O dia em que o mundo acabou

(Ou nossas vidas se consomem como este cigarro)

The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end
Doors

Nota-se que você já está ficando um tanto embriagado”, disse ela com um sorriso irônico no canto da boca. “Quando se põe a falar desse jeito significa que o álcool já fala por ti”, continuou enquanto ela própria entornava aquele copo de cerveja que já esquentava por sobre a escrivaninha. Já se acostumara tanto àquele quarto bagunçado que pensava não ser capaz de entrar nele caso fosse arrumado. Ficavam tanto tempo ali que, frequentemente, não podiam distinguir se era dia ou noite.

Minha cara, te digo uma coisa: o álcool apenas ajuda que as palavras nos escorreguem pela boca, nunca as coloca lá”, disse com um tom solene, empunhando o copo e levantando-o para o alto. “É você que parece sempre desconfortável com este assunto; não a culpo, a maioria das pessoas não gosta de se lembrar sobre como as nossas vidas se consomem lentamente”. Abriu com habilidade um isqueiro e acendeu seu cigarro. Gostava do som do isqueiro se abrindo e fechando, a ponto de ficar horas realizando esse mesmo movimento com a tampa. Por vezes, acendia por acender apenas para contemplar sua chama. “Você, eu, todos nós, somos como essa chama, queimamos e queimamos para, de repente, se apagar”, sentenciou fechando o isqueiro com um movimento rápido.

Você sabe sim que isso me angustia… Por isso não gosto de ficar falando sobre isso”, respondeu ela com a cabeça um pouco baixa, aparando o aro dos óculos que escorregava pela ponta do nariz. Olhou para cima como que contemplando estrelas naquele teto de madeira e pôs-se a falar de uma forma estranhamente monocórdia: “Somos mesmos condenados, não há nada que possamos fazer, podemos gritar, espernear e o que for, nada vai mudar isso, para que então ficar lembrando?”.  Nossa vida já é repleta de angústia e medo, foi dizer quando se conteve a fim de não parecer demasiada dramática e ridícula.

Antes, porém, ele a interrompeu. “A vida, minha querida, é também esse cigarro queimando”, disse, soltando a fumaça lentamente para cima. Observava aquela nuvem cinza, densa como algodão, subir como um cogumelo para bater no teto e dissolver-se pelas paredes. “E enquanto queima, meu bem, a única certeza que podemos ter é que se consumirá por completo entre nossos dedos”.  Gostava de impressioná-la e, de fato, esforçava-se para isso, embora nunca deixasse de ser sincero. Transpirava sinceridade. “E me dá pena desses desesperados, afoitos por viver cada fagulha de uma forma que julgam intensa, mas que na verdade tentam inutilmente  tornar perene o que é efêmero”. Falava agora já gesticulando freneticamente, orgulhoso.

Quer saber? Tuas pseudo-filosofias de merda, pequeno-burguesas, já me deu no saco”, disse bufando enquanto se levantava bruscamente. Deteve-se, porém, por um momento. “Espera, que barulho é esse? Está ouvindo? É uma tempestade?”.  Os estrondos se sucediam, acompanhados por clarões que penetravam a veneziana e inundavam o quarto, projetando sinistras sombras nas paredes.

Não, meu amor, são as bombas nucleares caindo”, disse calmamente dando o seu último trago para ver a pequena chama se apagar para sempre.

E você vai simplesmente terminar assim? Joga questões ao vento e não resolve, nem ao menos nomes próprios colocou…”.

Não se preocupe, linda, ninguém vai ler”.

O dia em que o mundo não acabou

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