Volta às aulas

  “_Não fale alto ou ele pode ouvir… Como é que ela está?”, sussurrou, não podendo esconder a apreensão que perpassava seu fio de foz. “Nada bem. Coma profundo, o acidente foi bem feio. A irmã morreu na hora. É difícil que ela escape”, respondeu o marido, suspirando. “Deus do céu, tão nova… Que tragédia, a família estava indo assistir uma premiação daquela irmã modelo que ela tinha, não?”, perguntou desolada. “Parece que a pista estava molhada, o carro capotou, enfim… Acho melhor não falarmos nada para ele por enquanto”.

No escuro de seu quarto, porém, ele podia ouvir tudo. Já acostumado com a forma com que as pessoas subestimam as crianças, não se surpreendia com as conversas e ruídos de adultos que chegavam aos seus pequenos ouvidos no tardar da noite. Mas não estava preparado para aquilo. Sentiu o coração parar por um segundo num forte estupor.

Apertou os olhos e logo a imagem de Fernanda veio-lhe à mente. Lembrou-se de como os longos cabelos castanhos claros formavam delicados cachos que reluziam com a luz do sol. Os olhos, redondos, transitavam por um marrom esverdeado que mudava ao sabor da luz. A mera presença dela fazia seu coração de menino de seis anos palpitar mais forte. Frases banais exaustivamente treinadas em frente ao espelho se transformavam em patéticas sílabas descoordenadas e sem o menor sentido frente à sua presença. Um olhar ou um sorriso efêmero já eram, porém, motivos para se ganhar o dia.

Saber que ela estaria na escola todas as manhãs, enfim, conferia um sentido ao esforço de acordar tão cedo e transformava, por outro lado, as férias como aquelas num verdadeiro tormento de espera e saudade.

No silêncio da quase madrugada, não teve dúvidas. Apertou as mãos junto ao rosto e, com a sinceridade própria dos pequenos, pediu à deus para que nada de mal ocorresse à ela. Acreditava no que sempre ouvira: não havia nada impossível ao criador. Bastava crer, e ele cria. Não só tinha fé como a simples ideia de que alguém pudesse não acreditar em deus lhe causava repugnância. Era tão claro e lógico, como não poderiam ver? Um mundo tão grandioso habitado por coisas e seres tão complexos só poderia ter sido concebido pela onipotência de um criador. Foi então dormir mais reconfortado, com a certeza de que suas preces seriam prontamente atendidas.

Acordou num sobressalto na noite seguinte.”_Ela morreu mesmo? Tem certeza? O que vamos dizer a ele?” A voz feminina, exasperada e aflita que ele tão conhecia. “É, parece que não teve jeito mesmo… Pobre criatura… Bom, acho melhor não falarmos nada ainda, a gente vê o que faz…”. Sentiu os olhos encharcarem e sufocou os soluços embaixo da coberta. Não entendia o que estava acontecendo. O que fizera de errado? A ele haviam ensinado que, caso as preces não fossem atendidas, a culpa recaía sobre o próprio pecador e a sua ausência de fé. Bom, mas ele tinha fé, sua vontade era justa e recusou-se a se resignar.

Passada a comoção, sabia o que fazer. Juntou novamente as mãos, entrelaçando os dedos com tanta força que ficaram com um aspecto arroxeado. Encostou as mãos na testa e pôs-se a suplicar a deus que desfizesse o que havia sido feito. Para ele seria fácil fazer voltar os ponteiros do relógio e, sutilmente, furar o pneu daquele carro antes que ele partisse rumo à autoestrada. Era tão simples. E nada daquilo aconteceria. Não haveria mais hospital, coma e ela continuaria de férias, esperando ansiosamente o início das aulas.

 Nas noites seguintes, o gesto se repetia. Punhos fechados e súplicas ardentes madrugadas adentro. Não confidenciou a ninguém seu plano secreto. Não haveria porque fazê-lo, pois dali a alguns dias tudo seria como antes e ele poderia voltar a contar os minutos para reencontrar aqueles olhos de esmeralda.

 Imaginava como seria aquele primeiro dia de aula, as crianças esbaforidas partindo em algazarra rumo às salas. A cacofonia alucinante de milhares de vozezinhas se encontrando. Até que, finalmente, ela apareceria caminhando calmamente, alheia ao barulho à sua volta. Os cabelos refletiriam a claridade da manhã, como sempre, e ela o olharia com carinho e um sorriso tímido e cúmplice que faria seu coração palpitar. Aí então, no recreio ele tentaria se aproximar, arrumaria alguma desculpa para trocar meia dúzia de palavras. “Essa borracha é sua? Estava aqui no chão…”. O que ela diria? Talvez nada, talvez apenas balançasse a cabeça negativamente. Mas só isso já valeria a pena.

 Reviu aquelas imagens em sua cabeça dezenas, talvez centenas de vezes e se reconfortava. Contava os dias para o final das férias. “Deus, por favor, faça com que ela esteja ali, na porta da sala, esperando a professora no primeiro dia de aula. Me leve, se quiser, mas não a deixe aqui. Sei que sou imperfeito e que poderia ser muito melhor, mas, por favor, não seria justo que isso não acontecesse. E o senhor é justo, e é bom, e eu te suplico, te suplico, te suplico”, cochichava baixinho, mas com tanta ênfase que o esforço lhe deixava rouco e o fazia suar.

 Até que chegou o grande dia. Vestiu-se rapidamente, engoliu o pão com manteiga e tomou o café com leite num só gole. Trocou poucas palavras com a mãe que o levava à escola. Não conseguia pensar em outra coisa ou se concentrar. Atravessou o portão e nem se despediu, permanecendo incólume aos gritos e correria à sua volta. Aproximou-se da sala e já pôde reconhecer alguns dos colegas à espera da professora. Contrariando a alegria efusiva do resto da escola, tinham a cabeça baixa e alguns se abraçavam com lágrimas os olhos.

 Antes que pudesse dar-se conta da situação ou pensar qualquer coisa, sentiu uma pontada forte na altura do estômago, arqueando-se até quase cair no chão. Sentia as vísceras se contraindo num violento espasmo de dor. Acudido pelo inspetor de alunos, foi levado à enfermaria para esperar a enfermeira de plantão. “O que você tem? O que está sentindo?” Não conseguia responder e nem saberia o que dizer.

Foi só então que conseguiu articular as primeiras conclusões. Fernanda não estava lá. Fernanda nunca mais passaria por aquele corredor balançando seus cachos castanhos. Fernanda havia morrido num acidente de carro. O mundo não era regido por nenhum senso de justiça e deus, por fim, não existia. E aquela infância, em vários aspectos, havia sido enterrada no funeral que nem fora capaz de ver.

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