessas horas, elas se deparam com elas mesmas, suas dores, angústias e raiva. Há muita raiva represada por aqui, que corrói as vísceras e chega a se evaporar na transpiração. Se você pudesse cheirar isso, sentiria o perfume de ódio incensado na atmosfera. A cachaça aplaca um pouco, por um momento, mas ela continua ali, fermentando. E ajuda a lidar com o medo que está sempre junto à raiva, como mosca na merda. E era por isso que seu Claudionor ligava a TV toda manhã, mesmo esta espelunca estando vazia. Você se surpreenderia com a quantidade de pecados que esse baixinho, careca e barrigudo, carrega nas costas. Acho que nem mesmo o papa, nem esse novo franciscano que botaram lá para tapar aquela sujeira toda, conseguiria ouvir duas horas de confissão do nosso amigo e dar a penitência. E olha que de crimes e perversidades a cúria é especialista. Mas são hipócritas. E isso, o nosso baixinho barrigudo, ao menos, não é. Não varre as sujeiras para debaixo do tapete. Também não escreve na testa para expor publicamente suas faltas. Simplesmente carrega isso tudo nas costas todos os dias. Coloca no balcão no início do expediente e, na hora de fechar, as recolhe e leva para casa, como uma marmita ou ferramenta de trabalho. Sim, eu sei de algumas coisas de seu Claudionor. Diz-se por aqui que ele se perdeu de vez no dia em que chegou em casa e encontrou a mulher na cama com outro, um conhecido dele ou algo assim. Não teve dúvida, correu à cozinha, pegou a faca e matou os dois. Depois, sentou-se na cama e ele mesmo ligou para a polícia. Descobriram mais tarde que ela já o havia enxotado de casa, cansada da porrada diária que ele lhe infligia. Mas não havia Maria da Penha naquela época. Mesmo assim, ele pegou uma cana pesada. Quando saiu, não tinha mais emprego, amigos e a única família que restara era uma filha adolescente que lhe ameaçara vingar a mãe. Montou essa espelunca nesse fim de mundo com o único dinheiro que guardara e desde então vem seguindo sua rotina de bar de boteco de periferia. Às vezes penso que aqui é o único lugar que seu Claudionor conseguiria sobreviver, talvez porque nesse lugar ele não se sinta inferior aos demais. Aqui, naquela cabeça calva, deve achar que pode olhar nos olhos dos outros, tão perdidos quanto os dele, e falar de igual para igual. É por isso, decerto, que me trata tão bem desde o dia em que comecei a vir. Sabe que não sou melhor que ele e que não existe no mundo castigo que possa trazer algum perdão para as nossas almas caídas. Ou nem para esses pobres diabos que tomam o dinheiro do Bolsa Família de suas mulheres para torrar aqui e voltar ao fim da noite para descarregar nelas um pouco da raiva presa ao peito. Ele mesmo já me disse uma vez, com os olhos injetados e a face corada: ‘eles são como eu, não mataram com faca mas matam no dia-a-dia, com requintes de crueldade’. Devo admitir que ele não está de todo errado. Como também não está quando pragueja contra o governo e diz que “eles” são piores que os caras que conheceu na cadeia. E nem mesmo quando, agora há pouco, aquela moça puída entrou aqui e se sentou do meu lado. Seu Claudionor, que faz questão de olhar todos  nos olhos, baixou a cabeça e ficou parado,  mesmo percebendo o estilete enferrujado que ela trazia na mão direita. Silenciosamente, postou as mãos no balcão e só aguardou a tão esperada redenção trespassar-lhe o peito.

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