Singela história infantil em uma tarde de outono

Só pôde ouvir um agitado bater de asas convulsionadas entre as folhagens. Em seguida, um baque surdo e seco no chão de terra batida. As mãos sujas ainda doíam pelo esforço daquele arremesso. A pedra voara dura e certeira em direção ao alvo. E agora, aquele pardalzinho ferido arfava diante de seus olhos impressionados.

Não sabia bem a razão pela qual havia resolvido abater aquele pássaro. Tédio, talvez. Simplesmente saiu para o quintal, deparou-se com o pardal distraído por sobre o galho da mangueira que se erguia bem em frente ao muro de casa, e teve aquela ideia. Buscou uma pedra no chão e, num movimento rápido, porém extenso para compensar a estreiteza dos braços, lançou-a em direção ao pardal, que rodopiou entre os galhos antes de cair rendido aos seus pés.

Aturdido, agachou-se para observar o pássaro mais de perto. O pardal desfalecido tinha a penugem cinza suja pela terra seca. O único sinal do ferimento, porém, era o fino filete de sangue que escorria na lateral do bico entreaberto. Podia ver o peito mover-se numa respiração lenta e profunda. Mas o que o impressionou de fato foi o estranho olhar do passarinho que, podia jurar, o fitava com um misto de indagação e perplexidade.

Em sua silenciosa agonia, o pássaro tremia uma das patas num espasmo curto e rápido. Comovido, percebeu que sua pequena vítima sofria. Explodiu em lágrimas num rompante de desespero. Tentou conter os soluços e enxugou o rosto na manga da camisa, que ficou encharcada. Permaneceu imóvel, fitando aquela cena durante um tempo, que poderia ter sido minutos ou horas, não saberia dizer ao certo. Precisava fazer algo.

Olhou ao redor e percebeu a metade de um tijolo cravado no chão. Instantaneamente, sabia o que precisava ser feito. Levantou-se, pegou o tijolo do chão e, num só movimento, esmagou a cabeça do pardalzinho, que silenciou na hora.

Observando o pássaro imóvel, sentiu uma estranha sensação de bem-estar. Estava orgulhoso de sua generosidade diante do sofrimento alheio. Achou-se, por um momento, por assim dizer, adulto. Porém, algo passou pela cabeça. Aquilo não parecia muito certo… E se alguém tivesse visto o que acabara de acontecer? Tornou a olhar assustado para os lados a fim de se certificar que não havia mais ninguém. O coração disparou. De súbito, arrependeu-se de tudo aquilo e quis nunca ter saído ao quintal. Amaldiçoou os pássaros, as pedras no chão e a mangueira. As lágrimas ressurgiram entre soluços de pânico e temor.

Conseguiu, então, sufocar o choro mais uma vez e engolir as lágrimas controlando a respiração. Aos poucos, o coração foi voltando ao normal enquanto o rosto secava. Fitou a cena mais uma vez e pensou que só havia uma coisa a se fazer. Com as próprias mãos, começou a cavar a terra ao pé da mangueira. Cavou a terra seca até alcançar uma camada mais úmida e profunda. Mediu o buraco e viu que cabia sua mão, até o antebraço.

Retirou cuidadosamente o tijolo de cima da cabeça do pobre pássaro e viu os miolos saltados. Com a ponta dos dedos, segurou a uma das asas para erguer o pardal, pendurado, até sua cova improvisada. Acomodou-o na terra úmida e, ainda com as mãos, empurrou a terra de volta. Ainda pegou o tijolo cúmplice e o depositou em cima do buraco recém-fechado a fim de disfarçar o assassínio. Tornou, então, a olhar ao redor para ter certeza que ninguém vira aquilo. O silêncio foi quebrado por uma voz conhecida, que o assustou.

_O que você está fazendo aí, menino? Não ouviu eu te chamar? Vá se limpar pra tomar o lanche!

Obediente, foi lavar suas mãos criminosas diante do olhar inocente da avó, que sorria serena sem saber de nada.

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